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Os irredutíveis

Romanos. Quem nunca ouviu falar deles? Aquele povo, com a mania das estradas e das termas, que se foi esticando pelas pontas do Mar Mediterrâneo. Sabem de quem falo? Navegaram de vaga em vaga e ocuparam vários continentes. Gente com hábitos peculiares e um linguajar assim para o estranho.

Foram chegando, de mansinho, sonsamente, com promessas de cargos e de medalhas e, aos poucos, tomaram conta de tudo. Mestres do aliciamento, foram bem-sucedidos. Criavam ilusões e todos queriam ser como eles, à moda de Roma. Uns verdadeiros influencers antes das redes sociais.

Contudo uma pequena aldeia na Gália não se deixava convencer e fazia o favor de lhes mostrar com quantos paus se fazia uma canoa, ou seja, por via de argumentos físicos bem potentes e óbvios, ganhavam sossego na sua casa. A paz era, eventualmente, interrompida, mas, com as técnicas ancestrais, voltava tudo ao normal. Tinham heróis lendários que faziam valer os seus direitos.

Ainda não se situaram? É do Asterix e do Obélix que falo, aqueles irredutíveis gauleses que representam a fibra dos que não se deixam levar com duas cantigas e que continuam a ser como são. A aldeia é uma metáfora da vida e os seus habitantes, que se estão a borrifar para as modas, seguem as suas rotinas como sempre.

Há de tudo nesta terra de gente destemida. O bardo, com canta tão mal que querem silenciar, apesar de estar convencido de que é um must, o chefe que evita contendas e quer uma vida calma, o druida, responsável pela chamada poção mágica que dá uma força descomunal a quem a bebe e ainda tantos outros que regem os seus tempos como se fazia ancestralmente.

Contudo, os heróis destacam-se e entram aqui o Asterix e Obélix, as caras da aldeia e que deixam tudo em pratos limpos, ou melhor, com as caras marcadas para não repetirem as secas graças. Pequeno e astuto, Asterix usa o cérebro e Obélix, grande e gordo, serve-se da força.

Dizem que caiu no caldeirão da poção mágica em pequeno e por isso ficou logo aditivado com poderes mágicos. O certo é que funciona à moda antiga, com punhos nos queixos do invasor, os romanos, que até voam quando ele se aproxima. Gosta de comer javalis e a sua profissão, que todos eles são gente de trabalho, é transportar menires, umas pedras gigantes que têm inúmeras funções.

Quanto ao Asterix, parece colecionar capacetes e muita lucidez para tomar as decisões mais acertadas nas horas vitais. Pequenino de tamanho, mas grande de pensamento, a ele se devem as muitas vitórias que todos os seus vizinhos festejam com um banquete, ao final do dia e onde o bardo é silenciado. Uma ironia perfeita que se percebe em cada aventura.

Estas histórias são contadas em banda desenhada, ou seja, com desenhos e balões de fala dos personagens, onde a piada inteligente anda à solta. Esta aldeia é na Gália, mas em Portugal existia um herói idêntico, o Viriato. Claro que os mitos e as lendas engrandecem tudo, mas a origem ainda tem valor. O invasor era o mesmo, os Romanos cheios de prosápia.

Há muitas maneiras de se aprender e a História continua a não ter o condão de ser revivida ou mudada. A melhor forma de se saber exatamente o que nos foi legado, pois somos todos herdeiros do Mundo, é conhecer os passos que foram dados. Aprender é enriquecer, ter um quinhão pessoal e o saber não ocupa lugar. Quem se recusa a ver a verdade, está condenado a viver na escuridão.

Assim somos nós, os seres humanos. Uns cheios de genica e de vontade e outros com receio de tudo. Os primeiros não vergam perante as adversidades e continuam a luta mantendo a sua integridade e dignidade, ainda que lhes possa causar muitos dissabores. Outros deixam-se levar com duas cantigas e, para eles, é preferível ter as mãos dadas com o que está a dar do que pensar ou efectuar qualquer tipo de esforço.

Dos fracos não reza a História e Viriato e Asterix tornaram-se imortais, com coroas de glória e feitos que podem ter sido reais. Certo é que morrem os que não querem evoluir e se deixam ficar no conforto do vegetar sem que qualquer paixão possa entrar nas suas vidas amorfas e monótonas. Pensar é uma dor de cabeça!

Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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