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Ciências e TecnologiaSaúde

S. a mãe salmão – um milagre da ciência

No dia 7 de Junho nasceu o Lourenço, nome escolhido pela mãe, S., quando soube que era um menino. Este bebé nasceu de 32 semanas, com 2.350 kg, na Maternidade Alfredo da Costa. Sem o saber já é um bebé diferente, conhecido e estudado. Tem uma equipa especializada que o cuida e que o cuidou desde as suas 17 semanas, quando a mãe entrou nas urgências do Hospital de S. José, no dia 20 de Fevereiro, com uma hemorragia intra-cerebral. Estava em morte cerebral, mas o seu bebé estava saudável no útero e crescia, indiferente a esta tragédia que assolava a família.

Um caso deste é raro e único em Portugal. A mãe foi mantida viva para o seu filho continuar a desenvolver-se, num local protegido e adequado, o útero materno. O seu nascimento foi por cesariana uma vez que a mãe já não tinha vida. Tudo foi acompanhado por especialistas que além da vida que cuidavam, se empenhavam em aprender cada vez mais sobre aquilo que ainda é um campo cheio de minas. A família nunca lhe faltou, pai e avós e a de bata branca estava sempre presente, analisando minuto a minuto. A manutenção da gravidez foi conseguida através do suporte hormonal, nutricional e funcional da mãe. Uma incubadora diferente, humana, mas sem vida, algo de inimaginável.

Este menino é fruto de muito amor, de um desejo profundo de duas pessoas e tem todo o direito à vida. Há uma família que o irá amar, que já o amava antes de ser, que o manterá como alguém forte e determinado, uma continuidade de uma vontade de ferro de uma mãe que se anula para dar lugar a um filho. Esta situação só foi possível porque a decisão foi tomada em conjunto com a equipa médica e a família. De fácil nada terá tido e as dificuldades que surgirão ainda são uma incógnita que o futuro reserva.

Não houve, efectivamente, aquela comunicação que se estabelece entre a mãe e o filho, a relação privilegiada, durante toda a gestação. Há uma privação total e as consequências são desconhecidas. Só o tempo poderá ensinar e dizer claramente o que se passou. É um campo totalmente escuro que se deseja minimizar se for negativo. ” O pai deve criá-lo com paixão, compensar o que ficou perdido ” é afirmado pelo pediatra Gomes Pedro. Não será fácil para ele, um dia saber que para ele nascer a mãe teve de deixar completamente de ser. A vida sempre na dianteira, mas a um preço muito elevado.

Os bebés têm uma grande capacidade de adaptação, por isso é essencial que tudo lhe seja facultado, que ele próprio faça as suas escolhas e os seus caminhos. A parte emocional terá de ser reforçada, por motivos óbvios e este pai terá um papel duplo, uma luta para a qual ninguém está preparado. Não se nasce mãe do mesmo modo que não se nasce pai. Aprende-se e cada dia é um novo desafio, uma formação contínua que nunca deixa de existir. Aquilo que parecia impossível há uns anos é agora quase vulgar e do nada se pode fazer tudo. Este é o bebé da esperança, do futuro.

S., a mãe é uma guerreira, uma lutadora que até na hora da morte a adia para que o seu embrião se transforme no menino e que nasça saudável. Não precisamos de saber mais nada sobre esta mulher. Sabemos o essencial, a sua vontade de ter o filho, de o cuidar, mesmo sem o saber, de o criar, mesmo sem o poder. Conseguiu. Deve ser sempre lembrada e a sua memória honrada. O que é que faz uma mãe? Anula-se, quando é necessário, coloca os filhos à frente, na dianteira, são a sua prioridade. Mãe é mãe, independentemente do que possa acontecer.

Este rapazinho é um símbolo. Não sabe o peso que carrega nem a quantidade de amor acumulado que já transporta em si. É um resistente, alguém que recebeu o legado duma determinação tão grande que conseguiu alterar o rumo natural de uma vida. Este pequeno já é grande, tão grande que conseguiu emocionar todos os que estavam envolvidos no seu caminho. No momento do seu nascimento celebrou-se não só mais uma vida, mas um avanço na ciência, sem precedentes no nosso país. Por enquanto tudo corre de feição e as probabilidades da vingar são elevadas. Milagres não existem, o que acontece são novos caminhos na medicina, outros trilhos, na tecnologia que se alia à vida humana.

O salmão é um peixe com características únicas e muito especiais. Sobe o rio em diferentes estações do ano, de preferência no Outono, antes da desova que se estende desde finais de Setembro ou Outubro a Janeiro. A cor das fêmeas vai escurecendo. Depois de limpar o fundo com a cauda, põe os ovos, brancos, rosados ou vermelhos, com cerca de 6mm de diâmetro, em leitos de cascalho de águas superficiais. Após o papel do macho, com a aspersão fertilizante, são tapados com pequenas pedras. Nascem passados 90 a 120 dias, com cerca de 120mm e, entretanto, os progenitores já morreram. Primeiro o pai e depois a mãe. O seu corpo, decomposto pelas águas, é levado a todos os fundos com ovos, vai servir de alimento para os seus descendentes que irão ter, no futuro, o mesmo destino dos seus progenitores.

S., esta mãe foi a salmão. Subiu o seu rio em Outubro, mês em que engravidou e levou o seu menino consigo, protegido, dentro de uma bolsa sólida, feita de amor e material orgânico, um ovo muito especial. A sua não vida, o seu corpo serviu de elo de ligação entre o essencial e o necessário, alimentou o seu bebé, proporcionou-lhe o caminho a seguir, as pedras sólidas que orientam e, quando estava na hora, no momento certo, deixou de ser o suporte e deu lugar à nova vida que despontava, cheia de energia. Deixou de existir para ele começar a ser.

A vida humana ainda é um valor maior e inviolável. Certamente que, depois de entender tudo o que aconteceu, se irá sentir muito orgulhoso da mãe que o gerou, que o idealizou e que conseguiu. O pai será aquele que lhe irá dar as directivas, que o apoiará e será o ombro para chorar quando a emoção e o sentimento falarem mais alto.

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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