O sentimento inebriante de um novo começo

Corria. Olhava para trás, mas não via nada. Era de madrugada, o sol ainda não tinha nascido, as pessoas dormiam.

E ela corria.

Corria tanto quanto lhe era permitido, com uma mochila às costas e com ele ao colo.

Ele. Por ele é que corria. Por ele é que ela fugia. Sentia as mãozinhas pequeninas agarradas ao seu pescoço e os tremores, de frio e de medo. Mas esperava que também estivesse feliz, que percebesse que era por ele que corriam.

Tinha tentado ignorar quando só havia medo nos olhos negros do seu filho. Tinha tentado ignorar quando ele vomitava com os nervos ao aproximar-se a hora de chegada. Tinha tentado ignorar quando ele acordava com pesadelos à noite, chorando, pedindo para não apagar a luz, para ela dormir com ele. Tinha tentado protegê-lo, proteger-se, com esperança que houvesse um futuro, uma família. Mas só havia uma família na mente dela, nos sonhos dela. E ela não tinha conseguido ignorar mais, não tinha conseguido ignorar o barulho do cinto, o choro baixo, o olhar suplicante e as nódoas negras. As nódoas negras dele, do seu filho, porque as nódoas negras dela já não chegavam.

Por isso tinha fugido, de madrugada, depois de ele sair para trabalhar. Morria de medo que voltasse; que se tivesse esquecido de algo e que voltasse a casa e os apanhasse.

O sentimento inebriante de um novo começoMas ela não o via, quando olhava para trás. Não o via, e ele estaria no trabalho enquanto eles fugiam, descansado, e só muito mais tarde descobriria o que tinha acontecido. Mas a mãe dela tinha-lhe comprado um bilhete de comboio para longe, para um lugar que nunca tinha sido mencionado nos cinco anos de casamento, para um lugar em que ele não os pudesse encontrar.

Correu, sentindo os bilhetes no bolso de trás das calças, a sua chave para a segurança, e sentia o peito transbordar de medo e esperança. Transbordar de possibilidades, de um futuro, finalmente, mais real do que via na mente dela, nos sonhos dela. Apertou-o mais contra o peito, acalmando-o e acalmando-se também.

Não o largou durante toda a corrida até à paragem do autocarro. Não o largou durante o percurso do autocarro até Santa Apolónia. Não o largou enquanto esperavam o comboio. Doíam-lhe os braços e as pernas, mas ele era a sua força e ela não o largou. Cheirou-lhe o cabelo suado, cheirou-lhe o medo na pele, e beijou-lhe a testa.

“É por ti” disse baixinho. “É por nós”, corrigiu-se, permitindo-se fechar os olhos por segundos, desfrutar da ilusão e do sentimento inexplicável e inebriante de um novo começo, de uma luz na escuridão, de uma salvação de última hora.

E só quando o comboio começou a andar, para longe, para muito longe, para muito, muito longe, é que se permitiu largá-lo. É que se permitiu sentá-lo ao seu lado, adormecido, e o observou.

Começou a rir às gargalhadas, louca e repleta de vida, sozinha na carruagem, enquanto observava o seu filho, a sua força, dormir a salvo.

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