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ContosCultura

Uma caixa cheia de cores

Ela assustou-se de um sonho qualquer, mas não se lembrava. Tinha a sensação que tinham tocado à campainha, talvez tivesse sido no sonho. O sono enrolou-a de novo no quentinho das mantas, e voltou a adormecer enquanto ouvia a chuva lá fora. Com um sorriso de conforto e a sentir que conhecia a felicidade.

Acordou umas horas mais tarde. A língua parecia empapada, e ela sentia que não sabia quem era, nem onde estava. Tinha a mente enevoada e as mãos contentes, sem força. Espreguiçou-se, bocejou e afastou o cansaço dos olhos com os punhos. Levantou-se e foi até à cozinha comer uma taça de cereais. Enquanto mastigava demoradamente, a pensar em qualquer coisa sem importância, lembrou-se que alguém tinha tocado à porta, que a tinha feito saltar de um sonho qualquer. Será que lhe tinham deixado algum papel, ou alguma conta? Ou melhor: será que tinha sido real? Foi até à porta da rua, e abriu-a devagar. Tapou os olhos do sol.

Ali, no seu tapete, esperava-a uma caixa quadrada.

Olhou para a caixa surpreendida, como se, até àquele momento, tivesse duvidado da sua própria mente. A caixa era de cartão, da cor castanha do cartão. Sentiu a curiosidade na ponta dos dedos. Pegou nela, abanou-a e levou-a para o chão da sala. Sentou-se durante algum tempo no sofá, a olhar para a caixa. O que teria lá dentro? Era incrivelmente leve e não fazia barulho nenhum. Quem lhe teria deixado aquele presente? Seria algo perigoso? Mordeu o lábio. Sentou-se no chão, ao pé da caixa, e abriu-a. Devagar. Abriu uma aba, e a seguir outra. Olhou para dentro e afastou-se com um salto. Deitou-se no chão e riu-se alto. Os olhos brilharam enquanto observava aquele presente.

De dentro da caixa, tinha saltado uma nuvem. Etérea, parecia feita de algodão e de alegria. Era branca e azul e transparente ao mesmo tempo, como a água e o céu. A nuvem levitava por cima dela. E de dentro da nuvem, como se a nuvem fosse também uma caixa, explodia um arco-íris. O arco-íris tinha mais cores do que as que ela conhecia, e brilhava como se o sol batesse em gotas de orvalho. Directamente da sala dela, saía pela janela e iluminava o mundo.

E ela, numa explosão de sorrisos, deixava que a sua alma se sentisse completa.

Rosa Machado

Curiosa e fascinada pelo que não compreende, bicho dos livros e criadora compulsiva de hipóteses mirabolantes. O tempo não existe quando há conversas filosóficas sobre nada, gargalhadas dos amigos, abraços a animais, viagens pelo mundo e todo o tipo de arte.

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