Dez anos, uma década, um décimo de século, o que quer que seja que lhe quisermos chamar, dez anos são uma vida, um conjunto de dias e meses que podem mudar a direção do nosso caminho, aquilo que valorizamos e os sonhos que temos connosco.
Em dez anos um bebé torna-se uma criança, um adolescente cresce e transforma-se num adulto, e um adulto maduro começa a notar os primeiros sinais de velhice. Retroceder aos últimos dez anos faz-nos perceber coisas tão simples, que na sua altura nos pareciam um bicho de sete cabeças, como relembrar momentos marcantes e extremamente significativos para a nossa existência. Refletir sobre o passado também nos permite reparar naqueles momentos que, à partida, eram tão insignificantes, mas que acabaram por representar grandes marcos e memórias na nossa narrativa de vida.
Em dez anos também passamos por várias deceções e desgostos, também nos vemos metidos em buracos tão escuros de desânimo e insatisfação, que pensamos que não será possível sairmos dali e reerguermo-nos. Temos a vsão tão tapada e tão centrada nos problemas, que tudo na nossa vida parece girar em torno daquele problema ou daquela infelicidade. A angústia acaba por nos obstruir a visão e impede-nos de ver além desse espaço de tempo.
É verdade que em dez anos crescemos e amadurecemos, mas entendemos também que nem tudo na vida se trata de nos tornarmo mais adultos e responsáveis, mas de darmos cada vez mais espaço à nossa criança interior e ao que nos traz prazer. Nesses dez anos passados também tivémos momentos de êxtase total, de tremenda felicidade e épocas que nos fizeram repôr a fé na humanidade e na possibilidade de a vida ser incrivelmente emocionante.
No meu caso estes dez anos representaram a minha transição de adolescente para jovem adulta e foram estes dez anos que me ensinaram tudo o que eu sei até agora sobre a vida. Mesmo tendo plena noção que ainda me falta muita experiência e aprendizagem sobre a vida, sinto que viver de perto uma fase de pandemia nos fez a todos perceber que havia coisas que antes dávamos como garantidas e que realmente representam uma grande parte da nossa vida. Foi um tempo de auto-reflexão imposta e de grande crescimento emocional. Com isto não estou, de todo, a tentar romantizar este período trágico das nossas vidas, antes pelo contrário. No entanto, como todos os momentos maus, a aprendizagem que nos é imposta pode e deve ser uma mais valia para o resto das nossas vidas. E foi exatamente isso que senti.
Mas, como referi antes, nem tudo tem que ser focado no crescimento e autorrealização. Às vezes são momentos bons que nos enchem a alma e que marcam meses e anos de uma década das nossas vidas. Em dez anos conhecemos pessoas, deixamos de ter contacto com outras que julgávamos para a vida, vemos algo que nunca pensamos ser possível a realizar-se e a fazer-nos perceber que não estamos sozinhos nisto e que há sempre alguém a olhar por nós. Por muito que haja momentos que nos marcam tanto e de forma tão negativa que parece que a nossa vida se resume àquela semana, mês ou até ano, quando decidimos olhar para trás e fazer uma introspeção, um ano é só um ano e não define a nossa vida, mesmo que na altura o pareça.
Tudo muda numa década, situações que fogem ao nosso controlo e situações que só dependem de nós e das decisões que tomamos. O que é certo é que devemos viver o dia a dia sem deixar que a preocupação com o futuro ou a reflexão do passado tomem demasiado conta da nossa vida. Devem ser um ponto de referência para nós, até porque dez anos nos ensinam tanta coisa e nos deixam memórias tão valiosas. Contudo, sabemos que nada mais existe que o presente e que a ideia de que temos uma folha em branco e os próximos dez anos a serem escritos por nós. Escrito segundo o novo acordo ortográfico.