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Contos

O dia em que Deus me mandou à merda

Na tarde em que as erecções começaram, senti-me só, cruelmente abandonado. Nesse dia, e porque achei que a minha vida parecia ter chegado ao fim cedo de mais, perguntei a Deus que merda era aquela, roguei-Lhe que se revelasse. Não havia direito. Tínhamos um acordo: Deus tomava conta de nós, o meu tio, de mim. Deus, não sei onde estava, e o meu tio não me ouviu. Nessa tarde, tive raiva de Deus e uma grande desilusão com o meu tio.

Nesse momento de angústia, e enquanto o meu tio gritava pela casa que uma banda inglesa – pela qual ele era fanático – tinha tocado no terraço de um prédio em Londres, o pânico tomou conta de mim. Sozinho na casa de banho, chorei compulsivamente, aterrorizado com aquilo que me estava a acontecer, uma doença terrível, ia morrer de pénis inchado, que vergonha seria o meu funeral, o que diriam as vizinhas, a minha vida terminara e o meu tio, get back, get back to where you once belonged, os berros a ressoarem pelas paredes.

Se uma parte do corpo incha assim, de forma descomunal, é porque alguma coisa grave se passa e estamos prestes a morrer, e eu não podia morrer tão novo, tinha tantas coisas para aprender e fazer na minha vida. Eu, que era tão bom aluno e gostava tanto de matemática, oito vezes cinco, quarenta, não podia acabar daquela forma. As crianças não merecem morrer, eu ainda não era velho como a velha de matemática. Eu não gostava da velha de matemática, mas jurei que ficaria a gostar se aquilo me passasse. Ambicionava ser bombeiro ou polícia para salvar as pessoas e, afinal, ia morrer ali, naquele momento, sem qualquer ajuda. A ironia consegue ser muito cruel. Tinha sonhos por cumprir, queria viajar e ir à terra dos americanos. O tio prometeu que um dia me levaria a ver os prédios grandes, as ruas cheias de pessoas e a estátua de uma mulher com uma chama na mão. O tio, que tinha sempre uma solução para tudo, também teria, certamente, uma solução para o meu mal.

Com a voz trémula, chamei por ele. Um silêncio torturante, inesperado, a causar-me desconfiança. Don’t let me down, don’t let me down, o meu tio, que me deveria proteger de tudo, que me ensinaria as coisas da vida, que me mostraria como ser um homem, cantava e celebrava, e eu abandonado à minha pouca sorte, sentado no chão frio, vou morrer, vou morrer, que coisa esta que me foi calhar. Insisti, mas a voz fugiu para outro lugar qualquer, perdida. Foi quando me dei conta de como é triste morrer na solidão. Imaginei a mãe, sozinha, naquela cama de hospital dias a fio, com o corpo dorido, inchada como um elefante, as feridas a abrir, as dores lancinantes, os gritos que se ouviam no corredor. Era uma quinta-feira, lembro-me bem. A notícia, dura, foi transmitida pela enfermeira, a tua mãe estava a sofrer, foi para o céu, já descansou, já não sofre mais. Mas sofria eu, em silêncio, sozinho, a dor que rasga, o chão que foge. A notícia apanhou-me de surpresa. Ficou tanto por dizer, convencido eu que estava de que tudo se resolveria e que seríamos devolvidos à condição normal de mãe e filho. A mãe era bonita. Tinha olhos verdes, como os meus, e cabelo escuro, comprido e ondulado, tal como as ondas do mar. Foi isso que ela me disse, porque eu nunca vira o mar. E eu acreditava na mãe, nunca me mentiu. A mãe era carinhosa e tinha uma voz de mel, doce e calma. A certa altura julguei, erradamente, que poderia estar apenas num sonho mau. Não estava. Durante umas semanas, ao regressar da escola, corria para o quarto da mãe para confirmar que ela não morrera. Mas ela nunca estava no quarto. Nem em qualquer outra divisão da casa. Nunca mais lá esteve. Restaram o medo e os sonhos.

Um desespero intumescido crescia-me e a pessoa que deveria estar a cuidar de mim trocara-me por uns malucos que tinham tocado no terraço de um prédio. Senti-me invisível, completamente desfeito, o sentimento de traição a marcar-me profundamente. Na tentativa de me salvar, perscrutei toda a casa de banho. Talvez encontrasse uma solução milagrosa. Pensei em tomar medicamentos do tio, qualquer coisa, mas eram tantas as caixas espalhadas no móvel que desisti. Olhei para o lado, e apesar de ter a visão toldada pelos olhos molhados, vi-os no chão. Eram três ou quatro, amarrotados, na direcção da janela. O tio tinha o hábito de fumar às escondidas na casa de banho, mas largava, de forma desmazelada, o que restava dos maços de “mata-ratos” pelo chão. Moribundos, ficariam ali até que uma entidade divina decidisse se os resgataria. Nesse instante, senti-me igual àqueles maços de tabaco amarrotados, seríamos restos mortais, pedaços de nada, insignificantes. As unhas e os dentes do tio tinham a cor de um sol doente. O cheiro dele dava-me vómitos, ao contrário da mãe, que cheirava a rosas do jardim da vizinha Aurora. Tossia o dia inteiro e ressonava durante a noite. Custava-lhe sentar-se devido às dores, e sempre que se levantava, os joelhos faziam o mesmo barulho dos tambores da banda dos bombeiros voluntários, quando tocavam durante as festas de verão.

Eu era um bom menino, não percebia como é que Deus tinha coragem de me castigar daquela maneira. Talvez a culpa fosse dos chocolates da mercearia da dona Amélia, nunca mais os roubo, foram só dois ou três, quatro, talvez. O mundo ruía e eu lutava desesperadamente para fugir ao meu destino. Respirei fundo e fechei os olhos, desapertei o cinto, sem coragem de olhar. Foi nessa altura que me lembrei daquilo que a mãe me ensinara, não te esqueças, filho, Deus toma conta de nós, Ele ouve as nossas preces. Lembrava-me das suas palavras como se as estivesse a ouvir naquele momento, a sua voz na minha cabeça, o cheiro da sua pele a entrar-me pelas narinas, a sua mão a acariciar-me os cabelos. Não era a primeira vez que a sentia junto de mim, mas nessa ocasião juro que era real. Tolhido pelo medo e com o corpo a tremer, ajoelhei-me e uni as mãos. Em voz baixa, pedi-Lhe que me ajudasse, que não me deixasse morrer, que me livrasse de todos os males, que me perdoasse os pecados. As lágrimas corriam-me desgovernadas pelo rosto como um caudal devastador sobressalta as margens de um rio. Orei para que a doença passasse, para que a morte se esquecesse de mim, que não me levasse ainda, antes de tempo, como levara a mãe. Ocorreu-me que me estaria a acontecer o mesmo que nos quadros da via crucis que a mãe tivera no quarto. Condenado à morte, já sentia o peso da cruz que carregaria até ao Monte Calvário, morreria pregado, depois de todo o sofrimento que me vergaria o corpo, Senhor, que a meditação das tuas dores destrua a minha soberba, suavize o meu coração e o prepare para receber o teu inesgotável amor e perdão. Doía-me a cabeça de tanto chorar. Sem o auxílio Dele, teria apenas duas hipóteses: lutar ou render-me.

Ao olhar para trás, vejo agora que a minha compreensão das coisas não era o que é hoje. Passei a ver a vida de outra forma, a não acreditar nas mesmas ideias. A desilusão acabou por vencer, os dias de ingenuidade deram lugar à devassidão, e na altura de continuar ligado a Deus ou fugir, a escolha pareceu óbvia, a única possível. O percurso mostrou-se duro. Nunca falei com ninguém sobre a minha dificuldade em estar na vida, mas não me arrependo.

Nesse Janeiro longínquo, a ideia de fim antes do tempo ainda era uma realidade assustadora. A finitude pode ser uma bênção e, isso, eu ainda não entendia. Foi uma bênção para o sofrimento da mãe, foi-o para a vida de vícios do tio. Provavelmente, sê-lo-á também para mim, ao contrário do que desejei, inocentemente, naquela tarde. Nos dias de hoje, já não tenho nada que a vida me possa roubar. Muitas coisas aconteceram entretanto, poucas ou nenhumas com sentido. Os pormenores não são importantes agora, mas aceito dizer-vos que agredi pessoas, que roubei outras, que passei vários meses internado, que estive preso durante anos.

Interrogo-me como teria sido a minha vida com a mãe por perto. Se calhar, ensinar-me-ia a pintar o mundo de outra cor. Nas minhas horas de trevas e de maior escuridão, as promessas de acalmia; nos períodos de desorientação, as suas palavras de sabedoria. Alertar-me-ia sempre que necessário, estuda, filho, para teres um bom futuro, cuidado com as más companhias, o tabaco e o álcool fazem-te mal, larga isso, olha o que aconteceu ao teu tio. Mas a mãe nunca esteve aqui. E a vida não é uma viagem bonita, é uma jornada louca, obscura, carregada de traições e de fantasmas. Ainda hoje, o cheiro dos cinzeiros me faz lembrar o tio. Enquanto recordo os seus desarranjos mentais, a sua capacidade de viajar em histórias imaginárias, de viver vidas dentro da vida real, questiono-me se alguma vez percebeu que eu estivera fechado naquela casa de banho a lutar desesperadamente por uma resposta.

Agora, aguardo apenas a próxima viagem, a próxima paragem. Desta vez, talvez me renda, a fé perdida há muito. O cessar da dor, o chamamento da paz e da liberdade. Sentado no cimo do terraço do prédio onde morámos, com as pernas penduradas para a parte frontal do edifício, observo o trânsito infernal lá em baixo, caótico. Terá sido assim que Deus olhou para mim naquele dia, de uma altura inatingível, impávido, com a arrogância de quem se diverte a desfrutar do sufoco que as amarras provocam. A manhã nasceu cinzenta, o sol, receoso, não sabe o que quer. A metáfora perfeita da minha existência. A cerca de trinta metros de altura, balanço entre lutar ou render-me definitivamente, se me agarro ou se me deixo ir.

Continuo a gostar de matemática. O que será feito da velha? Terá morrido?

Manuel Jorge

Gosta de massa de peixe, do Benfica e de livros. Não forçosamente por esta ordem. Descobriu a escrita apenas aos 38 anos, mas ainda assim bem a tempo de conseguir desprestigiar esta arte. Acha, também por isso, que tudo lhe surge demasiado tarde e que nada na sua vida é precoce, tirando a ejaculação.

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