O custo do rearmamento europeu

Um pouco por toda a Europa, verifica-se uma tendência: cortes na despesa pública. Outra tendência prende-se com a incapacidade europeia de conseguir acompanhar as grandes economias mundiais, como os Estados Unidos da América ou a China, seja no crescimento económico, no desenvolvimento tecnológico ou sequer na sua capacidade de afirmação internacional.

A economia europeia tem demonstrado a sua debilidade desde a pandemia, mas, aparentemente, este mau ciclo continua longe de terminar. Primeiro, a crise financeira, o Brexit, a pandemia, a invasão russa da Ucrânia, a crise energética e, ainda mais recentemente, a política comercial agressiva de Trump baseada em tarifas.

Notícias de despedimentos coletivos são frequentes. A Reuters dá conta de que Bosch, Daimler, Stellantis, Volkswagen e Volvo irão cortar 30.500 empregos; a banca também relata reduções de trabalhadores na ordem de milhares, numa tendência que se replica para os setores da indústria, energia, média, retalho, entre outros.

Os constrangimentos na cadeia de abastecimento durante a pandemia, elevados custos energéticos na Alemanha, após o rebentamento do gasoduto Nord Stream e o aumento das tensões comerciais desencadearam o início do declínio na indústria alemã. A OCDE, inclusive, defende a necessidade de se enveredar por um conjunto de reformas estruturais. Uma das medidas sugeridas passa por prolongar a presença de trabalhadores no mercado de trabalho, desincentivando a passagem à reforma.

Com este contexto, muitas empresas alemãs estão a reduzir o seu tamanho no país, fechando fábricas, abrindo-as na China, como se verifica com a BMW ou a Volkswagen, entre outras. O Politico refere que, em agosto, o número total de desempregados atingiu 3,02 milhões de pessoas, algo inédito em 10 anos.

Em França, o Governo alertou para a possibilidade de ser alvo de um resgate por parte do FMI. Em 2023, não sendo possível aprovar o aumento da idade da reforma, Macron, forçou a aprovação da mesma mediante um mecanismo constitucional, levando milhares de pessoas às ruas em protesto contra estas reformas. Mas as tentativas de cortes nos benefícios sociais do Estado-Providência têm encontrado fortes contestações, impedindo de se concretizarem.

Mais perto de nós, aqui em Portugal, o Governo procura reformar a Agenda para o Trabalho digno, com uma proposta que do século XXI não tem nada. Na verdade, com medidas que tornam ainda mais precária a relação entre o trabalhador e as empresas, mais se parece com uma proposta do século XIX, através do incentivo a um quadro nacional de baixos salários, desregulamentação dos horários de trabalho, atacando o equilíbrio entre a vida profissional e familiar, entre outras medidas. Mas estas reformas, que têm um objetivo claro de subjugar os trabalhadores a condições de trabalho ainda piores, não são desligadas da realidade europeia. Quando o Governo defende uma maior flexibilização, o que quer dizer é facilitar os despedimentos, até porque o Conselho de Finanças Públicas, nas suas Perspetivas Económicas e Orçamentais 2025–2029, prevê um abrandamento da economia portuguesa.

É neste contexto de fragilidade social e económica que surgem escolhas políticas que chamam atenção pelo seu contraste, mais concretamente pelos cortes generalizados para os cidadãos comuns e aumento de fundos para setores como a defesa.

No setor da indústria armamentista, mais por pressão de Donald Trump do que por ameaças sentidas, Mark Rutte, secretário-geral da NATO, pediu que se redirecionassem os fundos dos programas sociais para a defesa. E os países europeus já têm realizado investimentos neste setor. Na verdade, o valor estimado em investimentos realizados pelos países da NATO na Europa ascenderá a 72 mil milhões de euros anuais

Quando os fundos dos programas sociais dos Estados, conquistas por parte dos trabalhadores que resultaram de décadas de luta e nunca dádivas de Estados ou grupos empresariais, são considerados muito pesados porque «não há dinheiro», mas para a indústria armamentista esse dinheiro surge sem hesitação, como justificar esta súbita inversão de prioridades? 

Esta mudança mostra a encruzilhada onde as elites europeias nos puseram. Este continente foi palco de momentos atrozes, mas, também, de outros momentos em que a esperança de um futuro melhor, de paz entre os povos, garantia de direitos e condições de vida aos que tudo produzem.

As políticas neoliberais de desinvestimento, privatização e desregulamentação criaram o caos nos diferentes serviços públicos em diferentes países europeus, especialmente aquando da implementação de medidas autoritárias que prejudicaram as camadas mais baixas da sociedade. Não é somente em Portugal, por exemplo, que o sistema nacional de saúde não dá resposta às necessidades das pessoas. No Reino Unido, infelizmente, e noutros países europeus, isso também é uma realidade. Não por acaso, a direita radical, essencialmente eurocética, ascende entre as pessoas que estão nas margens da sociedade e a quem os governos têm sucessivamente falhado.

Neste momento, pedir que se façam «sacrifícios» nos serviços do Estado-Providência para se «investir» em armas e bombas é, não somente, pôr o projeto europeu em causa, mas também uma forma de destruir conquistas que resultaram de décadas de luta, algumas das vezes com preço de sangue.

Investir em direitos sociais não é um luxo ou algo que possa simplesmente ser cortado como se de uma tabela de Excel se tratasse. É o mínimo que se pode fazer para reconhecer e proteger aqueles que produzem a riqueza que sustenta qualquer Estado.

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