A odisseia de uma viagem imprevisível até Nápoles

Planear uma viagem requere sempre dedicação, tempo, objetividade nas escolhas do que queremos visitar, nos locais a percorrer, nos momentos de lazer que queremos experimentar, isto é, quanto mais informação pesquisarmos e reunirmos, melhor preparados estaremos para aproveitar qualquer viagem.

Para além da informação, é preciso ter noção de um orçamento realista dos custos previstos, não esquecer de reunir os documentos essenciais para viajar e também fazer um seguro de viagem, porque situações imprevisíveis que não controlamos acontecem a todo o momento. Por isso, é recomendável anteciparmo-nos e estarmos preparados para qualquer episódio, seja positivo, seja menos positivo.

A viagem que venho contar-vos hoje, começou por ser uma viagem profissional com mais 8 colegas de nacionalidades diferentes para participarmos num evento de empresas de Telecomunicações, cada um de nós seguia do seu país natal para Nápoles, Itália.

Esta viagem profissional acabou por tornar-se posteriormente numa viagem pessoal, porque fiquei em Itália no fim de semana subsequente, mas uma viagem repleta de imprevisíveis, imponderáveis, atrasos: um avião bimotor que funcionava mal, um quase acidente rodoviário nas ruas frenéticas de Nápoles e até a presença de uma espécie “estranha” no quarto que me foi atribuído na reserva.

É claro que estou a falar-vos de uma viagem até Nápoles e posteriormente até à Ilha de Ischia, situada no golfo de Nápoles, banhada pelo mar Tirreno, numa primavera ensoleirada de um distante Maio de 2012.

Eu diria que esta viagem foi mais uma odisseia atribulada, que começou pela viagem de avião até Roma, com um atraso de 1h30, porque na contagem dos passageiros e já dentro do avião, as autoridades no aeroporto, verificaram que faltava um grupo de peregrinos brasileiros que faziam parte de uma comitiva católica do Brasil, região do Rio Grande do Sul e que se deslocavam a Roma numa viagem de visita católica e peregrinação.

Após esperarmos tanto tempo, com idas e vindas do pessoal do aeroporto para fazerem o controlo do grupo de peregrinos e depois a acomodação destes no voo, seguiu-se um enorme compasso de espera que veio a comprometer a minha conexão até Nápoles, porque não havia voos diretos de Lisboa. Descolámos, finalmente, após tanta espera em direção a Roma.

Não posso deixar de negar que estava exausta de tanta espera que era mais um “desespero”, porque queria chegar ao meu destino e conseguir chegar até Ischia onde tinha alojamento reservado e um jantar de grupo com colegas da empresa.

Todavia, eis que perdi, por escassos minutos, o meu avião de conexão até Nápoles depois de uma corrida quase maratona, percorrendo os longos corredores das conexões, com subidas e descidas pelas escadas rolantes do Aeroporto Leonardo Da Vinci em Roma até chegar ao portão de embarque previsto.

Com grande surpresa, consegui um novo voo e deparo-me com um avião bimotor de 20 lugares em mau estado de conservação (parecia quase um autocarro dos anos 70 um pouco degradado) que deixou-me intrigada e receosa em fazer esta viagem de 40 minutos até Nápoles.

Passou-me muita coisa pela mente, o que poderia acontecer se o avião tivesse alguma avaria técnica, não senti segurança, senti receio de perder a bagagem pelo caminho ou extraviar-se por qualquer destino – como já me aconteceu no passado e posso garantir-vos que é uma frustração, deixarmos de ter as nossas coisas que andam perdidas sabe se lá por onde – enfim , uma sensação estranha de alguma agonia e pensar que esta viagem que tinha tudo para ser uma viagem normal de trabalho estava a ter muitos imprevisíveis que não conseguia controlar.

Neste voo do bimotor, a deslocação prevista de 40 minutos parecia uma eternidade até que fomos avisados pelo Comandante que, devido a alguma instabilidade meteorológica, iríamos sofrer alguma pressão da atmosfera e que o avião teria de reduzir a velocidade.

A minha impaciência já era muita, só queria chegar ao meu destino, a terra firme e continuar o percurso.

Entretanto, aterrámos num aeroporto secundário de Nápoles, muito pequeno para o número de turistas fora do espaço Schengen, que percorriam filas intermináveis para fazerem o controlo de entrada. Lembro-me de ser um Maio atípico, estava muito calor em Nápoles para a altura do ano, com alguma humidade local que deixava o rosto quase encharcado de água. Estava esgotada e tão sedenta de líquidos para saciar uma sede intensa.

No aeroporto, encontrei-me com mais duas colegas da empresa, que tinham chegado também de voos internacionais, uma vinha da Dinamarca e estava grávida e a outra vinha de Espanha. Tal como eu, ambas estavam exaustas das sucessivas viagens e depois um calor quase “insuportável”.

Decidimos apanhar um táxi que nos levasse até ao Porto de Nápoles rodeado da colina de Vomero e a vista deslumbrante do Castel Sant’Elmo, para apanharmos um ferry ou hidrófilo que nos levasse até à Ilha de Ischia.

Perdemos muito tempo e, acabámos por continuar o percurso num táxi que percorreu as ruas movimentadas de Nápoles, chegou a transpor os carris do elétrico, num ziguezague de manobras perigosas e numa velocidade descontrolada que nos deixou às três enervadas. Eu estava sobretudo preocupada com a minha colega Dinamarquesa Anya que estava grávida e muito indisposta com calor.

O condutor não percebia muito bem o nosso inglês, a colega espanhola não dominava muito bem os idiomas estrangeiros, o meu italiano estava um pouco enferrujado desde o tempo de aulas para conseguir fazer-me entender e sensibilizar “aquele louco” que a velocidade era dispensável, que tínhamos uma colega grávida indisposta e que só queríamos chegar sãos e salvas até Ischia.

Os ânimos alteraram-se e pedimos que parasse imediatamente para seguirmos a pé o caminho até ao porto. Apanhámos, entretanto, o barco até Ischia e aproveitámos para descontrair do dia intenso de viagens e peripécias, foi o momento de alguma descompressão e para falar de alguns temas de trabalho.

Chegámos a Ischia ao final do dia, já anoitecia e senti que tinha feito uma viagem de quase 24 horas, mas a beleza da ilha que oferece 17 quilómetros de paraíso verde e de praias de um azul-turquesa magnético do mar Tirreno ajudou-me a ver o lado positivo desta aventura que estava longe de acabar.

Cheguei ao meu alojamento que era uma acomodação tipo villa, de 1 quarto, sala de estar e uma mini kitchenette, uma casa rodeada de vegetação tão verde em que só pensava em relaxar e tomar um banho tranquilo. Porém, a odisseia não acabava aqui (nem pensar) tinha no acolhimento e à minha espera, na porta de entrada uma osga de cor verde viscoso que patinava entre os mosaicos largos da sala e que timidamente deslizava de um lado para o outro…. Bem, nunca gostei de repteis e muito menos de osgas, sacudi-a para fora da casa e, finalmente consegui descansar do dia atribulado de viagens.

Esta viagem não teve apenas situações inesperadas, mas também serviu para aprendizagem e para disfrutar de um local muito aprazível que aconselho a visitar, Nápoles é única pela vida e energia vibrante que transmite, para além de Ischia, com a pequena vila de pescadores de Sant’Angelo que irradia charme e muita tranquilidade, as praias de Maronti, de San Angelo e as termas de Poseidon (estância termal que aconselho). Vamos ficar pela primeira parte desta viagem que tem ainda outros episódios para descobrir, quem sabe um dia vos conto…

Esta jornada significou mais do que uma experiência de viagem, revelou-se uma memória de paciência, de resiliência e até de descobertas.

Como diriam os Italianos “non devremmo mai tornare nei luoghi in cui siamo stati felici o infelice” (tradução: não voltar aos lugares onde fomos felizes ou infelizes)…

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Antigo Acordo Ortográfico

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