– De que te serve assim o presente?
– O presente serve para ser passado no futuro.
– Isso é viver no passado.
– Não.
– Não? Pensa no que dizes.
– Nem tudo o que te fazem a ti crer é verdadeiro.
– E que me fazem a mim crer?
– Que é fatídico pensar no passado. Misericórdia aos Homens que não sabem ver o infinito das cores da mesma condição. Nenhuma circunstância ou Homem se encerra numa frase. As dissertações que a cada observação se podem fazer. Ainda que não as possamos a todas ler, nem todas escrever, que as saibamos pensar. Dá-me cóleras isso, isso que pensas e isto que constato.
– O presente serve para ser passado no futuro, disseste-o tu. Que é isso senão viver no passado? E, se no passado vives, que fazes tu no teu presente?
– É tornares a vida, vida.
– Não te entendo. Cada vez te entendo eu menos.
– Consegues recordar-te de todas as circunstâncias de tua vida?
– Não.
– Esquecer é não existir. Não lembrar é não ter.
– Nem sempre é isso mau. Há ele coisas que mais vale que caiam em esquecimento.
– Crês mesmo nisso?
– Tal qual estar aqui.
– De que te serve ter tido a mais esses dias, em tua vida, se os esqueceste?
– Já aqui estás encolerizado com esta conversa e a mim me estás deixando no mesmo estado. Não te apoquentes que não é isto importante. Não nos apoquentemos, digo antes assim. Mas antes que isto me esclareças: se é teu presente passado no futuro, o que és tu hoje?
– Sou Homem de história, de uma vida que muito alberga em memórias, que de tão pensadas, moídas, degoladas, embrenharam em mim. Só circunstância de saúde me rouba a vida tudo o quanto vivi, passado em excesso, sedimentado. Pensares o passado é nele esculpires tijolos que se edificam. Tu, que não o pensas, és cabana de madeira que vai com o vento. Se só tens o agora nem disso sabes beber que preste, por não saberes que fazer com os momentos. Nem te vale a pena vivê-los a bem dizer, se mais nada te dirão. Se lá à frente deles não te lembras, não os tiveste. Eu, que tenho o passado comigo, tenho todos os momentos em mim. Sou história. E tu, que aqui estás hoje, dele farás parte no futuro. Porque me lembrarei de ti.
Presente. O passado do futuro.
19/03/2020
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