Desfruta a viagem

Seguirmos o nosso sonho não é mais que a atitude mais íntegra (e, no entanto, mais fácil) que temos que tomar durante a nossa vida. Todos, ou muitos, estão preocupados com aquilo que “devem” fazer a seguir, sem sequer olhar primeiro para dentro e, a partir daí, subjugar o ser que se é a escolher aquilo que já está há muito tempo traçado no nosso coração. Somos aquilo que sentimos, mas mais importante , se calhar, que o sentimento em si é a consciência do impacto (e força) desse fenómeno em nós.

A verdade é que é precisamente quando nos aceitamos como um todo que conseguimos encarar o futuro de frente. E quando falo em encarar de frente, falo obviamente em não nos preocuparmos com a pseudo-opinião dos outros (no sentido em que somos indiferentes a interpelações não construtivas), que visam afectar o nosso ego, mais que ir ao cerne da questão. A superficialidade morre em si mesma. O amor que temos por nós mesmos é o motor da humanidade e deve ser por ela, e não pela materialidade que se lhe dá substância errónea, que devemos saber, se possível desde cedo, qual o nosso talento, qual a nossa paixão, qual o nosso amor.

Deste modo, e regressando ao mote (universal) inicial, para conseguires ser verdadeiramente feliz — e não apenas versões rascas de alegria e conforto —, deves (tens!) de, além de amar os outros como a ti mesma (num sentido não tão literal), abraçar os teus sentimentos, esperar o melhor deles, aceitar a nossa irracionalidade e ir em busca de dar a tudo o que somos um sentido. Dar substância à nossa alma aceitando toda a poesia que há em nós”. Desta forma, estamos a conseguir integrar um esquema moral, segundo o qual a paixão adjacente a tudo o que existe está mais que assegurada. Aliar isso, essa magia, ao esforço, trabalho e dedicação, fará com que te sintas completo na tua genuinidade afectiva.

É preciso coragem para ter sucesso. E para termos sucesso basta aceitar que o que é profundo não é ilusório, senão o nosso maior alicerce. Por isso e para sermos mesmo felizes, precisamos de seguir o(s) nosso(s) sonho(s) e, para tal, temos que saber aquilo de que somos feitos, o que está por detrás do pano de fundo da nossa orquestra (interior) e não ter medo de ter audácia de lá chegar: onde quer que isso seja. Pois, cedo ou tarde, o que está destinado a ser é e o protagonista somos nós, se nos permitirmos pensar fora da caixa, sair da zona de conforto e, sobretudo, transformar os medos em acções.

Álvaro de Campos uma vez escreveu que “afinal, a melhor maneira de viajar é sentir” e não podia estar mais de acordo porque, de facto, é através da nossa irracionalidade (imaterialidade) que conseguimos ir mais além. Muitas vezes, na vida, a nossa racionalidade mata, auto-mutila a nossa alma, a nossa essência, o nosso Eu mais profundo, sem sequer nos apercebermos da calamidade que é ser e não estar. É provavelmente este o maior flagelo do nosso tempo: a cultura da individualidade sem um colectivo; o eu (sempre) primeiro que um possível — e maravilhoso — nós.

Abre as portas ao mundo através daquilo que és e, consequentemente, daquilo que instintivamente queres vir a ser. Porque as mais fiéis e verdadeiras ambições da vida começam e acabam em ti: no que és e nunca pediste para ser, de tão belo e (ir)real(ista) que é. Aceita o que não podes mudar com tranquilidade e foca-te no presente. Tal como Gustavo Santos uma vez disse, “o presente e o agora não são a mesma coisa; o presente é, tal como a palavra diz, um pré-sente: é antes de sentir”. O agora é, portanto, o caos da vida, que é, e sempre será, lá no fundo, uma ordem por decifrar.

Boa sorte nessa jornada pelo desconhecido: desfruta a viagem.

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