Espelhos meus

Todos os dias, quando acordares, pensa se encontrarás na rua um louco, um bandido, um traidor, (…). Se entrares em conflito com eles, a culpa não é deles mas é tua, que não estás preparado.

Assim disse Marco Aurélio.

Existe sempre alguém passível de nos tirar o sono. Que achamos que deliberadamente nos tenta prejudicar. Alguém que, por algum motivo, nos inveja, nos tenta atingir, mostrar que é melhor que nós, roubar a nossa paz de espírito. Será esta a realidade? Existem mesmo más pessoas, que ignoram as suas próprias vidas para viverem as nossas? Será que já fomos, em algum ponto, pessoas assim? Porque sentimos assim em relação aos outros?

A verdade é que não existem más pessoas, mas, sim, pessoas mal resolvidas. E quando elas nos atingem em algum ponto, também nós não estamos resolvidos connosco, não estamos centrados em nós, no que andamos por cá a fazer.

Em acontecimentos diversos e deliberados, quando sem querer nos sentimos atingidos por uma frase, uma acção, um olhar, este é o nosso espelho que se reflecte e somente o que poderemos fazer é parar e perguntar qual o verdadeiro motivo para nos sentirmos como nos sentimos.

Sim, às vezes os outros estão de facto mal consigo próprios. E intencionalmente ou não, o que fazem poderá nos afectar de forma muito negativa. Mexer connosco. Questionar-nos o que de facto lhes fizemos para nos tentarem prejudicar.

As relações humanas são o desafio e a lição maior de quem passa por aqui. As conflituosas, mais ainda.

Só existe um caminho para a felicidade, para a paz de espírito, mesmo quando nos sentimos atingidos. É recordarmos quem somos. Percebermos que a nossa característica maior é saber pensar. É saber sentir. É conhecer. A nós mesmos, ao nosso caminho. Reconhecermos-nos nos outros.

Ao preocuparmo-nos com a nossa vida, os nossos anseios, o nosso auto-conhecimento, conseguiremos lidar de forma mais eficaz com os anseios que os outros nos provocam. Saberemos lidar com a nossa própria ira, a nossa auto-vitimização. Seremos responsáveis por senti-la e depois sair dela, através da capacidade de nos questionarmos onde nos sentimos inseguros ou que padrões se repetem nas nossas vidas.

A nossa responsabilidade garante que não faremos aos outros aquilo que achamos que nos estão a fazer a nós e trará uma maior consciência de nos tentarmos perceber e aceitar. Ver no outro o seu próprio caminho e o porquê de nos ter provocado no nosso.

Não existe perfeição a não ser a que reside na imperfeição. Os outros são os nossos espelhos. Nos outros nos vemos e nos aceitamos. Melhoramos. Crescemos. Se acharmos que são tóxicos, que nos fazem mal, afastamos-nos. E com paixão e força, abraçamos quem somos e reflectimos: a minha sombra é sempre tão grande como a tua. Mas os nossos corações também.

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