“A melhor forma de exorcizar um trauma é insistir nele até que este deixe de ser um problema, escreveu um guru da auto-ajuda num livro que li, há uns anos, para me tentar salvar”, disse-lhe ela.
Deu um gole no vinho, sentiu-se a descontrair. Subiu-lhe um calor.
Vergonhosamente, estaria pronta para desabrochar. Primeiro, a medo, sentiu-o com a língua, passou-lhe os lábios. Respirou fundo. Ganhou coragem, fechou os olhos e levou-o à boca.
Contara-lhe, emocionada, que o seu pai a obrigara a fazê-lo vezes sem conta quando ainda era criança. Ficara-lhe o trauma. Ainda hoje, dez anos depois da morte do seu pai, estremece quando pensa nele. Tentara, por diversas vezes, pôr fim ao absoluto desencanto que carrega desde sempre. Vira diversos vídeos, lera alguns livros, aconselhara-se com profissionais de várias áreas, tentara de tudo com amigos e namorados. Em vão. O vómito e o nojo eram sempre mais fortes. As memórias rasgavam-lhe a coragem, iam sabotando a vontade de voltar a tentar. Os demónios a afligirem, um ardil que aprisiona.
O seu pai fora um homem rude. Trabalhava no campo, tinha uma pequena empresa de apanha e venda de cogumelos. Bebia até ao ponto em que ia buscar o cinto e se trancava com ela no quarto. A mãe, impotente, ia para o quintal inventar tarefas para não ouvir a aflição da filha. Era habitual que, entre os primeiros copos e a segunda garrafa, berrasse que ela teria de seguir o negócio de família, que teria de conhecer todas as espécies de cogumelos, saber negociar, distinguir os sabores e as texturas, perceber como se apanham. Culpava a mulher por esta não lhe ter dado um filho, castigava-a com os punhos e com pontapés. Considerava-as imprestáveis, uma perda de tempo serem mulheres.
“Estranhamente, custava-me desiludir o meu pai. Embora isso fosse uma sensação constante”, revelara-lhe, de forma retraída.
O sentimento de culpa seria real ou um estúpido logro? Nunca obteve uma resposta.
A mãe morrera de pancada do pai. Para os outros, de uma pancada na cabeça quando saía do armazém de cogumelos. Uma tragédia, caíra, coitada, andava doente.
Certa vez, pensou que já lhe bastaria. Queria outra vida, ver o mundo, esquecer-se do pai. Cansada, preparou a morte que seria a sua salvação. Outra tragédia, enfim, coitado do homem que morrera, andava desnorteado com a morte da mulher, caíra no poço, o que seria da miúda, quem tomaria conta dela, como seria o seu futuro, os vizinhos em choque.
Nesse mesmo dia, fugiu de casa sem que dessem conta. Enquanto se ocupavam do morto, esgueirou-se pelo portão sem fazer barulho. Parou uns segundos, olhou para trás, leu a inscrição “vendesse cugumelos”. Sorriu. Apanhou o autocarro, viajou 5 horas até à cidade. Fez-se passar por alguém com idade adulta, deitou-se menina, acordou mulher. Roubou comida e roupas, trabalhou em bares, ganhou dinheiro, conseguiu tirar um curso, desenrascou a vida.
A noite caíra há muito. A sala à média luz, aquecida pela lenha a arder. As confissões já tinham escapado, as feridas abertas, as lágrimas que iam secando. Levantou um pouco a cabeça e pelo canto do olho reparou que ele já tinha os talheres fechados no prato. Percebeu que tinha falado durante horas.
Ele ouvira-a em silêncio, com a paciência de quem aguarda a melhor parte. Com um gesto carinhoso, passou-lhe a mão pela cabeça, fez-lhe uma festa, enquanto ela, decidida, avançava. Experimentou a consistência e veio-lhe um vómito. Segurou-se. Ficou embaraçada, ruborizou. Pediu desculpa. Voltou a tentar. Não é que não gostasse. Era apenas a sensação da textura mais firme a causar-lhe repulsa. Depois, a pouco e pouco, foi-se habituando e o nojo inicial deu lugar a alguma satisfação. Afinal, não estava a ser assim tão mau, pensou.
Tinha vinte e três anos e era a primeira vez que o conseguia fazer de livre vontade.
Agora, engole, disse-lhe ele. Ela assentiu. Ele sorriu-lhe, limpou-lhe o canto da boca, beijaram-se. Seguiu-se o êxtase do alívio. Sim, os pleurotus e os shiitake deixavam, enfim, de ser uma cicatriz, um trauma.