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A ingenuidade do mercado de trabalho

Somos lançados no mercado de trabalho na faixa etária dos 20. Acreditamos piamente que uma média razoável e um currículo apelativo são suficientes para alcançar a porta dourada para um emprego dito na “área”. Doce ilusão. Basta colocar um pé no mundo laboral português, para entender o quão lamacento é. A porta inicialmente dourada, passa a ser de prata, para em menos de nada se transformar em bronze. O latão? Fica aliciante com o tempo. Mas, como já dizia António Gedeão “o sonho comanda a vida”…

Ninguém nos prepara para a realidade. O sistema faz-nos acreditar que o nosso valor é definido por uma nota. Pior, a nossa existência só faz sentido se formos úteis ao mercado de trabalho em vigor. Mercado esse que jamais fomos incutidos a questionar no papel de futuros subordinados. Quanto mais a conhecê-lo. A mensagem é:”. Sê o melhor dos melhores, para competir. Isso basta-te”.

O ensino em momento algum incentiva as pessoas ao autoconhecimento. Imprescindível para conhecer as potencialidades e fraquezas de cada um, porque só assim é possível ter ferramentas consistentes para desbravar caminho.  Somos pelo contrário aprisionados numa caixa de ilusões, a que nos agarramos cegamente. Só porque vivemos naquela crença de que para pertencermos, precisamos seguir a linha decretada por alguém, que nem sabemos bem quem é. No fundo, o nosso valor é entregue numa espécie de bandeja dourada a um mercado laboral pouco ético. Nem a dita competição é leal, pois quase sempre outros interesses têm mais peso. No momento que percebes: “Sou apenas um número”, a frustração bate-te à porta com toda a força.

Existem sempre exceções. Como é óbvio. Inclusive, exceções que vieram do nada. Com histórias admiráveis, frutificas para Hollywood. Algumas delas fazem palestras para milhões de pessoas. E até essas nos fazem sentir culpados, inúteis e desistentes. O problema novamente é meu, teu, nosso.  A questão é que também essas exceções não calçam a marca de botas igual à nossa, não deram os mesmos passos, não cruzaram com pessoas semelhantes, no fundo outros desafios. Novamente a competição, a frustração.  

Desistir é também te reinventares. É leres a vida e seres humilde para entenderes que ela te quer levar para outros caminhos. Porque sabe: tu és diferente. Por vezes, o melhor a fazer é criar uma lista de prioridades. Ganhar mais?  Ou viver perto da natureza? Trabalhar na área, dependente dos pais? Ou aplicar os meus conhecimentos noutro tipo de emprego e ser independente? Deixar fluir. Estar em constante interrogação. Porque se estivermos atentos, percebemos facilmente que nem sequer temos controlo sobre quem somos, muito menos sobre um emprego. Estamos em constante mutação. Quando saímos da caixa de ilusões vemos com clareza: um canudo não nos define. Uma escolha feita aos 18 anos não dita a nossa vida.  Não sejamos uma prisão de sonhos, que ora fazem sentido, ora deixam de fazer. Sejamos sim, sonhadores práticos e humildes. Evitando ao máximo, tropeçar nas comparações. Sonhar com equilíbrio. Porque se ninguém nos preparou para a vida, aprendamos nós com os desafios. Resgatando a inteligência emocional que não nos quiseram transmitir, para que quem venha atrás de nós seja mais ciente do seu valor. Às vezes, o segredo é deixarmos a rigidez de lado e lançarmo-nos na onda, sem nunca perdermos a vontade sonhar. Quem disse que não podemos criar a nossa própria porta? E se eventualmente partir, sempre a podemos ajeitar, ou simplesmente construir outra e pintá-la na cor que desejarmos. As opções são infinitas.

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