A Arte da Guerrilha

Hoje em dia fala-se muito sobre guerrilha e sobre os guerrilheiros. Os melhores exemplos são os guerrilheiros do auto-denominado Estado Islâmico na Síria e no Iraque e os elementos das FARC na Colômbia. Porém, o que é a guerrilha? E quem foram os mais notáveis comandantes guerrilheiros da História?

As origens da guerrilha, um modo irregular de fazer a guerra, estão perdidas no denso nevoeiro da Antiguidade. O célebre general e estratega chinês Sun Tzu (600 A.C), autor de A Arte da Guerra, já defendia o uso de táticas irregulares na sua obra. E são estas táticas irregulares, as emboscadas, o toca-e-foge, os ataques surpresa, a pequena guerra, os actos de sabotagem, a ilusão e a alta mobilidade, que caracterizam a guerrilha. Quem melhor definiu a guerrilha foi, sem duvida, Mao Tsé-Tung, quando afirmou: “O inimigo avança, nós retiramos. O inimigo acampa, nós assediamos. O inimigo cansa-se, nós atacamos. O inimigo retira, nós perseguimos.

Até hoje ninguém conseguiu implementar uma guerra de guerrilha melhor do que o célebre exército de escravos da Terceira Guerra Servil (73 A.C.-71 A.C.). Espártaco, Criso, Enómao, Casto e Cânico e o seu exército de escravos conseguiram fazer frente ao exército romano, um dos mais poderosos da História, graças ao uso da guerrilha. Não é certo que Espártaco, Criso, Enómao, Casto e Cânico fossem verdadeiramente os líderes da guerrilha, talvez estes 5 nomes venham de uma necessidade romana de nomear alguém líder, mas foram estes os nomes que ficaram para a história, e como tal não se pode falar de guerrilha sem mencionar estes 5 grandes guerrilheiros. Através de emboscadas, do embuste, da sabotagem e até da luta de igual para igual, o exército de escravos conseguiu pôr o exército romano de joelhos. Impõe-se a questão. Como é que um bando de escravos gladiadores conseguiu deitar a baixo o mais poderoso exército da Antiguidade? A resposta é simples. Os líderes e uma grande parte dos elementos do exército eram, ou tinham sido, gladiadores. E o treino de um gladiador, mais vocacionado para a sobrevivência, mais fluido e menos rígido na sua forma, era infinitamente mais eficaz do que o treino verdadeiramente militar do exército romano.

Avancemos agora para um período mais recente, mais precisamente para a Guerra da Independência Americana. O Exército Continental, comandado por George Washington (1732-1799), era um exército no verdadeiro sentido da palavra. No entanto, Washington teve a visão de aproveitar o apoio da população e formou milícias (grupos de combatentes não profissionais, como civis) para levaram a cabo a guerrilha contra o Exército Inglês, na altura a potência militar mundial. Durante os 8 anos que durou a guerra, as milícias e os soldados deram trabalho aos ingleses. Enquanto os soldados usavam as táticas tradicionais de um exército e lutavam nos campos de batalha, as milícias, fora do campo de batalha, usavam e abusavam das emboscadas, dos raides noturnos e da sabotagem, para cansar, tanto mental como fisicamente, os ingleses e também para interromper, na medida do possível, as linhas de abastecimento inglesas. Uma das estratégias preferidas do comandante máximo das milícias, Nathanael Greene, era provocar os ingleses, para depois retirar e atrair soldados para longe e quando eles estivessem longe o suficiente lançar pequenas unidades para os enfraquecer. Vale a pena mencionar que apesar de quase sempre vencerem as batalhas onde táticas guerrilheiras foram usadas, a vitoria dos ingleses era uma vitória pírrica, uma vez que os ingleses sofriam pesadas baixas.

Continuando com o tema das guerrilhas que lutaram contra o Império Britânico, somos forçosamente confrontados com a Guerra da Independência Irlandesa (1919-1921). Militarmente comandada por Michael Collins, este desenvolveu uma guerra híbrida lutada, em termos militares, tanto nas ruas como nos campos de batalha. Esta inovação, que hoje conhecemos como a guerrilha urbana, impediu o uso da grande maioria das táticas, e das unidades do exército inglês durante a guerra da Independência. Devido aos actos de sabotagem ordenados, e muitas vezes levados a cabo por Collins, os rebeldes irlandeses conseguiram ganhar a vantagem não só nas ruas como também nos campos, impedindo o uso da artilharia. Collins não foi o primeiro estratega a usar a guerrilha urbana contra um inimigo largamente superior e mais bem treinado, porém foi o primeiro a perceber, e percebeu-o rapidamente, a força disruptiva que a guerrilha tem num exército que não esteja preparado para combater num ambiente urbano.

Finalmente, Ernesto “Che” Guevara. Este é certamente o mais famoso líder de guerrilha até hoje, tendo-se tornado num símbolo da contra-cultura popular. No entanto, o que não é largamente conhecido é que Che Guevara foi também um brilhante autor de teoria militar. Na sua obra “A Guerra de Guerrilha”, baseada nas suas experiencias durante a Revolução Cubana, apresenta-nos os vários aspectos, incluindo um aspecto político, de como uma guerrilha deve ser levada a cabo. Nela, Che Guevara advoga o uso não só da sabotagem, de ataques altamente precisos e da estratégia do toca-e-foge como também ensina a luta em terrenos desfavoráveis, uma vez que se assume que q guerrilha estará sem provisões e sem pessoal suficiente. No fundo, esta obra é um manual de instruções sobre como conduzir uma guerrilha, sendo possível transferir os ensinamentos e aplica-los em qualquer parte do mundo.

Como disse no início do artigo a guerrilha não é mais do que uma forma irregular de fazer a guerra. E é essa forma irregular de fazer a guerra que torna a guerrilha tão difícil de combater por um exercito profissional. A grande maioria dos exércitos actuais, e para o registo histórico também os antigos, não treina os seus soldados para uma situação de guerrilha. Razão pela qual, a titulo de exemplo, o exército americano não consegue ganhar nenhuma guerra desde a II Guerra Mundial, falta-lhes a capacidade de adaptação. E o vértice, o ponto onde tudo se centra, da guerrilha é a capacidade de adaptação. Actualmente, tirando naturalmente as forças especiais, só três exércitos profissionais, treinam a guerrilha: Portugal, Israel e a Austrália. Desses três, apenas o nosso e o exército israelita conseguiram levar a cabo uma guerra de guerrilha bem-sucedida.

No futuro próximo veremos certamente mais exércitos profissionais a cederem à guerrilha. Será a única solução para os grandes problemas militares que assolam o nosso planeta de momento.

Share this article
Shareable URL
Prev Post

Snoopy e Charlie Brown: Peanuts – O Filme

Next Post

Dogville

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Read next

Paris nunca se acaba

Paris viveu três dias de terror, com um balanço trágico de 17 mortos em três acções terroristas. O fanatismo…