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Sincronia noturna

Biphhh! Biphh! Biphh!

– Doutor, desculpe, existe uma maneira de desativar o som da máquina?

Biphhh! Biphh! Biphh!

– Que máquina?

– Aquela – Apontei ainda meio sedado pelos analgésicos.

Biphhh! Biphh! Biphh!

– Eh? Está a falar do monitor dos sinais vitais?

– Sim, o barulho está-me a deixar maluco.

Entendo, mas a única forma deste som mudar é trocando por outro mais incómodo. Tipo biiiiiiiiphhhhhhhhhhhhhh contínuo. – diz, fazendo uma linha horizontal imaginária com a mão – ​​E garanto que não será uma boa notícia, principalmente para você.

Que engraçado Doc. Não tem como calá-la? Se eu voltar a ter uma arritmia, não gostaria de saber.

– Ah! Ah! Ah! Mas eu sim, Sr. Gonzalez.

Tinha de tudo: um bom emprego, um carro da cor que sempre quis, jantares com gente importante, amigos, uma casa linda, mas sentia que a cada “bip” daquela máquina uma parte do meu mundo “feliz” desaparecia. Como se no final das contas, o importante era manter aquela televisão a funcionar para avisar, principalmente a mim, que estava vivo. Contudo, estaria realmente vivo?

Dizem que os sincronismos, o que acontece num tempo e lugar exatos e que desencadeia outra série infinita de eventos entrelaçados, chega até nós de duas maneiras. Ou temos consciência deles desde o nosso nascimento, ou eles cruzam-se no nosso caminho e nos atropelam como um caminhão de reboque num evento traumático. Aparentemente, aquela epifania havia-me atingido ali mesmo, enquanto ouvia o “bip” de cada máquina ligada aos pacientes da sala e, principalmente, a minha.

Cada som marcou um limiar, uma luta pela permanência, onde ninguém sabe se terá a oportunidade de voltar e mudar algo ou de desfrutar mais um segundo de algo, ou continuar a fazer o de costume, quem sabe.

No entanto, os apitos vão ao ritmo de cada um. O “bip” do vizinho de 50 anos bate ao ritmo do seu respirador, uma bomba que sobe e desce, introduzindo ar fresco no seu peito. Aquele da senhora do outro lado parou algumas vezes na noite passada e aquele careca da Box 7 desliga-se de cada vez que ele puxa os cabos, gritando que quer ir embora.

Como sociedade, acontece-nos a mesma coisa. As coisas chegam assim, na forma de caminhão, pandemia, guerra, não importa, somos filhos do rigor. Precisamos deste tipo de acontecimento, o mais traumático possível, a bofetada mais humilhante ao ego, para entender a nossa fragilidade e repensar as coisas.

A questão é o que faremos a seguir. Perceber que a nossa vida pode ser diferente do que nos ensinaram, questionar mandamentos sociais e acreditar que o próprio conceito de felicidade pode e deve ser reescrito, enfatizando as pequenas coisas: tomar um café na varanda, abraçar aqueles que amamos, caminhar a rua em liberdade? Talvez…

Biphhh! Biphh! Biphh! Este som que agora ouço todas as segundas-feiras à noite. Só que agora é a caixa registadora do supermercado lá em baixo, destacando os preços promocionais, como um lembrete ou uma sincronização noturna que me diz que voltamos, mas ainda não mudámos nada.

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Novo Acordo Ortográfico

Rodrigo Gonzalez

Advogado argentino que virou escritor nómada é criador do projeto "Terapia Nomade" que já leva 4 anos recorrendo o mundo. Apaixonado por viagens à boleia torna visíveis relatos de vida criando contos de pessoas incríveis a cada passo. Viajar para quebrar as estruturas sociais impostas, ter coragem e fazer da nossa vida uma história memorável, foi o mote que o levou a vender todos os seus pertences e saltar no imprevisível.

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