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Serpa Solidária durante a Pandemia

Como o afastamento social nos uniu

Nestes tempos de pandemia e pandemónio, apetece-me exaltar as boas ações. Então, quero falar-lhes de dois projetos de solidariedade popular que surgiram em Serpa – esta terra de onde vos falo. São o Cabaz Solidário e a Caixa Solidária.

Ambos os projetos têm como finalidade prestar apoio e auxílio àqueles que possam estar a sofrer mais com a pandemia e a paragem da economia, principalmente no que concerne a alimentação e outros produtos de necessidade básica que são doados de forma anónima e recebidos de forma anónima.

Porque é que é tão importante?

Bem, Serpa é um concelho rural, onde muita população trabalha no sector agrícola. Na verdade, este sector não parou propriamente durante o confinamento, mas avagou… o avagar significa que, por exemplo, os trabalhadores eventuais foram dispensados.

É gritante a precariedade de muitos destes trabalhadores, que, muitas vezes recebendo ao dia ou à hora, podem simplesmente ser dispensados (um pouco à laia da lei), perdendo os seus rendimentos. Esta situação surge da deficiência da proteção dos trabalhadores em contrato coletivo, sem termo e sem segurança.

Outra grande fração da população é, realmente, carenciada, auferindo pouco mais que um salário mínimo e dependendo de instrumentos, como o Escalão Escolar, para a ajudar na alimentação dos filhos. Como sabem, as escolas encerradas provocam um esforço financeiro maior também, devido à quantidade de produtos alimentícios necessários diariamente.

Para estabelecer uma visão mais palpável da situação, deixem-me dizer-vos que no concelho de Serpa:

  1. O rendimento mensal médio é de 851 euros;
  2. Existem sete centenas de pessoas beneficiadas pelo rendimento social de inserção;
  3. Existem mais de mil e setecentos jovens beneficiários do apoio da segurança social para sustento e educação de filhos;
  4.  O habitante médio em Serpa possuí 72,8 % do poder de compra do habitante médio em Portugal.

É, assim, um concelho de população frágil economicamente.

Voltando ao Cabaz Solidário e Caixa Solidária, o mais fantástico é ver como os “momentos de aperto” criam correntes em que se dá sem olhar a quem. Onde se é verdadeiramente solidário e se demonstra que por muito negro que o tempo seja, existe sempre uma luz e essa luz é a Humanidade, estarmos uns para os outros. Se isto não é ser Alentejano não sei o que será!

A Caixa Solidária encontra-se em Serpa, junto dos Correios (Posto CTT). É um mecanismo simples – uma caixa onde quem pode ajudar coloca géneros e quem necessita pode ir retirá-los. Está disponível a toda a população sem restrições e funciona com base na honra, pois não é regulado ou vigiado de forma alguma. Tem tido, até agora, bons resultados.

Falei com as jovens que criaram o Cabaz Solidário e começaram esta corrente, pedindo nas redes sociais que produtos fossem doados, fazendo a gestão dos pedidos e a entrega anónima dos cabazes a quem precisa.

O cabaz solidário, iniciativa de um grupo de jovens serpenses, tem ajudado mais de 30 famílias a ultrapassar as dificuldades criadas pela pandemia do Corona Vírus.

A Andreia Fava é um membro deste grupo de jovens amigas, unidas pelo sentimento de solidariedade com quem mais precisas, que me contou como já conseguiram ajudar mais de trinta famílias!

Quantas pessoas fazem parte do projeto?

Andreia – Nós somos oito pessoas, tentamos estar disponíveis todos os dias.

Criar um cabaz solidário não é novidade, mas fazia sentido. Queria saber o que vos motivou e como conseguem gerir a logística necessária?

A – Já tinha mais ou menos em mente fazer uma coisa do género. Já tinha informações da Caixa Solidário. A ideia era não ser uma coisa tão grande como se tornou, era mais uma coisa de amigas para contribuir e ajudarmos quem necessitasse mais diretamente. No nosso grupo do Whatsapp passamos a informação daquilo que é necessário fazer, quando existe recolha de géneros quem está disponível para recolher. Ou ao fim de semana indicamos uma hora para a entrega no sítio onde acomodamos os alimentos. Vamos dividindo e tentamos chegar a todo o lado. Os cabazes são feitos de acordo com os membros da família, idade, sexo… para conseguirmos dividir alimentos e até mesmo roupas que nos têm doado.

Sempre foi importante manter o anonimato de quem recebe os cabazes. Acham que ainda está muito estigmatizado o pedir ajuda?

A – Ainda existem muitas pessoas que necessitam mas têm vergonha de pedir. Hoje em dia já vamos com um total de trinta cabazes entregues. Para começar iniciamos uma página no Facebook e as pessoas começaram a mobilizar-se a disponibilizar alimentos. Existem pessoas que nos contactam, outras que nos indicam outras pessoas que necessitam. Neste momento temos ajuda de duas assistentes sociais que nos sinalizam alguns casos a que tentamos dar resposta. Tentamos sempre que haja um contacto antes de entregarmos o cabaz para sentir o à vontade das pessoas em recebe-lo e se efetivamente aceitam esta pequena ajuda.

Têm sentido crescimento da entre-ajuda na cidade?

A – Ao longo das últimas semanas sentimos um crescimento na ajuda, estamos a receber uma boa quantidade de alimento. Estamos a ajudar até quatro famílias por dia. Sentimos a necessidade de realizar gestão de stocks e há até produtos que nunca nos faltam.

Qual é a vossa percepção da constituição das famílias que ajudam?

A – Em média ajudamos famílias de meia-idade. Temos ajudado alguns agregados mais jovens com muitas crianças e que precisam de apoio não só na situação de pandemia como em todo o ano. Existem alguns idosos que já não vivem com os filhos e que passam algumas dificuldades a que nós damos resposta. Em média será meia-idade.

Visto Serpa ser tendencialmente um concelho rural e em que algumas pessoas passam dificuldades diárias, pensam continuar com o projeto de futuro? Será algo a nascer sempre que necessário? Ou determinam uma data para a última entrega?

A – Até que se verifique necessário, estaremos a entregar diariamente cabazes. Quando a situação da pandemia melhorar, a página continuará ativa e vamos continuar a receber pedidos, tentando dar-lhes resposta através do nosso grupo.

Quais são os produtos que mais precisam a cada cabaz?

A – Por norma existem produtos obrigatórios em cada cabaz: azeite, óleo, manteiga, vinagre, o essencial. Existe muita necessidade de leite e cereais – existem famílias com muitas crianças e um pacote de leite e uma caixa de cereais dura muito pouco tempo. Existem famílias que já estamos a ajudar pela segunda vez e estamos a tentar ajudar todas as semanas. É claro que alguns produtos fazem mais sentido numa entrega e outros noutra pelo que tentamos organizar e gerir as coisas da melhor forma e para que a ajuda dê resposta às necessidades reais de cada família.

Têm o apoio de alguma entidade?

Tivemos o auxílio da Junta de Freguesia… com a cedência de um espaço para guardar os produtos e cabazes feitos. Até à data era numa das nossas casas e essa ajuda é muito importante. A qual agradecemos muito! A partir de hoje poderemos ter um ponto de recolha dos alimentos o que irá facilitar todo o processo.

Foi esta a nossa pequena conversa, em saudável distanciamento social. Fico eu muito enternecido por ser testemunha de projetos como este que aqui nasceu, desejando muita força para que possam continuar a ajudar quem mais precisa com estes gestos tão bonitos.

André Afonso

Nasci em '95 em Serpa, Alentejo e, por isso, gosto das coisas que se alargam e duram como as searas e vivo bem a brandura quente do sol de Verão ou o rigor do frio de Janeiro. Sou Agrónomo, mas um pouco mais do que isso - gosto de investigar a cultura destas gentes, seja a música ou as excelentes mil maneiras de aproveitar utilizar Pão na cozinha!

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