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Os invisiveis

Quem nunca desejou ser invisível? Nem que fosse por cinco minutos: desaparecer na cadeira, quando o professor nos chamava para ir ao quadro, ou ficar transparente, quando o miúdo mais giro do liceu caminhava na nossa direcção. 

Quem nunca tentou fazer o mínimo ruído, suster a respiração e flutuar, para sair do quarto, quando o bebé finalmente adormeceu?

Era tão bom esse dom, tão útil, tão necessário!

Contudo, não é preciso ser o homem invisível, nem ter a Capa de Peverell para passar quase despercebido na nossa sociedade.

Todos os dias há todo um exército de invisíveis que nos passa ao lado, quase sem darmos pela sua presença. 

Por vezes, ainda estamos deitados nas nossas caminhas, quando um ruído nos desperta: o camião de recolha do lixo! Resmungamos, voltamos a cara para o lado e procuramos o tempo de sonhos que nos resta. De manhã, quando saímos de casa e levamos o saco para o lixo, encontramos um caixote vazio. De repente, lá nos lembramos do papel daquele camião matutino que nos despertou. 

Os Invisíveis lá fizeram o seu trabalho: discretos, calados e implacáveis, qual Batman ou Homem Aranha. 

Chegámos ao Outono: as folhas caem ao seu ritmo, dançam no ar, e entram sarjeta adentro. Amanhã, se chover, isto vai entupir! 

Na rua cheira a castanhas assadas, o fumo confunde-se com a neblina e eis que, qual D. Sebastião, da neblina surgem eles: Os Invisíveis! Qual Super Mulher, armada de vassoura na mão, empurrando o carrinho ou tendo como parceiro o Glutão, suga as folhas uma a uma! Não há entupimento que resista e, assim, amanhã, já pode chover à vontade. É ou não uma heroína?

No entanto, claro, como em qualquer boa banda desenhada, havendo um herói, haverá certamente um vilão ou vários!

Na cidade onde vivo não há um ecoponto, há centenas: quase um em cada esquina, literalmente, ao fundo de cada rua. Há uns anos, um simpático chimpanzé, o Gerevásio, aparecia na televisão, empenhado em ensinar que “reciclar é fácil, se até o Gerevásio consegue”.

Foram muitos os aplausos e outros tantos apupos: afinal insinuavam que “o macaco” era mais “esperto” que os humanos e isso não pode ser!

Na verdade, penso que toda a gente sabe como usar o dito ecoponto, mas, infelizmente, não o quer fazer. 

Não é muito difícil perceber que uma caixa de cartão pode ser desmanchada para caber na ranhura do caixote azul, mas é bem mais fácil deixa-la ali ao lado, à mercê da chuva miúdinha que a amassa e a cola ao passeio, ou do vento atrevido que a leva para estrada. Mas não faz mal porque “os senhores depois levam”. Os Invisíveis tratam disso!

A rua está em obras. Os camiões do lixo não passam por lá agora, colocam-se avisos para que o lixo seja depositado no contentor que fica a vinte metros de distância, provisoriamente, enquanto durarem as obras. A D. Maria como tem uma unha do pé encravada, não pode andar aqueles vinte metros e deixa logo ali o saco do lixo, debaixo do aviso. O Sr. Joaquim, que até ia lá colocar o lixo no caixote, deixa o dele imediatamente ao lado, então já lá estava um! A Catarina, que gosta de se intitular amiga do ambiente e dos animais, desce a escada atrasada para ir de bicicleta para a escola, porque não produz CO2, mas deixa o saco que trazia na mão logo ali, ia tão apressada que não viu o aviso. Mas não faz mal porque “os senhores depois levam”. Os Invisíveis tratam disso!

Os Invisíveis recolhem, apanham do chão, mexem naquilo que a D.ª Maria, o Sr. José e a Catarina fizeram como lixo e deixaram ali na rua, a uns metros dos contentores. Os Invisíveis recolhem o papelão do meio da estrada, o empapado do passeio. Os Invisíveis levam os sacos de garrafas da porta do bar e deixam-no ali, vinte metros abaixo no vidrão que fica à esquina. Depois os outros Invisíveis virão recolher. Os Invisíveis terminam o dia de trabalho e regressam a casa para a família, como os comuns dos mortais. 

Para além de todas as questões ambientais, tão debatidas nos últimos tempos, o separar do lixo, o colocar o dito no sitio correto, o respeitar os locais apropriados, também facilita a vida a quem o trabalha. Sim, o nosso lixo, os nossos resíduos, são trabalhados, e quem o faz, aqueles que, para muitos passam como invisíveis, têm um emprego de alta importância. Não custa muito respeitar esses profissionais, e basta que, para tal, façamos a nossa parte do puzzle. 

É que, por vezes, um sorriso à Sr.ª que apanha as folhas junto ao parque, um bom dia ao Sr. que recolhe o caixote quando saímos de manhã, um ecoponto sem caixotes do lado de fora e sem garrafas em caixas de papel, são um belo Obrigada aos nossos Invisíveis!

Aqui fica o meu!

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Andreia Mendes

Natural de Caldas da Rainha, 35 anos. Licenciada em Educação Social. Mulher, Mãe de dois. Com paixão pelas pessoas, pelas palavras, pelas acções, pelo teatro, pela música e claro pela escrita! Incapaz de compreender algumas injustiças por esse mundo fora, por esse tempo adentro.

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