Um dia a sorte bate na porta!

Os anos passam e vamos vivendo acomodados. Viramos as costas aos problemas acreditando que eles se irão resolver sozinhos. Sentimos a dor e dizemos que ela vai passar e se por acaso ela se tornar insuportável, decerto que existirá um remédio para a curar. Perdemos tantas oportunidades e continuamos a acreditar que um dia elas vão voltar e que esse será o momento certo para sermos felizes.

O mundo educa-nos para sofrer e nós por comodismo ficamos ali sentados no sofá a ver a nossa dor refletida no espelho da vida. Ficamos ali como se fossemos estátuas a assistir à tragédia da nossa vida sem que tenhamos qualquer tipo de reação. Assumimos que o certo é sofrer e não procuramos uma saída para este túnel escuro onde nos escondemos, para que ninguém nos apontasse o dedo, dizendo que éramos loucos.

Reclamamos do passado como se ele fosse o único culpado da nossa dor e não assumimos que foi a nossa cegueira e os conselhos errados de uma sociedade que não nos defende e muito menos nos conhece que nos levaram até a este beco sem saída em que ficamos a olhar para o jardim lá fora e a dizer que ainda é Inverno e que as plantas só florescem na Primavera. Repetimos o que nos ensinaram e não nos damos ao trabalho de ir ver se está frio ou calor, para podermos ter a certeza de que estamos na estação certa.

Passamos uma vida inteira a inventar desculpas para não tomarmos as nossas decisões e um dia quando já pouca escolha temos lamentamos o tempo perdido, como se o problema fosse dele e não nosso. Quando já mal nos conseguimos mexer responsabilizamos o passado, como se ele fosse o mau e nós as vítimas. É mais fácil lamentar-nos da nossa sorte do que assumir que nunca tivemos coragem para lutar pelo que queríamos e agora não temos outra escolha que não seja aceitar que não aproveitamos a vida.

Acostumamo-nos a que outros eram melhores do que nós, que eles sabiam mais do que nós, deixamos que fossem eles a dizer-nos por onde deveríamos caminhar. Agora, olhamos para os nossos pés que estão a sangrar, são tantas as feridas que talvez já não tenhamos tempo para as curar.

Os anos passaram e foi assim que levamos uma vida inteira adiando as nossas decisões, com receio de que os outros não as compreendessem. Gastamos o nosso tempo a reclamar de tudo o que nos fazia sofrer, mas não tivemos força, nem determinação para ir à luta e mostrar o que queríamos para a nossa vida.

Não caímos e não evoluímos. Fomos o que o mundo quis e não críamos a nossa identidade. Não fomos guerreiros, nem tivemos ousadia para mudar o que não estava bem. Vivemos acomodados com a nossa sorte e não procuramos outro rumo para as nossas vidas.

O tempo passou e o mundo que nos educou é o mesmo que agora nos ignora. O mundo que nos reprimiu é o mesmo que passa por nós e nos chama de velhos e segue em frente dizendo que temos os dias contados e não valemos para nada.

Gastamos a nossa vida sem a viver à espera de que um dia a sorte batesse na nossa porta e agora já nem a porta somos capazes de abrir.

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