Renascer

O Sr. Faustino tinha uma sapataria. Era um local escondido entre a loja de alguma coisa ( alternava com bazar chinês, frutaria ou restaurante ) e a de antiguidades. A dele era a mais antiga a estava instalada desde o século anterior. Sapatos todos usam e, durante muitos anos, era o ponto de encontro das donas de casa apressadas e daqueles que se viam numa aflição: ” Ó Sr. Faustino, veja lá o que tem para mim. Tenho um casamento e nem me lembrei dos sapatos “, diziam os homens, incautos e desprevenidos. “Sr. Faustino, quero um sapatinho elegante e que não magoe. Tem que ter um saltinho. É para o casamento da minha sobrinha”, pediam as senhoras, mais atentas à etiqueta e ao toilete. Agora tinha perdido o seu uso permanente porque os chineses vendiam tudo, até sapatos e as antiguidades eram mediáticas.

Era um homem apagado, curvado pelo peso dos anos e carcomido de saudades. Estava sozinho no mundo. Os filhos tinham morrido, um a um, de doenças e acidentes, levando a mãe a um sofrimento tão profundo que nunca mais saiu da cama. Foram anos de hospital doméstico, a sair da loja para lhe dar os medicamentos e aquecer a sopa. Fechava o estabelecimento a horas e só saía de casa no dia seguinte. Um dia os comprimidos deixaram de fazer efeito e a D. Etelvina finou-se. Em boa das verdades foi um alívio para ele que estava cada vez mais caduco e desgastado. Ficou com a loja como companhia e muitos anos para viver em sintonia com a solidão.

– Bom dia Sr. Faustino, como vai a sua vida? Era a pergunta que todos faziam ao passar à porta da loja.

– Vai-se andando e acordando todos os dias. Já não é nada mau. E recolhia-se ao interior onde os pares de sapatos eram tão antiquados e monótonos como a vida que ele levava. Mas ele tinha um gosto secreto, algo que ainda lhe dava alento e o motivava a continuar. Só precisava de uma oportunidade para mostrar a todos que, debaixo daquela capa de homem idoso e gasto, havia uma alma que rejuvenescia e se sabia transformar.

A Junta de Freguesia tinha um programa de ocupação de idosos, com aulas de hidroginástica, excursões e aulas de teatro. Ele inscreveu-se, sem nenhuma hesitação, no teatro e foi então que se deu o baque na sua alma e a sua vida ganhou outro sabor. A peça era “O Mestre Finezas” e descobriu-se um dom que estava escondido, ou enterrado, havia muito. Os ensaios eram sempre agradáveis e o Sr. Faustino parecia rejuvenescer, dia a dia. Era o motor da vida que lhe carregava as baterias.

Na noite da estreia o auditório estava cheio. A pressão e as expectativas eram enormes e o elenco, que não era grande, estava muito nervoso. Ele nem por isso e conseguia acalmá-los com a sua sabedoria e sapiência. O pano abriu e várias dezenas de olhos estavam colados nele. Ouviu-se um oh! de admiração pois ninguém estava à espera de ver aquele senhor a fazer teatro. E então a sua desenvoltura a manejar a tesoura e o pente deixaram todos surpresos. Sempre o tinham como homem delicado, mas de balcão, aquilo era novidade. Quando Mestre Finezas pega no violino e começa a tocar, algo de muito peculiar sucede. As lágrimas escorrem pelas faces, soltas, sentidas e simples, respondendo aos apelos das cordas e do arco. O Sr. Faustino era mágico! No fim a ovação foi extraordinária e houve solicitações para a peça fazer uma digressão.

Todos os abordaram, admirados pela descoberta de um homem tão sensível e peculiar. Tinha chegado às suas almas, aqueles pedacinhos de cada um que só cada sabe como é. E o vender sapatos, o ter uma montra cafona e ultrapassada, deixou de ser um impedimento. Foi a mola, o motor de arranque de uma nova vida que tanta falta lhe fazia. A sua loja passou a ser a mais procurada e cheia de juventude.

Aos poucos os sapatos foram vendidos, desaparecendo para outros horizontes, fazendo caminhadas que levavam a outras paragens, mas a loja continuava lá, no mesmo local, mas com um novo figurino. Foi remodelada e a luz e as cores tomaram conta de recinto. Havia cada vez mais clientela que passou a ter um novo nome: alunos. E onde se lia, anteriormente, Sapataria, passou a figurar Escola de Música. O Sr. Faustino passou a ser conhecido pelo professor e os seus filhos e a D. Etelvina ficaram lá no alto, sossegados, olhando para um homem novo que tinha encontrado a felicidade.

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