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Sociedade

A Saber Antes do Fim do Mundo

Talvez o problema seja meu, que torço o nariz a algumas expressões que se ouvem por aí. Expressões como o “vai-se andando” ou “obrigada por seres quem és”. Como se a nossa vida se fizesse ao sabor do vento e aquilo que os outros são para nós não dependesse, em grande medida, daquilo que somos para eles. Ao rol de expressões que não percebo, juntou-se uma expressão de que se usou e abusou nos últimos dois anos, “éramos felizes e não sabíamos”. A resposta que me ocorre de imediato é, pois se não sabias, devias saber.

Tal como nas expressões anteriores, afirmar que se era feliz e não se sabia é partir do princípio que a felicidade depende apenas de factores externos, das circunstâncias que nos rodeiam e não de escolhas que fizemos ou podemos fazer.

É certo que o que acontece à nossa volta condiciona o que sentimos, ainda que não nos atinja directamente, tornando a plenitude da felicidade uma mera utopia. A menos que sejamos egocêntricos ou psicopatas, as desgraças dos outros provocam-nos desconforto e tristeza, revolta e impotência e quase sentimos culpa se, à parte de tudo isso e querendo ser honestos, afirmamos estar felizes: connosco, com a nossa vida, com as nossas escolhas.

O que acontece é que confundimos o verbo ser com o verbo estar, quem sabe culpa dos ingleses que usam o mesmo para os dois conceitos. Confundimos o ser feliz, acto contínuo, com o estar feliz em determinado momento. Ser feliz é estrutural, resulta da nossa história, do que construímos e em larga medida da forma como encaramos o que a vida nos vai apresentando. Estar feliz é fugaz, intenso sim, mas perecível.

Ouvia outro dia uma entrevista com António Damásio, o nosso conceituado neurocientista, onde se falava da diferença entre emoções e sentimentos. Dizia ele que as emoções são visíveis: o medo que nos faz encolher, o contentamento que não esconde o sorriso rasgado. Os sentimentos não se vêem, existem dentro de nós e, se quisermos, conseguimos camuflá-los sem que ninguém se aperceba do que nos vai na alma e podemos fazê-lo durante muito tempo. Transpondo este conceito para a felicidade e a forma como a vivemos, ser feliz será o sentimento e estar feliz a emoção.

Há quem defenda que a felicidade é uma escolha e eu, à medida que os anos vão passando, tendo a concordar cada vez mais. São menos as circunstâncias e mais a forma como lidamos com elas que faz a diferença. Podemos optar por ver o lado negro, ou podemos decidir agarrar-nos ao que de bom cada experiência nos pode trazer. Acima de tudo, precisamos estar atentos ao que temos e ao que somos em cada momento, assumir e aceitar que muito de tudo isso depende apenas de nós. Resgatar o poder de decisão e deixar o vai-se andando. Reclamar a nossa quota parte de mérito (e de responsabilidade) no que os outros nos entregam. E permitirmo-nos saber se somos ou não felizes, sem esperar que chegue o fim do mundo para nos mostrar a verdade.

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Antigo Acordo Ortográfico

Joana Kabuki

Há em mim um certo desassossego. uma espécie de formigueiro que me impele à criação. talvez pudesse ter sido um Professor Pardal, ou um Mr. Q., não se tivesse dado o caso de eu e a Física nos termos cruzado sem nunca nos termos visto. Quis o destino que encontrasse nas palavras o sossego para o que me desassossega e desse encontro se revelasse uma alma de escritora. Sim, eu disse que se revelara "uma alma de escritora", não disse que se revelara "uma escritora". Ainda não disse.

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