O silêncio da maledicência

O silêncio da maledicência é uma daquelas doenças sociais que se espalham como o vento numa praça vazia – começa com um murmúrio, transforma-se em eco e, por fim, dissolve-se num sussurro tímido, ensopado em segundas intenções. Como quem fala baixinho, evitando que o alvo escute, mas, ao mesmo tempo, deseja que todos em redor ouçam e, idealmente, multipliquem o rumor.

É um silêncio ruidoso, repleto de pausas significativas e sobrancelhas erguidas, tão bem descrito por Eça de Queirós nas suas observações sobre as “pessoas de bem”, que, entre cortinas e conversas de esquina, se dedicam a surripiar a paz dos outros.
Há quem diga que o mais honroso é silenciar. Mas existe um silêncio que é traiçoeiro, que, no fundo, tem mais vontade de envenenar do que de proteger.

Este é o silêncio da maledicência.

Se houvesse um retrato deste estado de mudez, teria as feições de um grupo de figuras da alta sociedade oitocentista, reunidos numa tertúlia onde cada “silêncio” era mais eloquente do que qualquer discurso inflamado. Eça, mestre em apontar os defeitos da sociedade portuguesa, não teria deixado de anotar como um olhar de esguelha ou um “não digo nada, mas…” pode carregar tanta mesquinhez como um insulto direto.

A maledicência, nossa velha conhecida, não é novidade; tão antiga como as paredes de azulejo e o eco das ruas lisboetas, é um hábito feio que se embrenha como musgo nas ranhuras da cultura.

Revisitando Eça e o que escreveu em Os Maias sobre as subtis rivalidades e a importância de ser visto e comentado, nas rodas de conhecidos e entre os amigos de circunstância, ninguém podia ascender sem pagar o preço de uma piada mordaz ou de um rumor espalhado com aquele ar dissimulado de quem “não quer falar disso”. Isto fica particularmente evidente em várias partes do seu romance, nomeadamente nas reuniões na casa dos Gouvarinho, onde algumas personagens se juntavam para discutir temas como a instrução, o ensino, a educação das mulheres e a obsessão por tudo o que vinha do estrangeiro. Numa visível falta de cultura e numa mediocridade mental latente, o diálogo nesses jantares revela a mordacidade da maledicência, que Eça tão bem sabia retratar: «O Dâmaso anda por aí, por toda a parte, falando de ti e dessa senhora, tua amiga… A ti chama-te pulha, a ela pior ainda.» — Eça de Queirós (2011), Os Maias.


Pelas mãos do escritor, os comentários irónicos revelam o burburinho que alimentava as conversas oitocentistas e o modo como as pessoas falavam umas das outras, oferecendo-nos a imagem de uma sociedade hipócrita e invejosa. Os diálogos e os pensamentos das personagens em Os Maias refletem os costumes sociais superficiais, mais preocupados em julgar e comentar a vida alheia do que em considerar questões morais. Não seria Eça um visionário?

Diz-se que o português valoriza a quietude, mas, na prática, há momentos de silêncio que ferem mais do que um grito. Quantas reputações não se perderam por uma ausência de palavras tantas vezes guardadas, outras vezes semeadas com um ligeiro levantar de sobrancelha, um desviar de olhar ou um “não comento”?


Este silêncio maledicente não é a falta de palavras, mas sim a presença das certas, ditas ou caladas com precisão. É o murmúrio de quem omite algo por prudência, mas que, no fundo, deseja apenas que cada um imagine o pior.

Se Eça ainda estivesse por cá, continuaria a recordar-nos de que essa maledicência é fruto de uma sociedade que se reflete nas falhas alheias para esquecer as suas.

Afinal, se Eça nos ensinou algo, é que, em Portugal, o talento e a integridade são como árvores frondosas num quintal pequeno – para muitos, é mais confortável vê-las como ilusões passageiras do que exemplos a seguir.

O mistério da sociedade não está nos discursos inflamados, mas nos silêncios que ferem e escondem sentimentos abotoados no peito, como um liame invisível que prende as emoções, tornando-se num fardo. Esses silêncios, semelhantes a fios de aranha que envolvem os corações, criam um labirinto maldizente onde murmúrios se transformam numa teia que captura e distorce a verdade, alimentando, rumores e desconfianças.

E, assim, seguimos nós, numa sociedade que ainda parece precisar do espelho, mas que, de preferência, se quer ver refletida em vidro fosco, onde as formas são difusas e os defeitos, quase invisíveis. Enquanto isso, mantém o velho hábito de transformar os rumores em retratos – incompletos e distorcidos.

Nota: Este artigo foi escrito seguindo as regras do Novo Acordo Ortográfico

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Comments 15
  1. A maledicência existe sempre que há concorrência entre duas pessoas. Uma delas fará tudo para se sobrepor nem que para isso tenha de denegrir o outro.

  2. Tal como Eça foste ao cerne de uma sociedade crítica, maledicente, triste figura.
    De braço dado com essa estranha forma de ser, há o poder, o querer sempre mais, à custa de espezinhar os ditos” mais fracos”.
    Gostei muito, Elizabete.❤️

    1. Muito obrigada pela preciosa apreciação. Uma partilha pertinente de quem é uma inspiração para mim. Grata, Leonilda!

  3. Uma reflexão profundamente poética para uma verdade inexorável. Grata pela partilha, Paula.

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