As últimas 24 horas de vida são as mais humanas!

Se hoje fosse o teu último dia de vida até onde ias, quem escolhias com quem passar o teu final?

E já agora, morrias feliz pela pessoa que te tornaste?

Tantas respostas que ignoramos, apenas tentamos chegar a casa, ignoramos o facto de nem todos terem essa possibilidade.

Se amanhã tivesses um acidente de carro, e enquanto ele capotava e terias consciência do impacto quem seria a primeira pessoa que te viria à cabeça?

Se houvesse um tremor de terra, neste nosso país plantado à beira-mar, quem é que ia receber uma chamada tua de preocupação?

A qual seria a primeira porta que ias bater para saber se estava tudo bem?

E no dia do funeral da pessoa importante que perdeste, qual foi a pessoa que permitiste que estivesse perto e visse todas as tuas lágrimas?

Tudo isto tão triste, mas real. Todos os dias alguém vai abraçar alguém especial e nunca mais se vão ver.

Esta será a última noite de vida de alguém que ainda queria continuar a viver. Alguém está consciente de que estes serão os seus últimos dias, enquanto, que outros serão apanhados desprevenidos.

E no fim, quem resta para abraçar? Que sonhos ficariam por realizar? Terá valido a pena adiar situações inadiáveis? E ter suportado todos os lugares aonde não queríamos estar. Gastar tempo a sofrer por situações que se tornaram insustentáveis, a estudar em lugares onde não aprendemos, a trabalhar uma vida a fazer o que não queremos. Terá valido a pena o orgulho de não nos reconciliarmos com pessoas que irão sempre significar tanto, e fingimos que não.

Afinal o ego morrerá connosco ou seremos capazes de o matar antes de morrermos?

Se fosse o teu último dia quais seriam as melhores memórias, de quem fugiste e devias ter enfrentado? Qual foi o trauma que mais demoraste a cicatrizar? Nenhum de nós consegue imaginar o quão frágil é a vida. Como uma folha de papel amarrotada, que dobramos, desdobramos, guardamos, abrimos, mostramos, lemos, deixamos ler, e no fim pode a qualquer instante, sem qualquer aviso ou sinal, simplesmente voar. Simplesmente voar, e perdemo-la.

Tudo o que ainda desejávamos escrever, ficará por escrever e só não saberíamos o que queríamos escrever. Porque já ninguém vai saber. É só uma folha que foi com o vento, como todos os dias tantas vidas vão com o vento, ou a maré.

Tanto valor, tão frágil.

E se hoje for o nosso último dia? A má notícia é que para algum de nós será. O dia tem infinitas possibilidades, e as escolhas que se tornam tão óbvias no fim de uma vida, porque é que são tão difíceis durante a vida?

Porque é que os medos se acumulam, substituem uns aos outros? Temos medo de pedir perdão e ficar numa posição vulnerável, mas se tivéssemos a certeza de que não nos restava muito tempo, maioria de nós pedia desculpa, perdoava, abraçava, e sentia-se culpado pelos anos de ausência. E é aqui que os medos se substituem. O arrependimento avança uma casa e a saudade retrocede duas casas.

Que jogo difícil e complicado, mesmo quando as respostas são tão óbvias.

Quem é que ficou para trás, que querias ter levado à tua frente? Quem é que se perdeu? De quem é que esperas um pedido de desculpas? E quanto Amo-te é que ficariam por dizer? De quem é que nunca te fartarias? Com quem é que estarias de mão dada até a teu último segundo de vida?

Qual o último pensamento? E o último desejo?

Isolavas-te? Ou preferias passear junto a estranhos? Terias coragem de contar aos teus ou preferias protegê-los da notícia?

Quem é que somos, desta forma que nos define. A humildade nem sempre está presente, e acho que é normal. Imperfeitos de tantas formas, abrimos fendas em imagens que tanto desejámos que permanecessem intactas. Os filhos são uma flecha que lançamos ao mundo, como ficariam eles sem nós? E os pais? Será que perdoariam todos os erros e lhes diríamos tudo o que desejámos que nos tivessem dito?

Fazemos tudo o que podemos, mas o nosso tudo é moldado por limitações que nem sequer tentamos ultrapassar. Nós não pensamos no rumo da vida todos os dias. Não questionamos sequer o motivo pelo qual estamos vivos. O que é que nós temos que nos distingue das pessoas que já não tiveram direito a um novo dia para ver.

Se tudo o que desejamos era que o nosso último dia fosse em paz, tudo o que praticamos no dia-a-dia é tornar a nossa vida caótica. Entupidos com mensagens de pessoas que nada nos dizem, sem tempo para visitar quem faria tudo por nós. Trocamos a presença de quem nos ama, por quem em pouco tempo terá sido apenas visitante da nossa vida. É tal e qual o comportamento adolescente inocente, que acha que os seus melhores amigos serão aqueles para sempre, e com a vida vai descobrir que na sua maioria dali a dez anos vão passar por si e nem se vão falar.

Continuamos tantas vezes sem saber o que fazer com os ditos 365 dias ao ano, que temos como adquiridos assim que comemos as doze passas e bebemos champanhe. Como é que poderíamos converter essas doze passas e pedir um desejo realista que se pudesse concretizar em 24horas?

Afinal, talvez, se só tivéssemos um dia de vida queríamos o que é fácil, acessível, não custa dinheiro nenhum. Acho que queríamos o colo dos nossos e provavelmente partir com a esperança de que nos pudéssemos todos reencontrar. Nós, os nossos, os que amámos em segredo e até quem não nos amou tanto assim. A humanidade depende da humanidade para sobreviver. A pele, os cheiros, os olhares que ditam testamentos, o toque e o abraço firme de quem queríamos que se tornasse eterno. E infelizmente, mesmo que nenhum de nós seja eterno, a verdade é que são as memórias que nos acompanham até à nossa eternidade tão finita como a folha de papel que perdemos com o vento.

Sejam felizes!

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