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Contos

A fábrica

Quando a conheci, já ela enfiava preservativos em pénis de borracha.

Soube, mais tarde, que alargara os horizontes, dedicando-se também a enfiá-los em pénis de homens mortos. Mas isso foi mais tarde, quando o acaso me revelou esse seu talento e lhe permitiu consumar o plano. Ou quando a sua preparação encontrou a oportunidade. Talvez seja a isso que se chama sorte.

Se eu fosse realizadora de cinema pornográfico dedicava-me às curtas, disse, na primeira vez em que a ouvi falar. Algumas explodiram de riso, outras que, como eu, não dominavam a língua, limitaram-se a assistir. Costumava contar esta piada – que vim a compreender uns tempos depois – na presença de colegas novos. Para lhes testar o carácter, suponho. Chamava-se Ava Gina. Era uma afro-americana nascida no estado de Alabama mas radicada no Bronx desde os 8 anos. Um dia, pensei em explicar-lhe a que soava o seu nome em português mas receei não o conseguir fazer, pois a minha pronúncia não era a melhor e os meus conhecimentos de inglês eram ainda escassos, a eficácia da explicação perder-se-ia dessa forma.

A fábrica era um local sombrio situado no cruzamento entre a Rodney Street e a Broadway, no bairro de Williamsburg. O trabalho era muito rotineiro, tinha pouco de estimulante – recebíamos embalagens de preservativos vindos da linha de montagem e fazíamos os testes de qualidade e resistência em protótipos de membros humanos intumescidos – e para que os dias fossem mais aliviados, Ava Gina assumia o papel de animadora de um grupo composto por pessoas de várias origens. Nenhuma de nós teria sido bafejada pela centelha da vida e isso tornava a convivência diária ainda mais aborrecida.

Ava Gina entretinha-nos com histórias de quando era adolescente, nos anos em que a vida ainda não se revelara insidiosa, ainda longe dos seus anos de desgraça. Iniciava sempre com uma advertência: esta é uma história verídica. Fazia um meio sorriso e soltava as memórias. Numa ou outra vez, suspeitei que soltava também a imaginação, mas não o posso garantir.

Acho que me fui apaixonando pela sua bonomia. Tinha cabelos longos com trancinhas e a pele castigada pela dureza da vida. Se uma de nós falasse em sonhos e objectivos, Ava Gina contrapunha imediatamente com um rabugento life is a fucking bullshit. Os seus olhos brilhavam a cada vez que falava do filho, depositado na New York Society and Rights of the Children contra a sua vontade. Sempre que lhe perguntavam o nome do pai do menino respondia Holy Spirit, seguia-se uma estridente gargalhada e a consequente explicação: engravidara na primeira vez em que fizera sexo, não sentira nada porque o pénis era minúsculo e o bastard nunca mais fora visto, desaparecera como se fosse um espírito.

Morava com os únicos dois familiares vivos, numa casa pouco acolhedora. O seu tio era aquilo a que se chamava um aleijado – danos colaterais decorrentes de actividades clandestinas ao longo de toda a vida – e a tia costumava andar nua pela casa, masturbando-se à frente de qualquer um. Apesar da seriedade da situação e de serem relatos pouco cómicos, todas riamos.

Não sei dizer com precisão quando comecei a ouvir os rumores, mas ao longo dos muitos meses em que trabalhei na fábrica foram surgindo várias teorias sobre um suposto lado mais nebuloso de Ava Gina. Dizia-se, em surdina, que, afinal, a sua gravidez fora o resultado de ter sido violada pelo Holly Spirit nas traseiras da fábrica e que, para se vingar, cortara-lhe o pénis e guardara-o dentro de um preservativo. Outras conversas, mais perversas, garantiam que, durante o dia, ela era a pessoa que todas conhecíamos e à noite, uma justiceira da sua própria desgraça, de todas as mulheres violadas: fazia passar-se por uma prostituta, nas traseiras da fábrica, cortava os pénis dos homens que a requisitavam e guardava-os dentro de preservativos. O mistério foi permanecendo, como uma ferida que teima em não sarar.

Confesso que nunca acreditei naquelas conversas, eram apenas a fucking bullshit, até ao instante em que as dúvidas se mostraram. Um dia, encontrei uma mochila nas traseiras da fábrica e não preciso de vos dizer o que descobri no seu interior.

Foi o meu primeiro encontro com a morte.

Manuel Jorge

Gosta de massa de peixe, do Benfica e de livros. Não forçosamente por esta ordem. Descobriu a escrita apenas aos 38 anos, mas ainda assim bem a tempo de conseguir desprestigiar esta arte. Acha, também por isso, que tudo lhe surge demasiado tarde e que nada na sua vida é precoce, tirando a ejaculação.

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