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Comboio Nocturno para San Sebastian

O Sud Express transporta o aroma de outra era, dos emigrantes que partiam para França à procura de uma vida melhor. O meu gosto por viagens de comboio aguardava há muito uma oportunidade para regressar a essa magia da literatura do final do século XIX.

O Festival de Cinema de San Sebastian, onde me iria encontrar com a Mel, materializou o pretexto: sem voo directo para a cidade basca e com um comboio nocturno de Santa Apolónia para Hendaye, que, entre outros lugares, pára no centro de San Sebastian, não pensei duas vezes, por um preço imbatível e doze horas e meia sentado! (não quis pagar o excesso, com direito a cama, para viver a experiência completa).

O reforço

Depois de uma segunda-feira de trabalho, jantei na Maça Verde, tasca sugerida pelo António (comer bem é com ele), junto à estação: porco preto e vinho tinto quanto baste, para aplacar a fome e adormecer o espírito; afinal, a comida no comboio não é barata e a viagem é longa demais para me ver privado de alternativa.

Sentei-me, percebendo de imediato que o nosso Alfa Pendular é o Belcanto das composições ferroviárias quando comparado com o Sud Express. De um comprimento inacreditavelmente belo e um desconforto maior notei, mal entrei, que não havia wifi, auriculares, corrente eléctrica ou o aviso sonoro ou visual a anunciar as estações: se adormecesse, só 20 kms adiante, junto à fronteira francesa, é que poderia sair… apesar de tudo, um frémito percorria-me o corpo: afinal, era uma viagem de comboio internacional!

No Oriente, uma velha sentou-se ao meu lado. O contentamento pela oportunidade para escrever ou ler tranquilamente foi prontamente interrompido pelo boicote por ela iniciado desde o primeiro momento, falando sem pejo em interromper a leitura ou a escrita que eu gatafunhava no caderno, com uma conversa sofrivelmente desinteressante! Fechei os olhos sem conseguir dormir quando um fedor a chulé me arranca à letargia em que estava a entrar: a velha tinha-se descalçado! Eu não queria acreditar! Entre as poucas inutilidades de que me lembrava de terem sido vomitadas por aqueles lábios carnudos lambuzados de batom, a cidade de Salamanca às cinco da manhã pairou na minha mente… ia ter que levar com aqueles presuntos mais de metade da viagem. Horas mais tarde a velha levantou-se e foi urinar; não voltou a descalçar-se.

O despertar

O que restou do percurso decorreu entre leves períodos de sono que nunca se completaram e vãs tentativas de ler ora Um Escritor na Guerra, ora a Antología Poética de Mario Benedetti. Com o sol da madrugada a despontar ao longo da vidraça (na subida para nordeste, ia sentado a olhar para oriente – na escola primária tive que escrever 50 vezes “O Sol nasce a este e põe-se a Oeste”… nunca mais esqueci… e não é que essa afirmação tantas vezes repetida há quase trinta anos permanece actual?!) fui despertando para apreciar o nascer do dia desde o comboio!

Apesar do desconforto, da noite em claro e da velha, fiquei com vontade de voltar a viajar de comboio, tomando agora as devidas precauções. O prazer das viagens ferroviárias é muito superior a tudo isto…

O poema que, entalado entre o sono e o aroma libertado dos pés da velha, saiu da travessia ibérica entre Lisboa e San Sebastian:

Comboio nocturno para San Sebastian

Retorno à viagem de outro tempo

Dos emigras em difíceis condições,

No comboio p’ra Donostia noite dentro,

Palpitações.

 

Qual criança na primeira ida ao cinema

Assim evaporo em frios de partida,

Sud Express para Hendaye: que poema!

Saída!

 

A conselho do António, meu amigo

Fui tratar de abastecer na Maçã Verde,

Porco preto e vinho tinto de castigo,

Que sede!

 

Com um jarro a adormecer a inspiração

Soltam-se as palavras sem grande critério,

A cadência do carril qual coração,

Cemitério!

 

Sonolência, cemitério de ruído

De lá saem as sombras da criação,

Noite fora vou no trem já bem bebido,

Libertação!

 

Sem wifi, corrente eléctrica ou conforto

Sobram livros, o caderno e a caneta,

Como se o mundo fora estivesse morto,

Anos sessenta!

 

Com vontade de abraçar o mundo inteiro

Por viver este momento, este lugar,

Que bom é servir de pouco e estar tão cheio,

Viajar!

 

Já havia terminado a descrição

Quando um odor a presunto me acordou,

Vejo os pés da velha à solta pelo chão,

Descalçou!

 

Após Burgos cresce o sol com ar risonho

Meu amigo depois de uma noite em branco,

Pinto o dia com a viagem que eu sonho,

Tanto!

Ainda que o destino se esconda da viagem, ele não perde a beleza.

Sud Express (Sta. Apolónia – Hendaye), noite de 23 para 24 de Setembro de 2019

António V. Dias

Tendo feito a formação em Matemática - primeiro - e em Finanças - depois - mais por receio de enveredar por uma carreira incerta do que por atender a uma vontade ou vocação, foi no Cinema, na Literatura e na Escrita que fui construindo a casa onde me sinto bem. A família, os amigos, o desporto, o ar livre, o mar, a serra... fazem também parte deste lar. Ter diversos motivos de interesse explica em parte por que dificilmente me especializarei alguma vez em algo... mas teremos todos que ser especialistas?

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