Introdução:
Este texto foi escrito durante a pandemia, no meio daquele período pré-Natal de 2020, em que íamos “salvar o Natal”, em que ora não saíamos de casa ao fim-de-semana, ora ficávamos em teletrabalho, ora não podíamos atravessar concelhos, ora tomávamos o café ao postigo, ora limpávamos o papel-higiénico das prateleiras para limpar até o cu que não tínhamos…
Num desses períodos de reclusão ou aconchego (consoante a perspectiva), vimos, a Sofia e eu, esta belíssima mini-série documental de três episódios que junta alguns ingredientes recorrentes: a II Guerra, o Cinema e a Condição Humana. Hoje, cinco anos passados, creio que a Sofia adormeceu num ou em mais episódios. Eu não. Por isso em Novembro de 2020 pude escrever este texto, que hoje é publicado.
Rinchoa, 24 de Novembro de 2025
Aproveitando o confinamento forçado num destes fins-de-semana, e juntando a paixão pelo Cinema ao fascínio que a II Grande Guerra continua a exercer sobre mim, resolvemos (talvez mais por minha sugestão) saborear a tarde acompanhados pelas três horas que o documentário Cinco Que Voltaram distribui pelos três episódios.
O filme é um primor para quem se sente atraído por aquele período tão deplorável, marcante e transformador da História do século XX. O esforço de guerra empreendido por Hollywood está todo lá, embora a minissérie se centre no empenho de cinco realizadores lendários – Frank Capra, John Ford, George Stevens, William Wyler e John Huston – e no conflito entre a propaganda em prol do esforço de guerra e o duro confronto com a realidade, e o dilema moral de mostrar a brutal realidade com que se confrontaram, muito distante dos cenários Hollywoodescos.
Os limites da censura e as escolhas feitas em nome de causas maiores como a liberdade ou a democracia, exemplificadas na disputa sobre como os alemães ou os japoneses deveriam ser retratados pelos cineastas, de acordo com o que se pretendia com o filme internamente, com o que resultaria da diplomacia no pós-guerra, e com o que a consciência de cada um devia à verdade.
Wyler regressou surdo, Stevens nunca mais realizou uma comédia e Capra, após um filme fracassado, viu a carreira entrar em declínio. Ford, o irascível, passou para os filmes o impacto do seu testemunho e John Huston pôde lançar a sua carreira (iniciada em 1941, já o conflito tinha começado).
Francis Ford Coppola assinalou que todos eles realizaram os seus melhores filmes após o seu regresso. Aliás, o impacto que a Guerra teve nas vidas de cada um destes cinco homens e nos filmes que nos ofereceram é, a par da (mais uma vez) brutal consciência do acontecimento, uma das grandes revelações desta série.
O filme fracassado de Capra foi “só” ‘Do Céu Caíu Uma Estrela’!
Wyler realizou ‘Os Melhores Anos das Nossas Vidas’ em 1946.
George Stevens, após filmar a entrada triunfal em Paris, entrou em Dachau à frente dos homens que faziam parte da equipa de filmagens que liderava, alguns dos quais, aterrados com o que viram, abandonaram as carreiras para se tornarem enfermeiros ou padres:
– E depois pensamos: “Que mundo é este?”, E que criaturas somos nós? Teremos de ser controlados para não sermos como somos? (…) Quando um pobre coitado, esfomeado e a cegar, me agarra e desata a pedir, sinto o nazi que há dentro de todos nós. Não quero saber se sou judeu ou gentio. Sinto-me um nazi. E é terrível descobrir dentro de nós aquilo que mais desprezamos.
Infelizmente, não é só cinema; mas é ao cinema que devemos este testemunho.
[Este texto não está escrito segundo o novo acordo ortográfico]
Rinchoa, 21 de Novembro de 2020