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Parasitas, luta de classes e um cigarro

Com a força da chuva, o lado pobre da cidade fez-se lodo. O pequeno casebre, onde sobreviviam ao peso da pobreza, mergulhava num pântano podre e sujo. As poucas coisas que tinham boiavam à superfície da água lamacenta que lhes tomava de assalto a dignidade.

No meio do cataclismo, Jessica desiste da tarefa hercúlea de recuperar os seus pertences e senta-se no tampo da sanita, que não deixa de cuspir merda. Tranquilamente, quase displicente, acende um cigarro. Nesse gesto, podia ler-se a liberdade e a irreverência de quem, nascendo sem nada, nunca teve nada a perder.

Este é um dos poemas pintados por Bong Joon-ho em Parasite. A película sul-coreana apresenta-nos uma família que vive em condições degradantes, num bairro de Seoul, e que, audaciosamente, se consegue infiltrar na casa de uma família burguesa. Através de uma trama vertiginosa, o filme vai deixando a nu as contradições nauseantes de uma sociedade onde o berço define o que se pode almejar ser.

Joon-ho oferece-nos um retrato cru e cruel de um sistema económico que se alimenta do aprofundamento constante das desigualdades e da injustiça social. É o capitalismo capturado no esplendor de todas as suas falências. 

Ora, esta relação entre as famílias levanta uma questão basilar: quem é, afinal, o parasita de quem?

A resposta parece-nos evidente. Parasite é um hino a essa relação histórica de opressão entre exploradores e explorados, capitalistas e classe trabalhadora. Entre quem lhe vê vedada a possibilidade do triunfo e quem, no conforto parasitário da riqueza, não se coíbe de atirar ao ar um desdenhoso,

– Eles cheiram todos ao mesmo. 

Parasite fala-nos dessa maioria silenciosa que, diariamente, vê as costas vergadas por um jogo de dados viciados. No final, ainda com o sangue gelado, fica-nos retida na retina essa aguarela de pinceladas negras, quase belas, que retrata, sentada no tampo de uma sanita, uma rapariga a quem tudo foi negado. É a imagem do desespero, da injustiça e da abdicação. Mas também da esperança num grito que, um dia, se faça mudança. 

Às vezes, o gatilho da revolução não é mais do que um cigarro que, no meio da merda, nos recorde que vale a pena aspirar à liberdade. 

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