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Pró-europeísmo vs. Euroceticismo

Facilmente nos esquecemos do enorme e raro privilégio histórico que é viver em tempos de governação pacífica. Em todas as nações e séculos, poucas pessoas o fizeram. Por um mero golpe de sorte, certos grupos em alguns cantos do globo puderam disfrutar de décadas dessa conjetura notável e anómala. Puderam e podem até, ingenuamente, começar a assumir que é uma norma natural. No entanto, o estado padrão da maioria das nações é bem diferente. Existem fortes elementos de autoritarismo, intimidação, demagogia, corrupção, monopólio, segregação racial e agressão. “Civilização” tal como a conhecemos sempre foi um conceito improvável.

Apesar de ser um dos continentes mais pacíficos, temos assistido nos últimos anos na Europa a uma série de conflitos entre as forças pró-União Europeia do globalismo progressista, e as de reação nacionalista e eurocética. Desde Emmanuel Macron, o presidente liberal francês que defende a integração europeia, a Viktor Orbán, o presidente nacionalista e conservador da Hungria; existe uma intensa disputa ideológica, identitária e sobre o futuro da União Europeia. Mas de onde vêm estas ideologias sobre democracia, estado de direito e políticas de migração?

A forma como as pessoas percecionam o mundo significa bastante para a sociedade e para a democracia no cenário político europeu. Algumas pessoas veem o mundo como seguro e intrinsecamente bom. Isso permite-lhes que aceitem a incerteza e que possam estar abertos a explorar opções e rumos. Outros estão cientes das ameaças ao seu redor, então priorizam a ordem e a previsibilidade em vez de abertura e integração. Estas duas abordagens moldam a forma como pensamos e sentimos sobre tudo, desde a arte até à política.

É também verdade que as elites políticas e os media afiliados a partidos usam essas mesmas diferenças para gerar ódio e medo, pois o modelo económico desses mesmos media lucram com essas divisões. No entanto, acredito que não estamos condenados a ser divididos, mas sim que cabe a cada um de nós ver os dois conjuntos de características psicológicas como necessários e até valiosos. Veremos de seguida em que sentido isso se demonstra.

De uma forma genérica, imaginemos dois indivíduos. Um, mais liberal, que vê o mundo como seguro e bom, e que aceita a ambiguidade na sua vida. Gosta de improvisar, ouvir, estar aberto a novas ideias e sente-se confortável ​​mesmo sem saber o que acontecerá no futuro. Esta tolerância à ambiguidade permite-lhe sobreviver a momentos de incerteza e ajuda-o a explorar novas maneiras de reconstruir a sua vida.

O outro, mais conservador, vê o mundo como potencialmente bom, desde que as ameaças sejam devidamente geridas. É alguém que prefere a ordem e a previsibilidade na sua rotina diária, desde a sua alimentação, roupa, imagem e emprego. É rígido, moralmente sério, com um forte sentido de dever e propósito. Valoriza a tradição, a lealdade e a família.

Ora, os nossos traços psicológicos moldam as nossas crenças políticas e a forma como nos relacionamos com o mundo. E ambas as abordagens tornam as nossas vidas possíveis.

Vários estudos e pesquisas demonstram que as pessoas que estão menos preocupadas com ameaças, que são tolerantes face à ambiguidade, são pessoas que tendem a ser cultural e socialmente mais liberais em questões como imigração, crime ou sexualidade.

Por outro lado, aquelas pessoas que estão focadas nas ameaças e que preferem certezas e ordem, tendem a ser mais conservadoras em matérias políticas, culturais e sociais porque estão em alerta.

Antes de avançar quero frisar que todas estas propensões não são absolutas, não são fixas. Não existem duas pessoas iguais, este exercício serve apenas para arrumar características estereotipadas e associá-las a duas visões possíveis da sociedade.

Atualmente temos plataformas sociais digitais que utilizam algoritmos para espalhar mensagens divisórias relacionadas com política, cultura e etnia. E vemos os efeitos devastadores dessas mensagens todos os dias. Corrida ao armamento, guerra, pessoas com raiva e com medo de um lado, acusações de destruição do outro. Se pararmos e pensarmos por um momento o que aconteceria se essas diferenças nunca tivessem sido transformadas em armas e rivalidade?

De um lado temos as inclinações liberais para a abertura e a flexibilidade. Permitem-nos lidar com a incerteza e explorar novos caminhos rumo à inovação, criatividade e descoberta científica. Impulsionam coisas como viagens espaciais, curas para doenças ou arte (que imagina e reimagina um mundo diferente).

Do outro lado temos as inclinações conservadoras para a vigilância, a segurança e a tradição. São o que nos motiva a fazer o que deve ser feito para a nossa própria proteção e estabilidade. Coisas como a segurança proporcionada pelas forças armadas, a segurança de ter um sistema bancário, ou a estabilidade oferecida pelas instituições democráticas e tribunais.

A ligação entre psicologia e política depende do contexto em que vivemos e do que está a acontecer ao nosso redor. O problema é que hoje o nosso contexto dominante, seja político ou mediático, precisa, na verdade, que essas diferenças sejam absolutas, extremadas e reforçadas. Por razões de poder e lucro, alguns políticos e media querem que acreditemos que aquelas pessoas que abordam o mundo de forma diferente de nós são perigosas.

É natural a preocupação perante o perigo e a catástrofe, dada a sua frequência. A meu ver devemos imaginar não o que pode acontecer numa realidade ideal (o que nos deixa a oscilar entre a esperança e o desespero), mas sim o que acontecerá se o pior acontecer. Na vida das nações, tanto quanto dos indivíduos, precisamos de nos sentir inteiramente à vontade com a catástrofe, olhando-a com naturalidade, para não ficarmos surpreendidos e assustados cada vez que volta a acontecer. Devemos garantir que o que quer que aconteça ainda será possível sobreviver. Nada é propriamente insuportável porque sempre encontrámos um caminho de superação.

Em tempos difíceis, observamos frequentemente a vontade de consertar as nações com rapidez, autoridade e agressividade, com vista a um futuro próspero e mais estável. Assim como o desejo de desistir, aceitar e ceder à realidade devido à falta de esperança perante a catástrofe. Nenhum dos dois me parece certo; nem a explosão nem a desistência. Penso que o caminho mais fiável é o de nos comprometermos com os pilares da educação, do ensino, do estudo e planeamento cuidadoso para continuarmos a renovar um sonho sempre implausível: uma nação governada por um espírito de sabedoria e tolerância.

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