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The Chair

Como não ensinar a velhos professores truques novos

The Chair (2021) é a mais recente minissérie lançada pela Netflix. Retrata a recém-eleita diretora do departamento de Inglês, Ji-Yoon Kim (Sandra Oh), na ficcional Universidade Pembroke. No curso da sua nomeação, terá de lidar com todas as vicissitudes da vida académica, burocrática e financeira, bem como gerir uma vida pessoal turbulenta que se incompatibiliza frequentemente com a sua recém promoção. Visto ser a primeira mulher no cargo, bem como a primeira de ascendência asiática, a sua eleição pretende sinalizar uma mudança revigorante dos tempos. Todavia, o que se vai suceder ao longo da série irá se assemelhar mais a um solavanco do que uma revolução. O elenco conta com veteranos como Bob Balaban, Holland Taylor, David Morse e até uma aparição especial de David Duchovny, desempenhando uma versão (esperamos nós) melodramática de si mesmo.

Apesar de conter apenas seis episódios, não é difícil perceber rapidamente que a protagonista desta série não deveria estar na posição em que se encontra. Pelas mais diversas razões, seja por pressões financeiras dos superiores, amizades e relacionamentos incompatíveis com a sua posição, ou mera impreparação da sua parte, Ji-Yoon vê-se incapaz de tomar as rédeas do seu departamento. Não há nenhuma iniciativa realizada com sucesso e a sua liderança é constantemente debilitada e colocada em questão, até ao ponto de se ver incapaz de tomar as mais simples decisões inerentes ao seu cargo (escolher um académico para proferir um discurso, advertir ou despedir docentes, separar a vida pessoal da profissional, entre outros).

Ji-Yoon é ineficaz, indulgente, manipulável e constantemente sobrecarregada por um mundo e uma instituição centenária, inflexível e desatualizada. Visto ter sido eleita para iniciar uma renovação no pessoal docente e nos métodos de ensino, de modo a captar mais alunos e investidores, não deixa de ser curioso que aquela universidade tenha escolhido para liderança de um departamento alguém incapaz de gerir todas estas problemáticas, implementar as mudanças desejadas, ou até simplesmente “apagar fogos” que surjam quotidianamente.

É a partir do contraste entre a incapacidade e irresponsabilidade de muitas personagens docentes e as posições de responsabilidade que ocupam que a maioria do humor parece ser projectado, o que gera uma atmosfera leviana de “sitcom” que irá desestabilizar a tonalidade geral da série quando ela procura território mais sério e político, oferecendo uma permanente dimensão bipolar durante toda a série.

Há um ponto que merece ser levantado, sobre coerência e verosimilhança, que é a de que a intenção de humor nesta série brota de não se crer que as pessoas que são docentes nesta série sejam docentes de verdade. A incoerência surge no facto de que, se os docentes não se parecem com docentes, então os comportamentos e atitudes demonstrados quando se encontram a ensinar não são credíveis, precisamente porque a maior parte do humor resulta desacreditando as personagens enquanto professores. O maior problema é então o de que numa série que retrata os desafios e dilemas da docência não parecer existir qualquer tipo de docente naquela universidade.

Tornam-se repetitivos e, assim, previsíveis, os vários momentos e diálogos criados para comic relief, explorados a partir da inaptidão das personagens corresponderem às expectativas, ignorarem responsabilidades, rejeitarem conselhos ou incapazes de prestar auxílio. Os momentos mais “leves” resultam de o tom e atmosfera de aparente solenidade do meio institucional onde a série habita ser violentamente contrastada com os comportamentos e opiniões de personagens que parece que acabaram de “aterrar” naquele microcosmo universitário, denotando-se uma ampla dissonância cognitiva nestas personagens: levam demasiado a sério o que (não) fazem, mas não levam nada a sério quem são.

Como consequência, é relativamente expectável que não se leve a sério a larga maioria das personagens em nenhuma circunstância, dado que só num mundo tão inconsequente como o desta série/universidade é que estas personagens, que por vezes demonstram condutas, no mínimo, caricaturais e inaceitáveis, poderiam perpetuamente se comportar da maneira que se comportam. Esta universidade fictícia assemelha-se, por vezes, a um hospital psiquiátrico onde os doutores (os alunos) permitem que os pacientes (os professores e directores da universidade) prossigam a recriar as suas fantasias de serem professores sérios ao mesmo tempo que soltam gases, adormecem, gritam, praguejam e perseguem pessoas no campus. O resultado é uma série desequilibrada e repetitiva que frequentemente cai em tropos datados nos momentos mais leves e em truísmos moralizadores nas instâncias mais sérias.

O ponto sobre como tópicos importantes contemporaneamente – direitos de minorias, género e sexualidade, discurso de ódio, racismo sistémico, discriminação, sexismo, preconceito de idade – são abordados na série assemelha-se, por vezes, a uma receita, ou a uma lista de compras, que subordina a narrativa e as personagens à intenção extra-diegética dos argumentistas de riscar todos os tópicos, um por um, de modo a que a junção de todos os ingredientes misturados culminem num soufflé de activismo social. The Chair não oferece necessariamente uma solução concreta para cada problema (nem honestamente esperar-se-ia tal coisa), mas o facto de a forma como os trouxe para primeiro plano se assemelhar mais a uma aula (ou palestra) e menos a uma narrativa, leva à sensação de que os argumentistas meramente se apropriaram do contexto universitário e académico enquanto o cenário ideal para oferecer ao espectador um colóquio atualizado sobre a tal lista de tópicos. Embora seja uma série que se passa numa universidade, uma série ficcional não é uma aula de literatura, uma receita, nem muito menos, uma lista de compras.

Em suma, há aqui um detalhe importante a ser feito e que merece a nossa atenção: de que problemas e questões morais e/ou éticas são, sem dúvida, a “fruta” de onde a literatura (cinema, televisão) pode e retira muito do seu “sumo”; no entanto, o propósito da literatura não é de apontar necessariamente uma moral. Esta é a posição feita, curiosamente, por um teórico e professor da literatura americano do século passado, e no qual beneficiaria imenso o argumento desta série.

Por fim, é importante mencionar dois pontos cardinais intuídos no discurso final da protagonista no último episódio, e que dizem respeito à paixão pela literatura e, particularmente, à poesia:

a) a ideia de tentar demonstrar que as obras literárias dialogam com o leitor e falam sobre coisas que importam para o leitor;

b) a ideia de que as obras literárias são, maioritariamente, um espelho para o leitor reflectir sobre a sua existência.

O primeiro ponto representa uma tendência romântica e popular que não oferece nada de relevante para a experiência de leitura e ensino da literatura. A ideia de uma directora de um departamento de literatura inglesa proferir um discurso com aquele conteúdo é, no mínimo, inverosímil.

O esclarecimento importante a ser feito é de que os poemas não falam connosco (o leitor) e, muito menos, sobre coisas que importam para o leitor. Em sentido estrito, humanos dialogam com humanos, humanos dialogam com humanos sobre obras literárias e a obra literária não dialoga com ninguém. Na realidade, falar sobre obras literárias que importam para o leitor só acontece porque tal faz parte do processo de leitura e interpretação da obra pelo leitor, processo esse que existe porque existem outras pessoas que leem, interpretam e dialogam sobre as mesmas ou outras obras literárias. Será escusado relembrar que a maioria da literatura discorre também sobre coisas que não interessam ao leitor.

Isto leva-nos ao ponto b). A ideia nociva de que a literatura tem de ser “relatable” carrega consigo demasiados preconceitos, que impedem hipotéticos leitores de se depararem com obras com a única e pura intenção de serem lidas por mero prazer estético. Nem todas as séries, filmes, romances e literatura têm de ser relacionáveis, servirem de canal autorreflexivo, abordarem questões morais e éticas, ou possuírem características politicamente intervencionistas. A literatura não tem obrigação de consistir apenas num canal onde se descreve, desabafa ou comunica modos de vida subterrâneos. Há obras que poderão ser lidas por motivos históricos, académicos, profissionais, políticos ou simplesmente estéticos, pelo mero prazer em si. E este último modo de ler é algo que merece ser enfatizado aqui e que é, paradoxalmente, o mais árduo de “ensinar”. Embora existam muitos usos da literatura, a literatura não se resume ou define a um dos (ou conjunto de) usos que façamos dela, pois ela é indiferente e muda a qualquer prática. Não há mal nenhum em ler literatura pelo prazer admiravelmente inútil de ler literatura.

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Antigo Acordo Ortográfico.

Lauro Filipe Reis

Professor e formador em Línguas, Literatura, cinema e estudos asiáticos. Atualmente doutorando-se na área da Literatura e Filosofia.

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