A vida em memória

Abri o livro e encontrei a foto antiga. Marcava uma página que tinha vários sublinhados. Olhei atentamente. Recordei o dia em que o li pela primeira vez. Peguei nele e sentei-me no chão. Apanhei o comboio do tempo e retornei ao tempo em que a inocência e a inconsciência dominavam. Tudo era claro e linear.

Estava na estante da sala. Era uma casa de campo, num local perdido nos confins de qualquer sítio. O dia era sempre gigante e tinha sabor a doce. Entranhava-se nos poros e perfumava a alma, aquela coisita que eu estava a moldar, sem o saber.

A dona da casa era tão querida que tinha a sensação que a conhecia desde sempre. Com voz melodiosa e quente perguntava-me sempre o que queria, como se eu fosse alguém verdadeiramente importante. Tinha o cabelo tão engraçado! Um carrapito no alto da cabeça e umas farripas encaracoladas desciam pelo rosto. O que melhor me lembro é do sorriso, franco e aberto.

Depois das torradas e dos sumos havia um mundo enorme a ser descoberto. Tanta natureza encantava uma menina da cidade que estava a descobrir o que só conhecia dos livros. Ela insistia que saísse de casa e que fosse explorar todos os recantos. O gato, um preto gordo e reluzente, fazia-me sempre companhia.

Chegava cansada e vermelha do sol que apanhava e do ar que respirava. O bichano todos os dias me apontava um novo percurso e havia sempre algo a descobrir. Era um verdadeiro guia. Sentava-me na sala, esbaforida e ele pulava para o meu colo.

O odor já circulava pela casa e entrava no meu nariz. Todas as comidas daquela senhora eram deliciosas, ou então é a minha memória que as tempera assim. Eu, que nunca tinha gostado de comer, passei a ansiar pelos seus pratos confeccionados com bons produtos, mas muito amor.

De tarde ficava naquela sala tão clara e simpática. Duas enormes janelas, decoradas com cortinas simples, de flores pequeninas que conversavam comigo e que me diziam os seus nomes, dominavam o espaço. Os cadeirões, de madeira, tinham umas almofadas bordadas, à mão, que convidavam ao aconchego. As maçãs, as uvas e os pêssegos, encostados uns aos outros, trocavam segredos e tornavam o ambiente mais colorido.

Uma estante estava repleta de livros. Uns infantis, a Anita em todas as situações, que me fascinava pela beleza do desenho e simplicidade da história, as Gémeas, os Sete e os Cinco, os meus preferidos. Ao lado estavam outros géneros que eu desconhecia. Peguei no primeiro. Olhei para a lombada. Cheirei-o. Sentei-me.

Num instante desapareci dali, fui até outras paragens e senti-me parte integrante do que estava a ler. Foi aí que percebi que um livro nos faz ter saudades de locais onde nunca fomos. Devorei-o num instante, qual monstro faminto de conhecimento. No fim chorei como se tivesse sido comigo que aquela desgraça aconteceu.

O lanche estava servido e as uvas, redondinhas e bonitas, rebolavam pela mesa a desafiar-me para outros voos. Pegava numa e lembrava-me de uma passagem do livro, pegava numa outra e estava noutro capítulo e a minha imaginação disparou.

Tive de sair e correr por aqueles campos fora. Estava a sentir-me tão bem. Era uma sensação nova e estava a gostar. O gato nunca me largava e penso que fazia parte do tratamento e da terapia. Estava a funcionar na perfeição.

Nessa noite quis ler mais. Ainda bem que não havia televisão e que ainda se conversava. Depois de ouvir as histórias que se contavam, peguei num outro livro que me estava a chamar. Em poucos instantes senti algo de muito peculiar. Eu era a personagem, era aquela que estava a ser descrita. Como era possível? Não me conheciam, mas sabiam quem eu era?

Ficou na mesa de cabeceira e voltei a ele vezes sem conta. Dizia-me tanto! Eram as minhas confidências, a minha alma que crescia num espaço maravilhoso. Acrescentei folhas minhas, uma espécie de diário e o livro passou a ficar com o dobo do tamanho.

No fim do Verão, antes da escola começar, foram-me buscar. Era um dia de calor, mas chovia. Eu também estava a chover por dentro, porque ia deixar aquele paraíso, aquela zona que me tinha dado tanto conforto. Despedi-me da casa e o gato, a olhar para mim, soltou um miado tão triste que me tocou profundamente.

Na sala a senhora conversava com a minha tia. “Sim, comeu sempre e dormiu todas a noites. Não deu trabalho nenhum. Gostei tanto de a ter aqui. Vá dando notícias. Volte sempre que quiser. Desejo a continuação das melhoras. Já tem outras cores. A cidade deixa as pessoas doentes.”

Beijou-me com uma intensidade tão sincera que até fiquei emocionada. Entregou-me um embrulho grande. Era um farnel fantástico e o livro que eu tinha gostado tanto. “Leve, menina. É para continuar a sentir saudades minhas.” Sábia, muito sábia.

Em casa, um sítio frio e sem sol, sem aquele sol que tinha conhecido, senti-me tão só! Voltei ao livro e reparei que dentro dele estava uma fotografia. Ri-me. Era eu, com o gato ao colo, a comer torradas e a ler. Que belo presente. Que pessoa maravilhosa tinha conhecido! Nunca mais a iria esquecer.

Hoje, depois de ter saído do comboio, de ter mirado a estação vezes sem conta, sentei-me a chorar. Ela tinha partido deste mundo, mas nunca partirá do meu. Devo-lhe tanto! Aquele Verão, maravilhoso, quando ela me recebeu para me tratar da anemia e onde descobri quem eu era, ficará para sempre. Recordei os cheiros, os sons, a sua voz e a sua boa vontade. Chorei o gato que também já tinha ido para o seu arco-íris luminoso. Senti-me órfã.

Sentada no chão volto a reler as frases sublinhadas: “(…) e se os outros não te entenderem é porque são pequeninos, não chegam para ti (…)”, “(…) ser grande é saber contornar os obstáculos e continuar como se nada fosse (…)”, “(…) o escritor nasce em criança e necessita de escrever como de pão para a boca (…)”, “(…) ser feliz é aproveitar a magia das pequenas coisas (…)”.

Levantei-me. Peguei na foto e sorri. Sim, tinha sido muito feliz e nem tinha tido consciência de tal. Tanto que se tinha desenrolado desde essa época, mas a gratidão era toda para aquela senhora simples que me soube indicar o caminho da felicidade.

O meu próximo livro será sobre uma menina da cidade que vai recuperar para o campo. Lá conhece uma pessoa simples que a ensina a viver com pouco, a repartir e a aprender a ser feliz. Vai chamar-se A Vida em Suspenso, porque podemos sempre dar muito mais de nós. Basta querermos.

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