Dia 5
Ponte Sampaio – Pontevedra

Madrugada em Ponte Sampaio. Escrevo numa toalha de restaurante que pedi em Valença na suposição de que me iria faltar papel (para escrever; não para limpar o cu).
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Adenda ao descritivo de ontem:
Gosto dos albergues e das regras do Caminho (que não permitem a possibilidade de entregar as mochilas nos albergues municipais); gosto do esforço a que o cumprimento destas regras e vicissitudes nos obriga, de superar obstáculos e de subidas (o meu “obrigado” a quem desenhou o planeta!); gosto da partilha de experiências e de conhecer gente (aqueles com quem nos identificamos, permanecerão com naturalidade na nossa vida). Gosto mesmo. E para concretizar esse gosto é necessário ter curiosidade, condição física e sorte. Felizmente vou mantendo as três condições presentes. Os limites da nossa flexibilidade são estabelecidos pelas condições naturais do Caminho e pelas suas regras. Causa frustração? Claro (às vezes), mas isto é o Caminho de Santiago e ele pressupõe ultrapassar dificuldades. Gosto disto.
Ponte Sampaio, terça-feira, 28 de Maio de 2019
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Ontem o Tomás entregou-me um formulário pedindo-me para escrever um testemunho sobre o Caminho. É para que as crianças das escolas de Ponte Sampaio possam ter contacto com relatos reais de modo a trabalharem os textos com os professores. Escrevi uma página mas esqueci-me de tirar uma fotografia ao texto para o incluir neste diário… (que burro!) Acredito que lhe venham a dar uso e é engraçado deixarmos um depoimento sabendo que chegará a alguém, no caso, um conjunto de miúdos, miúdos esses que nada mais saberão sobre quem escreveu o texto que terão pela frente além do nome e nacionalidade.
São onze da manhã e temos que aguardar até à uma da tarde para entrarmos na Twilight Zone: o albergue municipal de Pontevedra (a primeira “casa” que repito este ano)!
Entrámos em Pontevedra pela variante ao longo do rio Tomeza e a beleza deste troço não se gasta na repetição do que escrevi há um ano. Ao caminhar junto ao leito fui-me lembrando dos piqueniques da infância no Pinhal de Leiria, das árvores e dos riachos, dos parques de merendas e da Ponte Nova. Curioso como uma imagem traz tanto consigo para nos oferecer… associações, lembranças, ideias… sento-me para escrever em frente a uma folha em branco sem uma ideia prévia do que vou discorrer, mas o bichinho da escrita vai buscar a curiosidade e a criatividade – por mais escondidas que estejam nestes dias de esforço delicioso – e algo começa a ganhar forma, mesmo que mais ninguém além de mim encontre significado nestas palavras. Tal como o Caminho, este é um dos exercícios mais puros de liberdade… escrever é caminhar por um trilho que vamos desbravando sem saber onde nos leva… a isso chama-se viver.
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Cinco minutos sem escrever nada.
Sala comum do albergue de Pontevedra; final de tarde; dois peregrinos comem à mesa onde estou sentado e outros três na mesa ao lado; um outro vê o telemóvel e eu escrevo. É tudo. Outros estão lá fora na relva a descansar, comer, escrever ou apanhar sol. Vamos comer fora mas deitamo-nos com luz do dia (como sempre): é o novo ritmo pelo qual pautamos as nossas vidas neste intervalo de realidade, esta renovação de alma que é um teste à nossa resistência.
Quando me reformar, gostava de fazer do Caminho um hábito mas até lá, conto ter muita vida para preencher: como não me quero apressar, tenho que incorporar esta forma de olhar o mundo para lá da bolha que envolve estes dias. Creio ter desejado o mesmo no ano passado. O efeito durou três meses. Conto ser mais bem-sucedido desta vez!
PS: O jantar na Lupe foi qualquer coisa do além: a comida estava divinal mas a simpatia e disponibilidade dela estavam para lá do divino… não me lixem: se Deus existisse não conseguiria cozinhar a carne daquela forma!
Pontevedra, terça-feira, 28 de Maio de 2019