Pequenos milagres acontecem quando menos esperamos

A casualidade, muitas vezes chamada “acaso”, é um conceito que sempre me intrigou e que nos leva a pensar em eventos que, sem uma causa aparente ou previsibilidade acontecem do nada e têm um impacto considerável na vida de cada um de nós, no que se refere às escolhas e caminhos que fazemos, na mudança do curso de vida e, diria até a inícios de ciclos inesperados.

Existem milagres que superam a casualidade, são momentos inexplicáveis pelas leis naturais da vida e desafiam todo o pensamento da lógica, ocorrendo quando menos esperamos e até contamos.

A Livraria dos Pequenos Milagres é a obra que vos trago hoje da autora Mónica Gutiérrez (editora Marcador 2024), um livro que já me tinha sido referenciado por ter uma narrativa diferente e de se passar numa livraria icónica de Londres – a Moonlight Books.

Este livro concede-nos uma escrita fluída, simples, despretensiosa que nos transporta para uma sensação de bem-estar num ambiente único: uma livraria muito especial, em que o inesperado cruza-se com a realidade das personagens. Uma decoração singular de muitos livros, com uma cúpula no edifício para a observação das estrelas, tornando a livraria um cenário acolhedor e mágico.

Toda a narrativa centra-se no interior da livraria, com o foco principal nas personagens principais, por um lado o Sr. Edward Livingstone, o livreiro “resmungão” e, por outro Agnes Martí, a jovem arqueóloga espanhola, ávida de conhecimento e de aventuras e nem as dificuldades tentadas por Edward a demovem de procurar os seus sonhos.

Mónica Gutiérrez Artero, é uma autora relativamente jovem no panorama literário, mas pela sua escrita leve já conseguiu conquistar uma franja interessante de leitores pelas suas histórias cativantes, onde a emoção e a sensibilidade estão muito presentes. A “Livraria dos Pequenos Milagres”, tradução do título original “La librería del señor Livingstone”, é sem dúvida, a sua obra mais conhecida do breve percurso literário, entre outras obras já traduzidas também como, por exemplo: “Una Navidad Escocesa” ou “Club de Lectura para corazones despistados”.

Mónica Gutiérrez recorre a vários temas nas suas narrativas, criando relações autênticas e muito emocionais entre as suas personagens, com menções à amizade, ao amor e a tramas de mistério, onde segredos são desvendados, criando um ambiente de quase “adição” do leitor que não consegue parar de ler a história, num clímax sempre intrigado, até conhecer o seu desfecho. Mónica revela um estilo de escrita e de construção das suas personagens, muito semelhante a outros autores contemporâneos, como Jojo Moyes ou Jenny Colgan que utilizam a mesma técnica de história romance, com emoção e mistério.

Na livraria Moonlight, para além de conhecermos a história principal e os personagens que coadjuvam toda a trama, encontramos a referência por parte da autora, a outras obras literárias, citações, permitindo uma coesão de descoberta da história com cultura e riqueza de conhecimento. Pelo olhar da personagem Agnes Martí, percorremos um quase tour literário pela cidade de Londres, partilhando dados históricos da cidade, tesouros escondidos, as ruas céleres de Londres e as típicas livrarias.

A narrativa central gira muito em torno da amizade entre as personagens principais Agnes e Edward, bem como de outras personagens secundárias, como o pequeno jovem Oliver Twist.

O desaparecimento de um livro valioso da livraria Moonlight vai fazer sobressair outros segredos e mistérios inesperados que vão reter o leitor nesta procura da verdade, deixando em cena, a intervenção da personagem do detective John Lockwood da polícia Scotland Yard.

Esta história imprevista começa com a decisão de Agnes Martí, arqueóloga espanhola que vive em Barcelona, de mudar-se para Londres, em busca de novas oportunidades profissionais. Enamora-se pela cidade de Londres, pela diversidade e cultura sempre presentes ao ar livre, por causalidade, descobre uma livraria peculiar em que a magia envolvente e os muitos livros parecem ter vida própria e criarem milagres capazes de transformar vidas.

À medida que explora os longos corredores da livraria e se cruza com o Edward Livingstone, o proprietário da livraria, percebe que cada livro, cada página contém histórias e sentimentos mais profundos do que poderia pensar.

A maior reflexão que tiramos desta obra é o amor e estima que podemos ter pelos livros, as forças invisíveis que nos levam à escolha de determinadas histórias e um livro, além de ser um bom “amigo” pode ser também o “motor” para nos conduzir a algo extraordinário e transcendente a qualquer acaso.

Quando menos esperamos, podemos encontrar acasos que são, na verdade, autênticos milagres.

Como diria a poetisa do século XIX Emily Dickinson, “Não há melhor fragata do que um livro para nos levar as terras distantes”.

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Antigo Acordo Ortográfico”.

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