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Ambiente

“Não te esqueças do Joaquim!”

(ou o milagre da adopção de cães de grande porte)

Vitória cometeu um crime. Cadela com dono, mas em permanente rédea solta, andando na rua sem qualquer controlo face aos perigos da estrada ou duma gravidez indesejada, engravidou. Condenada pelo acto, foi abandonada. Dentro de si geravam-se agora 9 cachorros, todos de médio e grande porte, cruzados de rafeiro alentejano com serra da estrela, sem lar nem cuidados. Foram recolhidos pela Associação Kausa Animal, em Alverca. Alguns foram adoptados, 2 foram devolvidos, e hoje, quer a mãe, quer 3 filhotes, agora com quase 3 anos, ainda se encontram no abrigo. Há um mês o milagre aconteceu, e um 4º filhote, nos seus 55 kg, foi adoptado.

Era um dia triste de chuva, e recebi um taciturno telefonema da Margarida. O Ruca, 10 anos, rafeiro alentejano, 67 kg de cão, tinha desaparecido e foram encontra-lo morto num ponto ermo do terreno onde habitam. Há dias que tinha uma respiração ruidosa e estava em tratamento cardíaco. Afastou-se para morrer, e a chuva caiu pesadamente sobre ele, na impossibilidade física, para uma mulher,  de arrastar um cão deste porte. A outra cadela, a Emma, rafeira alentejana, nascida na rua, numa Etar em Beja, 35 kg em ano e meio de vida,  procurava sem sucesso o Ruca, seu companheiro desde que fora adoptada.

Confesso que a minha definição de cão ideal anda por estas dimensões. Vivo num apartamento, o que me condiciona bastante nesses termos, e a minha rafeira Rita, 14 anos,  anda pelos elegantes 15 kgs. Mas se me perguntarem que tipo de cão prefiro, sem dúvida que os de grande porte são os meus preferidos. Conheci em tempos um Rottweiler de 80 kg, tão pesado como meigo. Tenho muito mais confiança num cão destes, apesar do seu aspecto implacável, do que num meio kilo de cão estridente e arreganhado. Gostos não se discutem, cada um com o seu. Pudesse eu, e teria a vida que a minha amiga Margarida tem, vivendo numa aldeia com cães, gatos, e tendo frequentemente o terreno ocupado com cabras e cavalos dos vizinhos,  que lhe desbastam as ervas altas.

Somos amigas desde os 5 anos, por isso acredito que não se chocou quando lhe perguntei, talvez mais cedo do que era suposto, se não iria buscar outro cão. Fi-lo com algum pudor, que o Ruca tinha falecido na véspera, sempre realçando que quando estivesse preparada, quando se sentisse capaz, falaríamos disso. Mulher pratica, respondeu-me de imediato que sim, que iria ver nos canis e nas associações, como fizera quando foi buscar a Emma a Beja. E foi aí que eu, num instante feliz, me lembrei do Joaquim, um dos 9 filhotes da Vitória, que tinha visto uma ou duas vezes quando  me desloquei à associação, mas que se tinha alojado, com os seus 55 kg de meiguice, no meu coração. E como na canção, ela disse que sim. Voltei a alertá-la para a decisão precipitada, que às vezes quando os milagres acontecem já temos dificuldade em acreditar. E ela confirmou.

Começaram os preparativos. Falar com a Kausa Animal que naturalmente se quis certificar das boas intenções e possibilidades dessa adopção. Aguardar em ânsias pelo fim-de-semana que coincidiu com o fim da proibição de circulação entre concelhos, já que a viagem seria de Alverca a uma aldeia de Torres Novas. Preencher licenças e documentos. Preparar o carro para um cão de 55 kg que nunca andara de carro, forrando os estofos com plásticos e lençóis, para salvaguardar de comportamentos imprevisíveis,  que muitas vezes o medo e a ansiedade provoca. Acordar cedo, depois duma noite mal dormida, ansiosa por ir levar um cão desta dimensão, em pleno desconhecimento de causa, sustentada na vontade e descontração da estupidez natural, numa viagem de 1 hora até ao paraíso.

Colocá-lo no banco traseiro foi uma tarefa árdua, feita a 6 mãos: O Fernando, a Elsa e eu. Não havia salsichas que o demovessem de voltar à box, sua casa de sempre, onde ficaram a mãe e os manos. Colocar-lhe uma trela foi missão quase impossível, desabituado do gesto. O Fernando pegou-lhe ao colo. Desistiu. A Elsa resolveu pegar-lhe nas patas traseiras, como se fosse um carrinho de mão, enquanto o Fernando o puxava pela trela. Um do lado do carro a puxa-lo, outro no outro lado a empurra-lo. Eu, nesta mania que tenho de falar com os cães, a dizer-lhe que não tinha o que temer, que ia para uma vida melhor. Impossível não me lembrar do filme O Quarto, onde mãe e filho vivem prisioneiros, e quando são libertos o filho acusa a mãe de lhe mentir, ao mostrar-lhe que a vida não é a que teve naquele quarto. Que lhe dizer, se nada mais conhece? Que dizer aos que ficam? Será humaniza-los pensar que sentirão a falta uns dos outros? Ou que se inquietarão a vê-lo partir?

A viagem decorreu na paz do Senhor. Joaquim imóvel, ocupando todo o banco traseiro, olhando pela janela. Calmo, sossegado, sem movimentos tensos ou sem ladrar. Sem imprevistos, chegámos, uma hora depois. Entrámos no portão da casa. A Emma, a cadela residente, foi presa na Box, precisávamos estudar o encontro deles, fazer as apresentações com calma, para que corresse bem. O Joaquim não queria sair do carro. Fincava as patas e as unhas no assento, e apenas à força bruta o conseguimos tirar. Talvez tenha sido um excesso de desconhecido para ele.

Posto no chão, Joaquim inspirou com as narinas abertas, apreendeu todos os cheiros do campo, da terra, das flores, dos animais, tudo novo. Nesse dia não comeu, a não ser à noite, quando o trancámos na sua box individualizada, ao lado da da Emma. Ao longo do dia não me largou, era eu a única referência, ainda que recente. Pouco a pouco fez o reconhecimento do terreno, alargou a coragem da pesquisa. Encontrámo-lo deitado por entre as ervas altas, desfrutando de mais uma novidade que é uma cama fofa, fresca e cheirosa. Conviveu com as pessoas da casa, com a Margarida, o João, o Tiago. Conviveu com as visitas, a Sónia, o João, a Tânia, a Rosete e o Zé. No mesmo dia soltámos a Emma. Olharam-se, sem ponta de agressividade, mas com indiferença. Onde um ia , o outro evitava.

Joaquim descobriu que as pessoas vivem dentro duma casa, e surgem estranhamente em portas e janelas. Segue-as ao longo da vivenda de piso térreo, e se não as vê, ladra, chamando-as, a ver se ainda lá estão. No segundo dia partilhou também com a Margarida a referência suprema que tinha comigo, afinal ela é a dona dele. Começou a comer.  Deixou dar-lhe banho, entre mangueiradas e champô. Acredito que seja mais uma novidade na vida dele, que no entanto recebeu com serenidade. Fez camas na erva. Ladrou em coro com a Emma. Hoje já fazem passeios conjuntos pelo terreno. Acredito que serão bons amigos.

Esta adopção foi um milagre. Pese embora o facto da mesma ter sido possível pelo falecimento do Ruca, foi uma oportunidade que não quis perder, juntando as peças deste puzzle numa conjunção feliz. No entanto, esse carácter extraordinário e posso dizer, quase impossível de realizar, advém da extrema dificuldade de adopção de cães de grande porte. O adoptante comum, procura cães pequenos e sobretudo recém-nascidos. Ainda que se possa  contornar a questão da idade, demonstrando que um cão adulto, ainda que jovem, tem vantagens imensas, como a constatação do seu tamanho e temperamento, é dificílimo contornar a da sua dimensão, sobretudo se se vive num apartamento.

Ainda assim, na minha opinião, muitas vezes sobrevalorizamos necessidades de espaço que não correspondem à realidade. Claro que um cão como o Joaquim precisa de mais espaço do que um cão como o meu, de 15 kg. Mas num apartamento é possível ter um cão de tamanho médio, cerca de 20 kg, sem qualquer problema. Essa ideia é-me cada vez mais credível quando constatamos a quantidade de animais em abrigos e na rua, que obviamente numa casa, ainda que pequena, terão melhores condições.

A adequação ao espaço tem mais a ver com a energia do animal do que propriamente com a sua dimensão. Um cão que seja passeado 2 vezes ao dia, na extensão da sua energia, fica bem. Pesquisas realizadas com lobos revelam que mesmo em liberdade, a alcateia permanece em espaços delimitados, sem grandes percursos alternativos, excepto em alturas de caça, permanecendo em repouso frequentemente no mesmo local. Na associação permanecem, como disse no inicio, a mãe Vitória, a filha Joana, e os filhos Júlio e  o Júnior, estes últimos 2 adoptados  e devolvidos. Pela sua dimensão, sobretudo dos machos, a sua adopção está dificultada, embora sejam encantadores, meigos e impressionem pela sua doçura e serenidade. É comum a mãe permanecer, ainda que os filhotes sejam adoptados, na comum busca de cães jovens. Mas muitas vezes a mãe é também jovem, mas não parece visível aos olhos do adoptante comum.

É por isso que é impossível deixar de me sentir extraordinariamente emocionada com a história do Joaquim, e com os adoptantes que alargam os critérios em termos de idade e dimensão, percebendo que por detrás daquela imensidão, há um ser vivo capaz duma gratidão imensa. Tenho o prazer de conhecer quem adopta de cães em fim de vida, doentes, velhos e desdentados. É uma missão, reservada para aqueles que têm em si um coração e uma resiliência sobre-humana. Olhando estes animais nos olhos, tenho a certeza de que existe neles um entendimento superior e um agradecimento para a vida. Outros há que adoptam cães de rua. Outros são voluntários. Ou padrinhos. Há tantas hipóteses de ajudar, é só procurar como.

Quando a vida se torna dura, lembro-me do olhar do Joaquim,  que mostra que o amor existe.

Sandra Ramos

Sou formada em Gestão, com Pós-Graduação em Transportes Marítimos e Gestão Portuária, área onde desenvolvo a minha actividade profissional. Sou adepta da causa animal e voluntária ocasional. Comecei as minhas aventuras na escrita em 2017, com uma Menção Honrosa num Concurso de Autores, tendo a partir daí participado em algumas Antologias e num Concurso de Speed Writing. Fui cronista na revista Bird Magazine e edito uma página e blogue do mesmo nome: Escrevinhar / Sandra Ramos. Descobri que não vivo sem escrever. Apercebi-me, também, que são as nossas características temperamentais mais difíceis que nos aproximam das pessoas com ousadia suficiente para nos amarem.

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