Então, porque não voas?

Aquele sonho preenchia-lhe as madrugadas desassossegadas desde que era criança. Era sempre assim: ficava a observar-se frente a um espelho, abismado com as asas colossais e vigorosas que irrompiam das suas costas. Encarcerado num quarto frio e pardacento, sentia a vibração dos dois membros a suplicar por ar e nuvens e céu e altitude e liberdade. Tinha sede de voar, mas as paredes daquele calabouço impediam-lhe qualquer tentativa de evasão.

Quando despertou do sonho, a escuridão da madrugada espreguiçava-se para dentro do quarto. Esperava-lhe mais uma noite de insónia, ocupada nessa espera angustiante pelo momento em que a luz do sol viria substituir a do pequeno candeeiro. Impulsionou o corpo ainda dormente para fora da cama e ouviu o soalho ranger. As olheiras vestiam-lhe os olhos.

Acendeu um charro e deixou que o aroma da erva lhe despertasse o olfato. Deu três bafos, pousou um vinil da Billie Holiday no gira-discos e sentou-se à secretária para escrever. Bateu à máquina alguns versos de rajada, como se respirasse sofregamente com a ponta dos dedos:

anoiteceste e deixaste-me
só.
não aprendi a aceitar a
incoerência cósmica
de não te ter aqui
para me segurares o peso da
existência.

ao contrário deles
nunca tiveste hora marcada para a
Revolução.
as tuas asas
insubmissas
fazem-me falta.

Os primeiros raios de sol iam pintando de laranja a linha distante do horizonte, mas ele não deixava de se sentir invadido por aquela tonalidade triste de cinzento. Já nem a cadência sonora da máquina de escrever era capaz de lhe adormecer a inquietação.

Subitamente, sentiu uma vibração familiar nas costas e percebeu que não podia deixar para depois: tinha chegado o momento da sua fuga. Guardou o poema no bolso, abriu a janela e bebeu avidamente a frescura da manhã.

Por fim, abriu as asas e voou.

Share this article
Shareable URL
Prev Post

Será que partilhamos a nossa realidade?

Next Post

Os nossos viveres

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Read next

Música.

Num destes dias passei pela praça de Espanha, um pouco antes das 20h, vislumbrando por estes os reflexos e…

Overdose de felicidade

Quando olhava para ele ainda se admirava de como era possível gostar tanto de alguém. De como era tudo tão calmo…

Abreviámo-nos

Sonhas-me, quis saber. Em todos os bocadinhos de vida, sentiu ele. Tenho lembrança de andares por lá, de um lado…