purple flowers on paper

Querida Telma

Querida Telma,

Escrevo-te do quente agosto de 2022. Faltam-te 10 agostos para chegares aqui. Fitas-me através da moldura de sorriso aberto. Olho-te sem pressa. Reconheço-te. Gosto-te.

Daí onde estás ainda não sabes que em menos de 6 meses um golpe te vai rasgar inteira e que, sendo a mesma, não mais serás igual. A morte já ronda, há um odor a despedida que sentes mas não reconheces. A crueza dos momentos finais vai acompanhar-te sempre, mas é importante que saibas que a dada altura deixará de sangrar a ferida. Não te sei dizer exactamente quando, mas chegará uma altura em que passarás suavemente os dedos sobre os relevos da cicatriz em gesto de carícia e sem dor. Se puderes, abraça-o mais vezes. Toca-lhe nas mãos, penteia-lhe com os dedos as ondas do cabelo, dá-lhe cafuné e colo. Guarda-lhe o cheiro num cálice para o incenso imaginário das noites dificeis. Canta-lhe ao ouvido e deixa que seja ele a continuar a melodia. Guarda-lhe o som da voz. A esta distância é-me dificil escutar a sua voz e não sabia que me fazia tanta falta. Na verdade não me faz falta, faz-me saudade.

Querida Telma, sei que te dói essa amplitude de tetos altos e paredes claras e gélidas que te comprimem, as hierarquias e calendários que te esmagam a liberdade. Tentas resistir à superficialidade dos gestos, da correria inútil, das pequenas covardias diárias. Mas dás por ti enredada, num eterno conflito entre o concreto e o balanço da alma. Sei que te dói a mulher preta de bata azul a arrastar o seu balde de mágoa pelos corredores do escritório, pano húmido numa das mãos em gestos de inconsciente subserviência. Nunca saberás se te dói mais o olhar de quem passa e não vê, ou de quem vê e ainda assim passa. Mas dói-te sobretudo a cruel naturalização do indizivel. Quando chegares a este agosto o indizivel terá nome e será dito, mas o balde seguirá sendo carregado por mãos pretas.

Mas deixa-me contar-te que a altura do tecto vai diminuir significativamente, embora as paredes permaneçam claras. Aqui chegada, não mais as paredes do escritório, mas as paredes da tua casa. A tua sala de existir será agora também a tua sala de trabalho e seguirá comprimindo. Daí por dez anos, dois empregos depois, uma pandemia que ía mudar o mundo e não mudou, e seguirão sendo as máscaras sociais a tirar-te o fôlego, bem mais que as máscaras cirúrgicas que por dois anos te cobrirão o rosto. Calma. Pandemia!? Máscaras cirúrgicas!? Mudar o mundo!? Sei que é muita informação, mas fica tranquila, para o bem ou para o mal o mundo seguirá sendo o mesmo, e chegarás inteira e forte a este lado.

Queria Telma, vejo-te cada vez mais envolvida da vida desses meninos e meninas que te confiam as mãos pequeninas e as infâncias gigantes, na mais perfeita tradução de força e fragilidade. Tens aprendido tanto sobre ti e mesmo agora, já de mãos vazias, garanto-te que seguirás aprendendo. Ah, a  infância, essa eterna gripe malcurada que passou mas não passa, não passa nunca. Uma pontada aqui, uma pontada ali. Mas deixa-me contar-te que com o passar dos anos as cólicas de infância serão cada vez menos as tuas. Hoje, dói-me a infância da minha mãe. As rugas novas que nela são poesia, em mim são régua, são barómetro, são tempo. E com o passar dos anos o tempo pulsará com mais força e deixará de aceitar distrações.

Minha querida Telma, seguirás cultivando intimidade com o silêncio e com a quietude, continuarás ouvindo melhor o que te é dito sem palavras, e chegada a este agosto estarás tão mais perto de ti. Seguirás levando a espinha erecta e a convicção de que só podes entrar onde ela te caiba em posição vertical. E tens os teus. Terás sempre os teus e tens muita sorte.

Aqui chegada não haverá espanto, viver continua a ser complexo de tão simples, o tempo continua a ser cortado às fatias e tu continuas a gostar de gente e do que na gente não é tangível.  Tudo o que importa e não tem forma  sempre se demorou em ti. Continua a demorar-se em mim.

Espero-te.

Telma

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