A large monument with a clock on top of it

O estado a que chegámos

Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados socialistas, os estados capitalistas e o estado a que chegámos.

Salgueiro Maia

Com estas palavras, Salgueiro Maia motivou 240 militares da Escola Prática de Cavalaria de Santarém a juntarem-se a outros e, assim, terminarem com a ditadura. As palavras, ditas em trocadilho, encerram em si uma crítica ao estado de decadência de um regime.

Era um regime no qual militares ocupavam a presidência da República, entre outros cargos, onde o problema habitacional, nomeadamente, falta de casas suficientes e consequente sobrelotação ou famílias que tinham de viver em barracas para não dormirem sob as estrelas. Um regime onde as ligações entre os poderes económico e político eram tão intensas, que não se percebia muito bem onde acabava um e terminava o outro.

Decorridos 50 anos após o derrube do “estado a que chegámos”, muitos problemas de então ainda persistem ou ressurgiram.

Este estado a que chegámos consegue ser madrasta para milhares de imigrantes que permitem que muitos setores económicos, como o pesqueiro ou o agrícola, mas também o da construção ou o da restauração, funcionem. É, ao mesmo tempo, uma excelente mãe para os imigrantes empreendedores que escolhem viver aqui, muitas vezes comprando casas que ficarão vazias após a sua partida, na esperança de que valorizem um pouco mais.

Um estado que permite que muitos portugueses tenham de viver em casas frias no inverno ou extremamente quentes no verão. Isto, claro, se for possível arrendar ou comprar uma casa. Para muitos, uma cama num quarto partilhado com estranhos é o seu lar de repouso após uma jornada de trabalho e de uma verdadeira aventura épica nos transportes públicos. Infelizmente, parte dos trabalhadores, nem uma cama num quarto consegue pagar e tem de se resignar a pernoitar perto de muitas montras onde produtos de luxo são vendidos. Numa das infelizes vezes em que aparecemos no pódio internacional é neste tópico. Portugal é o país da OCDE onde é mais difícil comprar casa, mas, também, onde o acesso à habitação é dos mais difíceis, demonstrando as consequências de preços de casas a subirem quatro vezes mais do que os rendimentos médios. 

É o país onde um governo cai na sequência de diferentes casos e casinhos e onde se descobre que um Primeiro-Ministro, na sequência da posse de uma empresa com suspeitas de possível atividade imobiliária, afinal, recebe avenças de empresas com interesses na renovação de licenças de exploração de casinos, entre outras práticas. E este novo governo ainda só agora está perto do seu primeiro ano de tomada de posse.

O país onde a corrupção e o compadrio se tornam tão habituais, que o único espanto não é tanto o crime em si, mas a dimensão do mesmo. É este estado a que chegámos que permitiu que um diretor do INEM acumulasse funções incompatíveis durante dois anos, além de, alegadamente, ter incumprido as regras das listas de espera. Isto, num cenário onde os serviços de emergência médica mal funcionam e pessoas morrem enquanto esperam por uma simples ambulância.

Para os mais ousados, a solução é emigrar. Este estado que investiu na sua formação não colhe os frutos desse investimento, arriscando-se a uma posição ainda mais subalterna de local de formação para outros países. Aqueles que não conseguiram estudar e que preferem ficar, têm de permanecer 30, 40 anos na casa dos pais, muitas vezes em trabalhos precários e sem perspetivas de futuro.

Este estado a que chegámos tem um sistema partidário onde quase todos os partidos estão mais interessados em ganhos a poderem ser usados no próximo ato eleitoral do que num plano de desenvolvimento nacional que nos retire da dependência de uma União Europeia cada vez mais belicista e de uns EUA que, sem pudor, falam abertamente de planos imperialistas de anexação de territórios ou países aliados.

Este é o país que parece viver na ânsia de que um militar com tendências autoritárias e discurso bélico, finalmente, divulgue que é candidato a Presidente da República. Como se um militar austero precisasse de pôr fim ao pântano que tem sido os últimos anos e traga um pouco de virtude às instituições, acabando por nos salvar. É o encoberto que, à semelhança do que se passou há 99 anos, em 28 de maio, se revela para tornar Portugal grande outra vez.

Parte de 1 169 836 eleitores que o Chega teve é a este estado a que chegámos que quer pôr fim. Não se trata de demonizar um partido que, em boa verdade, está tão maculado, que cada vez que se descobre mais um deputado deste partido que cometa um crime, já nenhuma surpresa traz. Tampouco se trata de apequenar o eleitorado deste partido, que se viu para trás num mundo que parece não mais se preocupar com a sua condição social ou económica. É verdade que, entre estes eleitores, muitos são saudosistas de um regime que mostra o pior da humanidade, mas, felizmente, esses são uma minoria.

O estado a que chegámos, à semelhança daquele que foi derrubado há 50 anos, não consegue responder às necessidades atuais. Parte deste problema foi causado por uma inversão das conquistas feitas e de um ataque sistemático e persistente a serviços públicos, através do subfinanciamento ou privatizações feitas em preços de saldos e, nalguns casos, aos antigos proprietários cúmplices do antigo regime. O neoliberalismo, com a sua política de livre funcionamento de mercado, privatizações dos serviços públicos, políticas autoritárias e desregulamentação, no âmbito trabalhista e económico, tem contribuído grandemente para este estado caótico a que chegámos.

Com a decadência da vida política e num misto de alheamento da realidade, muitos caem no canto da sereia populista que, longe de ser uma alternativa, serve de capataz de uma elite política perdida e sem soluções, não se importando de lançar mão a um bando de arruaceiros para manter a população dividida e distraída com as verdadeiras causas do problema.

O estado a que chegámos pode ser revertido, quando o poder político se sobrepuser ao poder económico, com este a ser usado ao serviço de quem produz; quando os impostos deixarem de ser usados para financiar guerras e passarem a ser usados para o desenvolvimento nacional e promoção da paz entre os povos.

Quando o povo, enfim, acordar deste longo sono e tomar nas suas mãos o poder de se conduzir, sem necessidade de salvadores misteriosos, tomando como referência os momentos grandes da História e do que foi possível conquistar quando uma verdadeira energia e vontade são usados para construir um novo mundo. Não basta olhar para as conquistas passadas, é necessário aprofundar e ampliar essas conquistas.

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