Asas

Simbólico do cinema-espetáculo obtido através de The Birth of a Nation, de D.W. Griffith, Wings realizado pelo aclamado William A. WellmanThe Public Enemy (1931) e A Star is Born (1937) – é um daqueles momentos cinematográficos de magnitude excêntrica, que porventura aterrou no esquecimento.

Obra-prima que pressentia os finais do cinema mudo, só permanece na memória viva dos cinéfilos, pela vitória do Óscar de Melhor Produção, atualmente categoria principal. O mesmo quase desaparecia por completo, se não fosse uma cópia encontrada em França, nos anos 80.

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Um dos cartazes de promoção ao filme

Na prática, o filme foi aclamado pela crítica generalizada da época, pelo principal elemento do enredo e respetiva forma como o transporta para a tela. A memória de um evento tão atroz como fora a primeira guerra mundial (apenas terminada há quase uma década) permitiu que muitas distribuidoras mantivessem o filme em exibição por dois anos consecutivos. Além disso, a liberdade criativa colhida em estúdio seria colocada de parte, dando uma maior veracidade à história – destaque para a astúcia dos atores ao pilotar aviões. Esses mesmos ataques aéreos transformaram-se numa das maiores proezas no cinema.

Asas conta a história de Jack Powell (Charles Rogers) e David Armstrong (Richard Arlen), dois homens apaixonados pela mesma mulher, a visita de Verão, Sylvia Lewis (Jobyna Ralston). A juntar ao triângulo amoroso – que não existe, pois Sylvia sabe bem quem ama -, está Mary Preston (Clara Bow), inocente fará de tudo para captar o olhar de Jack. Porém, chega o conflito e os dois homens alistam-se como aviadores, no serviço militar norte-americano. Numa primeira parte, o público é conquistado pelas personagens, pelo tom de comédia romântica. Já o segundo acto permanece para muitos enfadonho, talvez porque a guerra deixou de criar qualquer empatia. O cinema, neste período tentava repercutir, o mais fielmente, a realidade, hoje pelo contexto televisivo e pelo abuso digital afasta-a. Se bem que a atriz Clara Bow seja a alma do filme e mantenha-o bem animado, durante as suas aparições.

A própria redigiu duas cenas para aparecer no ecrã, o máximo de tempo possível. Contudo, pela sua expressividade corporal, a estrela, tal como os seus aliados – Rogers e Arlen -, não se adaptou à inovação sonora.

Gary Cooper numa aparição com apenas 2 minutos, naquele que é considerado um dos melhores cameos da 7ª Arte, alcançou a fama. Estrela de cariz hollywoodiano, é hoje lembrado pelos papéis em Doido com Juízo (1936), Um João Ninguém (1941) ou O Comboio Apitou Duas Vezes (1952), com o qual venceu o Óscar de melhor ator. Porém, sem Asas não chegava ao céu.

A cena mais conhecida (alerta: SPOILER), nomeadamente pelo risco que corria é a da morte de David nos braços de Jack. Emotiva pelo beijo entre ambos, demonstra a complexidade das relações humanas. Colocada muitas vezes em debate, a cena é abrangente em sentidos. Alguns estudiosos enunciam-na como de cariz homossexual, que os protagonistas tentavam esconder. Outros afirmam ser belíssima demonstração do poder da amizade, uma vez que não corta completamente com o que já tinha sido visto em cena. Seja qual for a posição tomada este é o acontecimento do filme, o fim do conflito no choque amor/ódio.

Wings terá de certa forma influenciado alguns projetos desta era digital. A sua ambição permitiu fazer nos céus aquilo que Gravidade (2013) fez no espaço, ou o que Titanic (1997) fez no mar. Abstenha-se de qualquer juízos de valor sobre o filme, porque Wings não fala, mas é fotográfica e cinematograficamente um puro objeto de arte.

Poster do filme
Poster do filme

Ficha técnica
Ano de Produção: 1927/ Título português: Asas/ Título original: Wings/ Realizador: William A. Wellman / Argumento: Hope Loring & Louis D. Lighton/ Elenco: Clara Bow, Charles ‘Buddy’ Rogers, Richard Arlen, Jobyna Ralston, El Brendel e Gary Cooper/ Música: J.S. Zamecnik/ Duração: 144 minutos

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