The Dreaming Hotel

Esta história começa para vocês precisamente no ponto onde tudo termina para mim: no dia seguinte ao dia do meu casamento. Suponho que, agora, um juiz sentenciará sobre a tragédia, pois a realidade dos acontecimentos está longe de poder ser comprovada. A vida tem a capacidade de nos infligir dor das mais variadas maneiras. Digam o que disserem, nada nos prepara para a desumanidade da impreparação. Nem mesmo para as ironias que revelarei adiante. Não sei dizer com exactidão, mas é possível que os factos sejam estes.

Antes de mais, permitam-me confidenciar que eu vivia para o seu sorriso. Para ser rigoroso, eu vivia não só para o seu sorriso, mas, fundamentalmente, pelo seu sorriso. Em determinada altura, estas duas formas passaram a estar indissociáveis, na medida em que eram esses mágicos movimentos de extensão dos lábios que me mantinham vivo. Ao prazer juntara-se, assim, uma necessidade extrema e absoluta.

Conhecera-a no casamento de um amigo comum, o qual nos apresentou. Lembro-me que trazia um vestido azul e justo. Eu já tinha passado o limite de álcool admitido pelo bom senso, pois tempos antes prometera a mim próprio que iria deixar de beber. Bom, pelo menos da maneira assassina com que costumava fazê-lo. Queria manter o estado de sobriedade durante o máximo de tempo que conseguisse. O processo teria de ser gradual, tal como um atleta que vai ultrapassando as metas a que se propõe no ginásio. Esse seria o meu ginásio, o meu exercício para me manter são. Meia garrafa de Jack Daniels e umas quantas vodkas quase deitavam por terra a longa amizade com o noivo. Ainda assim, ou provavelmente por isso mesmo, ainda me lembro do sorriso dela. Talvez esse seu primeiro sorriso me tenha resgatado de volta ao mundo e me trouxera o prazer de voltar a viver.

A forma como a boca dela se alinhava num arco-íris de felicidade manteve-me, daí para a frente, desperto e longe da vida escura e de destino ruinoso. Até então, crescia-me o sentimento de que um período longo, ao mesmo tempo injusto e intenso como presidiário, me roubara a sensibilidade para a socialização. É possível que o tempo me tenha enganado, mas pareceu-me demasiado longo. Mas, dizia eu, daí para a frente passámos a estar juntos com regularidade. Ganhei coragem, contei-lhe toda a minha história, não se importou, casou comigo. Tudo assim, com a rapidez, a cadência e a vertigem de quem se apaixona e se deixa morrer por amor.

Tinha bom gosto, requintado. Era inteligente e apreciava pormenores, pelo que o pedido de casamento fora, no mínimo, original e repleto de significados. No dia do meu aniversário ofereceu-me um relógio despertador de mesa com design vintage, azul, da mesma cor do vestido que usara quando nos vimos pela primeira vez. Os ponteiros evidenciavam um sorriso: o das horas apontava para o número 10, o dos minutos indicava o 2. Façam um esforço e imaginem um relógio com os ponteiros dispostos desta forma. Verão um sorriso. O seu, que me mantinha vivo, e um sorriso de felicidade pelo pedido de casamento. Junto ao relógio, no fundo da embalagem, um convite para o meu próprio casamento. Informava sobre o local e a hora, ao mesmo tempo que realçava um último pormenor: a data do casamento era a mesma que os ponteiros do relógio previam. Casámos ontem, 10 de Fevereiro.

Lembrei-me agora que não vos contei o sonho que tive há dois dias. Sonhei que tinha ido a um funeral. Fiz aquilo que normalmente se faz quando perdemos alguém próximo: dei os pêsames aos familiares, velei o corpo. Quando me aproximei do caixão, o morto era eu. Poucos dias antes, não sei precisar quantos, sonhara que vivia num país onde nada acontece, onde a tranquilidade é total. Sem se perceber como, o país foi invadido por um grupo de terroristas. Instalou-se o caos e o pânico. As pessoas foram divididas em três grupos. Havia três grandes portas, uma espécie de fronteira para o desconhecido. Multidão, encontrões, gritos, medo. Empurrado pela multidão em pânico, a mão dela soltou-se da minha. Deixei de a ver. Chamei-a sem sucesso, gritei, saltei, tentei procurá-la num mar de pessoas, invadiu-me a loucura. Em que porta teria ela entrado? Indeciso, desesperado pela dúvida, deixei-me arrastar pela força da massa humana para uma das portas. Teríamos entrado na mesma porta? Acordei com suores a descerem pela testa e com o corpo exausto como se tivesse corrido duas maratonas.

Todas as desgraças têm um lado bizarro, até cómico em alguns casos. Não concordam? Atentem nas ironias: a primeira vez que a vi foi num casamento e casei com ela; a última vez que a vi foi também num casamento: no nosso; sonhei com a minha morte, ela está morta no dia seguinte ao nosso casamento. Pelo menos, todos os indícios à minha volta me conduzem para esse epílogo.

Estou a adiantar-me à ordem dos relatos. Ao mesmo tempo que vos conto assim, de forma fria e crua, que ela está morta, no dia seguinte ao nosso casamento, alguém bate com estrondo no vidro do carro da polícia, onde me encontro sentado e algemado no banco traseiro. É a mãe dela dirigindo toda a raiva para mim. Parece nervosa, muito nervosa, os olhos vermelhos de fúria. Grita palavras que não percebo. Prontamente é agarrada por alguém que está próximo, que a tenta acalmar. A dor de cabeça limita-me os movimentos e não consigo reagir. Tenho a boca seca e dificuldade de concentração. Limito-me a olhar em redor, assisto a tudo com a serenidade própria de um inconsciente, anestesiado. A entrada do hotel, virada para um grandioso parque de estacionamento, onde me encontro, apresenta um cenário verdadeiramente hollywoodesco. Ambulâncias, carros de polícia, fitas de sinalização, pessoas de um lado para o outro, polícias e bombeiros, familiares, vários convidados que pernoitaram, tal como nós, no The Dreaming Hotel. Ocorre-me que também o nome do hotel passou a ser uma ironia. Sinto náuseas, baixo a cabeça e reparo que a camisa tem várias nódoas e manchas daquilo que parece ser sangue seco. Na verdade, não sei explicar como ali foram parar. O corpo pesa-me de cansaço.

Já vos disse que vivia para o seu sorriso?

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