Cinema

Rambo V- A última batalha

“Rambo V- A última batalha” de Adrian Grunberg é o último filme de uma das mais famosas sagas de filmes de Guerra da história do Cinema e que juntamente com a franquia Rocky Balboa imortalizou Sylvester Stallone como um dos mais bem sucedidos argumentistas e actores de todos os tempos.

O primeiro filme de 1985 é uma adaptação de um romance de David Morrell que relata a história de um combatente da Guerra do Vietname, que se sentiu ostracizado pela sociedade norte americana após o seu regresso e que foi morto no final após uma impiedosa perseguição. A adaptação do primeiro livro, com significativas modificações, ocorreu com a realização do primeiro filme “Rambo, a fúria do herói” de Ted Kotcheff e protagonizado por Sylvester Stallone. É um filme onde Rambo é perseguido injustamente pela polícia de uma pequena cidade norte-americana. Dá-se lugar a uma verdadeira caça ao homem com Rambo a fugir numa moto da esquadra onde se encontrava detido, refugiando-se numa floresta onde Rambo acaba por resistir e ferindo vários polícias devido à sua perícia militar. No segundo filme, Rambo vai ao Vietname resgatar soldados prisioneiros no Vietname. No terceiro filme, Rambo vai ao Afeganistão resgatar o seu coronel Trautman (Richard Creena), detido num forte do exército soviético. No quarto filme, Rambo desloca-se à Birmânia para resgatar um grupo de missionários que pretendiam dar ajuda humanitária a um povo oprimido por um regime totalitário e sanguinário.

No quinto filme, Rambo encontra-se no seu país, os Estados Unidos da América, regressado há 11 anos da Tailândia. Ele vive com a sua tia, irmã do seu pai e com a sua sobrinha adolescente Gabrielle (Yvette Monreal) num grande rancho tipicamente americano. Encontramos um Rambo em paz consigo próprio, dedicando-se à paixão pelos seus cavalos. O longo passado de horrores, traumas e opressão parecem enterrados de vez. Além disso, ele sente muito orgulho na sobrinha que tem, amando-a como se fosse a sua filha e adora viver num lugar de paz que contrasta com os vários cenários de horror que viveu nas diversas guerras em que participou.

Um dia, porém, a sua sobrinha decide ir ao México visitar o seu pai que a abandonara na infância, porque sempre sentiu o desejo de o conhecer. Rambo adverte-a para não o fazer pois o seu pai é um homem mau que não quer saber dela para nada e que as pessoas más não mudam e pioram com o tempo. A sua sobrinha contraria-o e atravessa a fronteira do México. Ela vai ao apartamento do pai que uma amiga mexicana lhe disse onde se situava mas quando encontra o pai ela é rejeitada por ele dizendo-lhe que ela não tem significado nenhum para ele. Ela sai triste e vai a uma festa com a amiga mexicana onde acaba por ser drogada e sequestrada por um um grupo de narcotraficantes mexicanos liderados pelos irmãos Martinez (Sergio Peris-Mencheta e Óscar Jaenada). Ela passa a pertencer a uma rede de prostituição lucrativa para os irmãos Martinez.

Rambo ao saber da notícia vai até ao México procurá-la mas é interceptado pelo grupo de traficantes. Levou uma grande sova, sendo brutalmente espancado até à morte, sobrevivendo no entanto. Ele é levado e tratado na casa de uma jornalista mexicana (Paz Vega), que também perdera a irmã por causa daquele grupo de narcotraficantes. Ela ajuda-o a localizar a sobrinha e ele consegue resgata-la e levá-la no seu carro de viagem até aos Estados Unidos mas morre na viagem, devido aos ferimentos e às drogas que foi obrigada a ingerir. Esse episódio fez-me lembrar a morte de Cobao no filme Rambo II, a mulher vietnamita que o ajudou a resgatar dos soviéticos no Vietname e que foi assassinada com tiros de metralhadoras dos vietnamitas aos serviço do coronel soviético Podowski. Quando alguém fere as pessoas que Rambo ama o caldo entorna-se para os seus inimigos. A partir daí, aquilo a que os outros chamam de inferno, ele chama o seu verdadeiro lar e transforma-se numa poderosa máquina assassina. O seu instinto assassino e vingativo vem ao de cima e matar torna-se tão fácil como respirar.

Seguiram-se cenas de enorme brutalidade e violência atroz. Rambo vai ao México assassinar um dos irmãos Martinez e deixa a sua morada ao outro irmão juntamente com a cabeça do seu outro irmão cortada.

Rambo prepara o seu lar para receber os seus convidados. Os traficantes deslocam-se ao Rancho de Rambo para vingar a morte de Martinez. Mas como referi, aquilo a que muitos chamam de Inferno, Rambo chama de lar. Seguiram-se cenas de enorme violência. Os convidados foram recebidos com explosivos, chacinas com faca, assassinatos de enorme violência e impiedade tudo subordinado a um plano estratégico infalível de emboscada onde Rambo é um assassino invisível e os inimigos são umas presas perdidas e confusas, sentindo-se prestes a serem mortas por um predador feroz que as vê claramente mas que eles não conseguem ver. Rambo é um exército de um homem só que mata um a um todos os membros do grupo de narcotraficantes até arrancar por fim o coração do chefe Martinez.

Rambo é o protótipo do justiceiro solitário. É um homem bondoso, justo, afável, embora traumatizado e marcado pelo passado de horrores. Não é homem de procurar brigas. Mas transforma-se num assassino impiedoso quando confrontado com a crueldade de inimigos ímpios e sanguinários. Rambo simboliza a velha lei do Código de Hamurabi, o mais antigo Código do mundo: Olho por olho, dente por dente.

Rambo e Rocky são claramente o alter ego de Sylvester Stallone. O “Garanhão italiano” viveu na pobreza e na miséria antes do seu primeiro filme “Rocky, o lutador” de 1976, que ganhou o Oscar de melhor filme suplantando o filme “Táxi Driver” protagonizado por Robert de Niro. O momento de inspiração para esse filme foi ver o boxista Chuck Wepner ser fortemente arrassado em combate pelo lendário Mohammed Ali e ainda assim aguentar até o fim. Stallone defende nos seus filmes a resiliência ao sofrimento, a força interior nos momentos de desânimo e adversidade e uma persistência de aço mesmo quando as circunstâncias indicam que tudo parece impossível e que não há luz ao fundo do túnel. Rocky disse claramente no seu sexto filme:”Ninguém vai bater tão duro como a vida. Mas não se trata de bater duro mas sim do quanto você aguenta apanhar e seguir em frente, do quanto consegue aguentar os golpes e continuar tentando. É assim que se consegue vencer.”

Em Rambo não é muito diferente. A filosofia e as mensagens que Stallone tenta passar em Rambo são a da superação e resiliência. Mas Rambo simboliza o homem mal amado, que amou muito mas que viveu mais dor que amor, mais terror que felicidade ao contrário de Rocky. Todas as pessoas que ele amou são fantasmas que vivem apenas na sua mente. Ele viu-as morrer à sua frente de forma cruel. Desapareceram para sempre da vida dele. Faz-me lembrar a história que conheci de um jovem que um dia sonhou que encontrou pessoas que não via há mais de 30 anos mas com quem partilhou momentos incríveis e inesquecíveis. Ele encontra velhos amigos e a primeira mulher que amou na vida mas que se casou com outro homem. Um amigo que lhe conhecia bem vai ter com ele e pergunta-lhe ousadamente: É verdade que aquela mulher que está ali foi o primeiro amor da tua vida? O rapaz responde de forma evasiva mas auto-protectora: Eu nunca fui o primeiro amor da vida de alguém. Como quem diz: Amei sim, mas que motivos tinha eu para ama-la se ela não me amava a mim? De que adiantou se a perdi e nunca mais a vi? Em Rambo acontece um pouco assim. As pessoas que ele amou são fantasmas na sua mente, ele perdeu-lhes o rasto e a pátria que ele defendeu nunca o defendeu quando precisava dele. Rambo enfrentou várias guerras sangrentas. Mas a maior de todas foi a sua guerra com os fantasmas do passado, a falta de amor e a solidão. Aquilo que sempre mais desejou ele confessou-o ao Coronel Trautman no final do filme Rambo II:

“Aquilo que eu mais quero é que eu e as pessoas que deram tudo o que tinham pelo nosso país sejam amadas por ele assim como nós amamos ele. É isso que eu quero.”

Ainda assim, Rambo seguiu em frente e disse ao Coronel Trautman que iria viver um dia de cada vez. Demonstrou a força da sua resiliência e a razão de que nada é insuperável, mesmo a falta de amor e a solidão. Por isso, Stallone diz que Rambo é o símbolo dos oprimidos e daqueles que não tem voz. Por isso, é que considero Stallone uma pessoa muito admirável e inigualável.

Cris David Silva

Gosto muito de cultura e desporto. Tenho opinião vincada sobre várias matérias e gosto muito de refletir sobre os mais diversos assuntos. Sou apologista de que a vida deve ser vivida um dia de cada vez e com muita esperança e confiança, sabendo de antemão que a vida não é fácil e que é preciso muita força de vontade para conseguir dar a volta às situações difíceis.

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