Tolkien: o Senhor que Não Ganhou o Nobel

“O mundo da língua inglesa está dividido em duas partes: a daqueles que já leram O Senhor dos Anéis e a daqueles que ainda o vão ler.” Foi assim que o jornal britânico “Sunday Times” reagiu à publicação dos livros de fantasia do escritor J. R. R. Tolkien. A trilogia foi traduzida em mais de 40 línguas e ultrapassou os 160 milhões de cópias vendidas. O universo mitológico de Tolkein foi adaptado para o cinema, para a rádio e até chegou aos palcos de teatros. Contudo, aquele que entrou para o lote dos autores mais populares do século XX nunca recebeu o Nobel da Literatura.

“A Academia cometeu muitos erros com o Nobel da Literatura. Mas não acho que a falta de Tolkien seja um deles”, afirma Hélio Carvalho, editor de crítica literária no jornal online ComUM.  O estudante de Ciências da Comunicação reconhece que o autor tinha “uma criatividade ridiculamente enorme”, mas a escrita “não era nada de especial”. Aliás, foi esta falta de qualidade que retirou Tolkien da corrida ao prémio.

De facto, em 2011, o jornalista sueco Andreas Ekström revelou um segredo que tinha estado guardado durante 50 anos: Tolkien foi indicado para o prémio Nobel da Literatura em 1961. Quem o nomeou foi C.S. Lewis, o autor da saga As Crónicas de Nárnia, mas, no comentário à nomeação, podia ler-se que a “prosa de pouca qualidade” afastou Tolkien do Nobel. Nesse ano, o grande vencedor seria o jugoslavo Ivo Andrić, com uma obra que tinha como pano de fundo o folclore da Bósnia.

No final, as críticas em torno da escrita de Tolkien são dualistas: se, por um lado, há quem a rotule de “lixo juvenil”, por outro, O Senhor dos Anéis I faz parte das recomendações do Plano Nacional de Leitura.

Com vários contos e uma obra publicados, o escritor Sérgio Godinho acredita que o problema de Tolkien foi cair “várias vezes no erro Deus ex machina”. Não acabou de ler o Hobbit – outro sucesso de Tolkien – precisamente por isso: “O autor resolvia tudo com artimanhas, que, na maior parte das vezes, pareciam improváveis e pouco credíveis”.

Contudo, há algo que ninguém pode tirar a Tolkien: a criação de uma Europa mítica, com elfos, hobbits e uma língua criada de raiz. Não seria isto suficiente para atribuir o Nobel a Tolkien? Para Hélio Carvalho, a resposta é clara: “se tivermos em conta a qualidade da escrita que o Nobel personifica, não acho que o Tolkien mereça estar a par de Gabriel García Márquez ou Hemingway”.

Apesar de nunca ter ganho um Nobel, Tolkien tornou-se um dos escritores mais populares do século XX, influenciando artistas de várias áreas, da música ao cinema. Para a audiência, fica um mundo ficcionado. Para a literatura, um autor controverso.

 

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