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MARY L.

Domingo, 2 Outubro

Manhã

Acordei suada. Ainda sinto os saltos do coração a ressoarem no peito. Estou em choque. O sangue lateja-me na cabeça. A festa de ontem foi bonita, mas se pudesse, teria fugido dali. A Joan estava deslumbrante. Meu Deus, a Joan. Sinto-me horrível. Não sei como descrever isto. Um desastre. Preferia não saber o que fiz. Como foi possível? Odeio-me.

Tarde

Acendi a lareira. Está frio. Ou então sou eu que não paro de tremer. A Joan ligou-me 5 vezes. Não atendi nenhuma. Espero que esta terceira garrafa de vinho me dê coragem para lhe ligar. Deve querer falar-me sobre o sucesso da festa de casamento. Estou de rastos. Nunca mais vou conseguir encará-la. Recebi agora uma mensagem dela. Quer saber se eu os posso levar ao aeroporto. Está excitada com a lua-de-mel na Islândia. Vou abrir a quarta garrafa. Apetece-me morrer.

TERRY

Sexta-feira, 23 de Setembro

Noite

Já estou atrasado. Preciso de tomar um duche e vestir-me. A rapaziada tem tudo pronto. Não tenho nenhuma ideia daquilo que eles possam ter preparado. Será uma despedida em grande, dizem. Mandei uma mensagem à Joan, o excerto de um poema que li ontem num livro da Sophia Pritz chamado “O azul dos meus olhos verdes”. Vai adorar.

JOAN

Sexta-feira, 23 de Setembro

Noite

Não tenho vontade de sair. A Mary L. ligou-me para sairmos. Vai a um bar que abriu no centro. Estou cansada e vou ficar em casa. Às vezes não me apetece ir a lado nenhum. Só quero ficar sossegada no meu canto. Desde a semana passada que me anda a convidar para a minha própria despedida de solteira. Já lhe respondi mil vezes que não tenho de o fazer. Acho deprimentes as figuras ridículas que se fazem. Custa-me deixá-la ir sozinha porque ela fez um grande esforço para vir ao casamento. Tirou 15 dias de férias propositadamente. Na verdade, já tinha saudades dela. Já não a via desde que foi trabalhar para o Pais de Gales. Faz 5 anos no próximo mês. O Terry mandou-me uma mensagem. Um poema lindo.

TERRY

Segunda-feira, 26 de Setembro

Manhã

Ainda tenho o perfume dela entranhado na minha pele. Que loucura. Cheiro as mãos e o que sobra é um aroma quente e doce. Pour Femme, da Dolce & Gabanna, de certeza. Sempre fui bom com perfumes. Ainda não percebi o que se passou. Não me recordo bem. Devo ter bebido bastante. Lembro-me apenas de sair na sexta-feira e de acordar no domingo com o som do telemóvel a tocar e de ver roupa de mulher espalhada pelo chão. O telefone voltou a tocar agora. Não atendi. Era a Joan novamente. Tinha 10 mensagens e várias chamadas não atendidas. Tenho de pensar numa desculpa. Vou apanhar o autocarro. Estou atrasado para o emprego.

JOAN

Domingo, 25 de Setembro

Manhã

Começo a ficar preocupada. O Terry não atende o telemóvel. Tínhamos combinado ir almoçar com a Mary L. Queria muito que ele a conhecesse. Vou desmarcar.

TERRY

Terça-feira, 27 de Setembro

Manhã

O cheiro dela continua gravado no meu nariz. Não consegui dormir esta noite. Tenho imagens a andar na minha cabeça. Andam, andam, andam. Não consigo afastar estes pensamentos. Não me consigo concentrar em nada. Olhos translúcidos, cabelo semi-encaracolado. Sedoso, agradável ao toque. Um sorriso.

Terça-feira, 27 de Setembro

Manhã

Liguei à rapaziada. Não me conseguem ajudar a perceber o que se passou. Imprestáveis. Lembram-se apenas de me verem a falar com uma mulher no bar. Dizem que saímos juntos. 

TERRY

Quinta-feira, 29 de Setembro

Manhã

Não sei o que fazer. Sonhei outra vez com ela. Consigo lembrar-me de tudo. Desta vez com nitidez. Tinha uma tatuagem. No ombro esquerdo. Era uma flor. O cheiro dela ainda me sufoca. O sorriso. Lembro-me do sorriso. Mas não me lembro do nome. Nem sei se alguma vez ela o disse. O casamento é daqui a dois dias. Esta inquietação rói-me o estômago. Estou atrasado para a reunião.

JOAN

Quinta-feira, 29 de Setembro

Tarde

O Terry anda estranho. Sinto que me evita. Talvez seja só ansiedade. Ainda faltam organizar algumas coisas para o casamento. Vou jantar com a Mary L. Quer contar-me algo sobre o bar que abriu no centro. Talvez me apeteça terminar lá a noite com ela.

TERRY

Sexta-feira, 30 de Setembro

Manhã

Tive-o outra vez, o sonho. Estou desesperado. Caso-me amanhã e uma mulher desconhecida, da qual nem sei o nome, instalou-se na minha cabeça e recusa-se a sair. A Joan perguntou-me o que se passa comigo. Diz que ando demasiado estranho e distraído. Respondi que é ansiedade devido ao nosso casamento. Mas não é. Sei que não é. Penso nisto a toda a hora. Se ao menos pudesse vê-la mais uma vez. Se há coisas que não têm explicação, esta é uma delas. Tudo nela é avassalador. Os olhos, o cabelo, o sorriso. Sim, o sorriso. Principalmente o sorriso. Como me posso apaixonar por alguém que só vi uma vez? Dormimos juntos, é certo. Mas nunca mais nos cruzámos desde aí. Vou almoçar com a Joan. Há várias coisas para terminar. Tem de ficar tudo pronto para amanhã.

TERRY

Domingo, 2 de Outubro

Tarde

Este sufoco é insuportável. E não pára de aumentar. Que soco no estômago. Ainda sinto as pernas a tremer. Culpa. Sobretudo culpa. Que conspiração maldosa. Quanto mais a Joan tenta ligar-lhe mais me apetece contar-lhe tudo. Soube-lhe o nome da pior maneira. Mary L…que loucura.

Manuel Jorge

Gosta de massa de peixe, do Benfica e de livros. Não forçosamente por esta ordem. Descobriu a escrita apenas aos 38 anos, mas ainda assim bem a tempo de conseguir desprestigiar esta arte. Acha, também por isso, que tudo lhe surge demasiado tarde e que nada na sua vida é precoce, tirando a ejaculação.

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