A ilusão da criatividade na era da inteligência artificial
A inteligência artificial é, provavelmente, o tema mais discutido da atualidade. De especialistas a curiosos, todos têm uma opinião. O assunto dá pano para mangas de uma camisa de sete varas e, paradoxalmente, tornou-se quase impossível abordá-lo de forma original. Talvez porque falamos sem cessar da máquina e raramente do que ela está a mudar em nós. Hábitos, expectativas, esforço, tempo.
Sem dúvida, associada ao progresso, ao futuro e à necessidade, a IA entrou no quotidiano com o vagar de uma ferramenta inevitável e foi aceite com naturalidade. No entanto, como qualquer tecnologia que se torna dominante, começou a ser investida de atributos que antes reservávamos ao humano. Um deles é a criatividade.
Se considerarmos que a criatividade é a produção de novidade com valor, independentemente de intenção ou consciência, poderá argumentar-se que a IA é criativa. No entanto, a tradição estética, filosófica e cultural associa a criatividade a algo mais exigente: intenção, risco, responsabilidade, posicionamento no mundo. Nesta aceção (que prefiro), sem dramatismos, a IA não é criativa. Criativo é o ser humano.
A criatividade não é um efeito colateral da informação nem um subproduto da velocidade a que os avanços acontecem. Criar é escolher, arriscar, falhar, insistir. É responder ao mundo a partir do interior de cada um.
Na escrita, essa diferença torna-se deveras visível. A IA pode ser um ponto de partida útil: ajuda a estruturar ideias, a desbloquear começos, a organizar o caos inicial. Mas não pode ser um ponto de chegada. Um texto verdadeiramente criativo é aquele em que nos reconhecemos — com desvios, hesitações, obsessões e perspetivas contraditórias. Pelo meio ficam as reescritas, as frases abandonadas, os poemas e romances nas gavetas. Um texto sem frases feitas nem ideias vazias, que transmite um olhar único: o nosso. Ou seja, um texto com voz autoral, marca de uma identidade literária ou profissional.
Desde meados do século xx até hoje, a evolução da IA foi acelerada; nos últimos anos, tornou-se vertiginosa. Fala-se agora de IA generativa criativa, como se o adjetivo resolvesse a questão. Não resolve. A IA é uma ferramenta — sofisticada, poderosa, impressionante —, mas uma ferramenta. Produz resultados inesperados, é certo. Ainda assim, o inesperado não é intenção nem um gesto assumido. O ser humano é o agente criativo. A IA deve ser usada como complemento, nunca como substituto da sensibilidade, da visão e da responsabilidade humanas.
A IA funciona como uma fotocopiadora extraordinariamente rápida, silenciosa e afinada, capaz de melhorar o contraste, corrigir imperfeições e reproduzir infinitamente o que lhe pedimos. A máquina faz exatamente o que foi desenhada para fazer; o problema é o hábito que se cria à sua volta. Quanto mais cópias fizermos, mais longínquo fica o gesto original. A folha inicial — imperfeita, arriscada, humana — continua a existir, mas instaura-se uma certa ideia do desnecessário. Começa-se, portanto, a abdicar do original em nome da reprodução. Ganha-se eficiência, mas perde-se voz.
A IA não pensa. Não sente. Não tem consciência nem intenção. Tudo o que produz resulta de dados fornecidos por humanos, reorganizados por algoritmos que ajustam modelos e os reproduzem noutros contextos. Quando nos surpreende, fá-lo por cálculo, não por vontade. A novidade é um efeito colateral, produzida pelo material que vamos fornecendo à ferramenta, não um gesto assumido, intencional. É uma simulação dos efeitos visíveis da criatividade humana.
Usada para acompanhar o ser humano em tarefas repetitivas, libertando tempo e energia para a criatividade? Sem dúvida. Substituí-lo enquanto agente autoral? Essa seria uma escolha social empobrecedora.
A tecnologia ainda tem muito que aprender com o ser humano. Mas também o ser humano evolui quando trabalha conscientemente o algoritmo: ao identificar e corrigir vieses de género, raça, geografia ou língua; ao evitar a perpetuação de estereótipos; ao recusar a falsa neutralidade que tantas vezes esconde desigualdade.
O verdadeiro risco do uso excessivo da IA não é ela deixar de ser criativa. É nós deixarmos de o ser. Não por imposição, mas por comodidade. Quando tudo é rápido, fluido e aceitável, o esforço criativo começa a parecer dispensável. E a criatividade, sem esforço, sem trabalho, não passa de um bibelô bem polido numa prateleira cheia.
A não esquecer: a IA pode escrever textos, mas não responsabilizar-se por eles. Pode imitar vozes, mas não tem uma voz. Pode gerar conteúdo, mas não perde nem ganha. E é precisamente isso que distingue uma fotocópia de um original.
Reivindicar a lentidão, a imperfeição e a autoria num mundo cada vez mais automatizado não será um gesto novo, mas pode ser criativo. Não para negar a tecnologia, mas para a colocar no seu devido lugar.
Foi o que fiz, depois de longas e acesas discussões com o ChatGPT, até ele assumir que não é criativo. Eu sou.
A responsabilidade continua a ser inteiramente humana. É isso que faz a diferença.
Este artigo foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.
De menina a senhora brilhante sem e com palavras. Muito obrigada pelas dadivas literarias que se transcrevem na mente para amenizar o quotidiano.
Sempre aguardando mais. Beijinhos