Ensaio sobre a cegueira – Ficção ou Realidade

Considero o livro Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago como o mais fascinante, inquietante, arrepiante, lúcido e realista que alguma vez tenha lido. É um livro que depois de se ler, por muito tempo que decorra, nunca se esquece.

Li-o pela primeira vez no já longínquo ano de 1996 e, apesar de conhecedor e admirador da obra do autor, antes de o ler, fiquei com a percepção que iria ser um livro difícil de compreender, muito devido à opinião generalizada de quem já tinha explorado o mesmo. Mesmo assim, aventurei-me e embrenhar-me nesta obra, onde Saramago chama o livro de terrível e tem como intuito que o leitor tenho o mesmo sofrimento a lê-lo que ele teve a escrevê-lo.

Sinceramente, existiu passagens do enredo que me impressionaram de tal maneira que tive de parar a leitura por momentos para recuperar o fôlego, para de seguida voltar a mergulhar nesta esplêndida obra de arte. Confesso que durante a sua leitura, por alguns instantes, os meus olhos ficaram lacrimejantes.

É um daqueles livros que nos faz reflectir, não só no momento que o lemos, mas também durante bastante tempo naquilo que a humanidade está a transformar a nossa sociedade. Para quem ainda não o leu, aconselho vivamente a sua leitura e a sua profunda reflexão da mensagem que o mesmo nos transmite.

A obra narra a história de uma epidemia de cegueira branca, que o autor utiliza como metáfora para dar a conhecer os que não pensam de acordo com o pensamento comunista, dado que é uma critica ao Capitalismo. Esta epidemia começa a espalhar-se numa cidade sem motivo aparente, causando um grande colapso no quotidiano dos habitantes e abalando as estruturas sociais existentes.

A cegueira inicia-se num único homem, enquanto está sentado no seu veículo, parado num semáforo. É aí que, em contacto com as pessoas que correm ao seu auxílio, que se forma uma cadeia sucessiva de cegueira. Uma cegueira branca, como uma névoa consistente e nunca vista, alastrando-se rapidamente em forma de epidemia.

O governo, para estancar a mesma, resolve agir, colocando as pessoas infectadas em quarentena num velho hospício abandonado, afastados de tudo, com recursos extremamente limitados e pondo em causa a sua sobrevivência. O epicentro da epidemia não diminui com as soluções apresentadas e rapidamente vai alastrando por toda a cidade, onde apenas uma mulher, misteriosa e secretamente, manterá a visão, enfrentando todos os horrores que serão causados aos cegos. Lutas entre grupos por causa da escassez de alimentos, desespero pelos doentes e pelos mais necessitados, crianças e idosos que vão sofrendo com a falta de soluções, actos de violência e abuso sexual protagonizados pelos mais fortes, mortes e desespero sem fim…

Ao conseguir finalmente sair do hospício, depara-se com o caos de uma cidade completamente infectada. Por toda a cidade, vislumbra cadáveres amontoados, lixo, imundice e destruição. Os cegos passaram a seguir os seus instintos mais básicos, vivendo como nómadas e lutando pela sua sobrevivência.

Saramago mostra, através desta obra intensa e sofrida, as reacções do ser humano às necessidades, à incapacidade, à impotência, ao desprezo e ao abandono, levando-nos a reflectir sobre a moral, a ética e o preconceito. A sociedade está a tornar o indivíduo cada vez mais virado para si próprio, tudo o que nos importa são as nossas necessidades e ambição os nossos sucessos, mesmo que isso implique não olharmos para o nosso interior, para a nossa paz e fraternidade, vislumbrarmos apenas os fins sem olhar aos meios.

Este livro alerta-nos para esta dura realidade. A humanidade perdeu a capacidade de viver em comunidade, de nos auxiliar uns aos outros, amparando todos aqueles que necessitam do nosso amor e carinho. Deixámos de olhar para o nosso semelhante, porque estamos sempre com pressa, com horários a cumprir, com inúmeros pensamentos ao mesmo tempo. Nem à nossa família nem aos nossos filhos damos atenção, ou porque temos afazeres a cumprir ou simplesmente porque estamos cansados.

A verdade é que todo aquele que não vê aquilo que está no seu coração e ao seu redor ou o que diz respeito a quem está mais próximo dele e que só se vê a si é cego na sua ignorância e egocentrismo. Temos de compreender que necessitamos todos uns dos outros, sem guerras, quezílias e ódios. O mundo tem de ser um lugar de harmonia e, para isso, temos todos que parar para pensar e reparar no sofrimento do próximo, sem pressas, olhando com os olhos do coração.

Ensaio sobre a Cegueira um livro memorável, com uma mensagem que nos obriga a reflectir e a olhar com outros olhos para o mundo em que vivemos. Um mundo onde nem tudo é colorido, mas que, com a ajudada de todos, poderemos criar um mundo melhor, sem cegueiras…

Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.

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