O que de Admirável há neste Mundo Novo

“Na Natureza nada se cria e nada se perde, tudo se transforma”. A frase, que a todos nós já deu jeito nos mais variados textos e contextos, designa a lei da conservação das massas que Lavoisier, químico de profissão, francês de nacionalidade, teorizou. Corria o ano de 1785. Jean Pierre Blanchard e John Jeffries protagonizam a primeira travessia aérea do Canal da Mancha, num balão de ar quente. Em Portugal, D. Maria I proíbe a manufactura no Brasil, enquanto que, por terras de Sua Majestade, William Herschel, astrónomo, descobre a galáxia NGC 4565.

Três séculos volvidos e eis-nos, sociedade do três-ponto-zero, rodeados de bits e bytes, ‘tecnologicodependentes’, embrenhados na rede e reféns do status (da também rede) social.

Lavoisier continua a ser uma referência e a sua célebre frase um chavão recorrente. No entanto, dos tempos que se mudaram, mudou-se também o conceito: efetivamente tudo se transforma, mas à Natureza substitui-se o maravilhoso mundo da tecnologia.

Criar, tecnologicamente falando

Pode haver quem por este século defenda que tudo o que à nossa imaginação seja possível conceber, já outro alguém o inventou. Se assim for, aos que ambicionam vir a constar numa alínea de uma enciclopédia universal envergando o cognome de inventor, terão certamente na tecnologia (o) meio caminho andado. “A tecnologia não é apenas uma maneira de fazer coisas novas. É também uma nova forma de ver as coisas. Se pegarmos nos elementos já existentes e os combinarmos de uma maneira diferente, o resultado será certamente algo de novo”. Clay Shirky, escritor, professor e consultor americano na área da tecnologia resume assim o potencial de reinvenção e recriação que as ferramentas tecnológicas colocam à nossa disposição.

Pensemos tão-somente no objecto sobre o qual nos sentamos: se, depois de alguém ter visionado que uma tábua apoiada sobre suportes servia para nos sentarmos, mais ninguém tivesse sido tentado pela criatividade e a tecnologia não lhe tivesse aguçado o engenho, não teríamos hoje a possibilidade de nos sentarmos sobre cadeiras que deslizam sobre rodas, inclinam e reclinam sobre si, cheias de factos e artefactos que as tornam capazes de se adaptarem às exigências/necessidades ergonómicas de cada um de nós. Porém, admitindo que a este exemplo poderá faltar a pompa que o desenvolvimento tecnológico do século XXI enverga (ou não estivéssemos nós no século em que Felix Baumgartner se tornou no primeiro ser humano a ultrapassar a barreira do som, num salto de queda livre a 39 mil metros de altitude), imaginemo-nos então no nosso local de trabalho a atender uma chamada, ou a receber um sms da planta que temos na marquise.Não, não é ficção científica, menos ainda um futuro longínquo. Chama-se Botanicalls e é um projecto desenvolvido por um grupo de estudantes de pós-graduação, na Universidade de Nova Iorque, onde Clay Shirky lecciona. Segundo o próprio, o Botanicalls exemplifica na perfeição as possibilidades criativas recorrendo às coisas que nos rodeiam.

Partindo da constatação de que vivemos monitorizados por sensores, o grupo idealizou a possibilidade de quem tem plantas poder ser alertado quando estas efetivamente necessitam de água ou estão sob demasiada exposição solar. Constituído por sensores de humidade que são colocados no solo, o Botanicalls envia um sinal para um equipamento capaz de realizar uma chamada se a planta estiver demasiado húmida ou seca. Ao atender o telefone, o destinatário ouvirá uma gravação, cuja voz é personalizada consoante a planta. Segundo Rebecca Bray, uma das mentoras do projecto, a diferença está, sobretudo, neste aspecto de personalização da voz que acaba por “humanizar” as plantas, representando assim, um esforço de compreensão inter-espécies.

A par do Botanicalls, Clay Shirky evoca um outro exemplo de reinvenção assente nos instrumentos tecnológicos que nos rodeiam e que usamos diariamente. Denominado Rapid FTR, o projecto consistiu, não em criar algo completamente novo, mas em tornar mais rápido e eficaz o programa FTR – Family Tracing and Reunification. Este programa, assente no reconhecimento facial como meio de reunir famílias separadas por catástrofes naturais ou guerras, exigia que a UNICEF dispusesse de duas infraestruturas: uma encarregue de toda a recolha de informação, incluindo fotografias e dados pessoais, e uma outra responsável pelo processo de impressão, catalogação e disposição do material nos diversos campos de acolhimento. Além de exaustivo, o FTR era um sistema muito moroso. O que os estudantes fizeram foi concentrar toda a informação recolhida nos campos de acolhimento (captação de imagem e recolha de dados pessoais) no mesmo dispositivo que, logo de seguida, envia toda a informação para uma base de dados que passa a estar disponível para ser acedida em qualquer lugar. Tudo isto através dos dispositivos que diariamente nos acompanham como smartphones, tablets ou PCs e uma ligação à internet. Aqui, segundo Clay Shirky, o momento-chave de criação aconteceu quando os estudantes se deram conta de que, utilizando as ferramentas que tinham à sua volta, poderiam desenvolver algo de novo que ajudaria a tornar o programa FTR mais rápido e eficaz, sem que todo o processo necessitasse de ser alterado. “Ao invés de reinventarmos o processo inteiro, por vezes, devemos atentar especificamente na parte que tem mais problemas funcionais”, conclui o docente.

É facto que estes dois exemplos são apenas gotas no oceano que a tecnologia representa no nosso mundo, mas se os analisarmos à luz do que mecanismos tão simples podem representar na melhoria da nossa qualidade de vida e, nalguns casos até, no atenuar de problemas sociais e humanitários, talvez não nos seja necessário inventar mais nada. Talvez tudo se possa transformar.

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