Vacinar ou não vacinar? Eis a questão

Neste estranho mundo em que vivemos, várias vezes ouvimos falar de certas teorias da conspiração, teorias que se expandem tanto na área mediática, como é o caso daqueles que acreditam que o Elvis Presley continua vivo, tanto como aqueles que acreditam que grupos como os Iluminati controlam o mundo.

No meio de tantas teorias, algumas um pouco malucas, outras que parecem bastante possíveis, a medicina não fica de lado. Exemplo disso é o que está a acontecer com as vacinas e que até inclusive está a ser um tema de bastante popularidade.

As vacinas são provavelmente um dos maiores avanços contra as doenças na história da humanidade, estima-se que com elas evita-se a morte de entre dois e três milhões de pessoas todos os anos. A primeira vacina foi descoberta em 1796 por Edward Jenner e foi utilizada para combater a varíola. A partir daí, várias foram as vacinas descobertas para doenças como a raiva, o tétano, a tuberculose, a poliomielite, entre muitas outras graves e mortais doenças. Apesar disso, tristemente, as vacinas não chegam a todo o mundo, pelo que cerca de dois milhões de pessoas morrem anualmente por doenças que poderiam ser evitadas.

A poliomielite (também chamada de paralisia infantil) é uma doença de graves sequelas e, graças às vacinas, está próxima a ser erradicada, enquanto que o sarampo teve reduzida para 74% a sua taxa de mortalidade em apenas uma década.

Contudo, algumas destas doenças estão a reaparecer em alguns países desenvolvidos, onde praticamente já se encontravam erradicadas. A difteria, doença causada por uma bactéria que provoca a inflamação das vias respiratórias, foi fortemente combatida na Península Ibérica, durante 1945, quando se iniciou uma campanha de vacinação, eliminando totalmente a doença e 1987. Em Portugal e também em Espanha, a imunização não é obrigatória e pode ser rejeitada por motivos religiosos, ou de consciência.

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Na Espanha, em Junho deste ano, um menino cujos pais eram contra as vacinas e eram partidários de medicinas alternativas, adoeceu gravemente e foi diagnosticado com difteria. Acredita-se que a criança de seis anos talvez tenha sido contagiada por ter tido contato com algum portador assintomático que talvez tenha vindo de outro país. Nesta situação, a Espanha não tinha no seu stock farmacêutico a antitoxina utilizada para tratar a doença, pelo que foi trazida da Rússia. Apesar disso, a doença avançou rapidamente e o menino acabou por falecer. Nos EUA, em 2013, registaram-se 438 casos de caxumba e 189 de sarampo, todas doenças que podem ser prevenidas com vacinas que existem há anos.

No entanto, devemos de nos perguntar o que é que leva os pais a colocarem em risco a saúde dos seus filhos? Quais são os motivos ideológicos que se antepõem à saúde e ao avanço científico?

Investigadores explicam que, à medida que as doenças são controladas e desaparecem, a população esquece as consequências das doenças, enquanto o medo dos efeitos secundários e das formulações tão químicas aumenta.

Como muitas doenças estão sob controlo, muitos pais decidem não vacinar os seus filhos e muitos não os vacinam, aproveitando também a imunidade colectiva e pensando que, se a maioria das crianças está vacinada, o vírus e as bactérias causadores da doença não se propagam. Estes pais, porém, desconhecem que, apesar disso, muitas vacinas não são 100% eficazes, pelo que é possível que uma criança vacinada adoeça, se for exposta à doença. Já para não falar do caso de certas pessoas que não podem ser vacinadas, por serem alérgicas a algum componente da vacina e dependem exclusivamente da imunidade colectiva para a sua protecção.

Se muitas pessoas optarem por não se vacinarem, a imunização em grupo desce e é quando podem surgir epidemias. Alguns estados dos EUA não permitem escolarizar as crianças não imunizadas, para assim evitar possíveis criações de infecçõess em centros educativos.

O tema é bastante polémico, especialmente nas redes sociais, onde há um grande debate em torno do “natural” face ao “químico” e até se argumenta com teorias da conspiração das farmacêuticas e dos governos. Uns defendem-nas, outros não. O movimento anti-vacina está bastante na moda, porém, ainda é bastante minoritário, especialmente aqui na Península Ibérica em comparação com os países anglo-saxões. Algo demonstrado pelas taxas de vacinação e o desaparecimento de doenças.

Deve dizer-se que, assim como existe um negócio lucrativo à volta das vacinas, também há um à volta da ideologia anti-vacina. O médico britânico Andrew Wakelfield publicou, em 1998, na revista científica The Lancet um estudo que assegurava que a vacina contra o sarampo, a caxumba e a rubéola causava autismo. Contudo, o estudo demonstrou ser falso e Wakefield acabou por ser expulso do Colégio de Médicos do Reino Unido e a revista removeu o artigo. Acredita-se que Wakefield tentava lucrar com vacinas alternativas à tríplice. Só que muitos acreditam que, por detrás de tudo isto, também há teorias da conspiração e provavelmente nunca saberemos a verdade. Apesar disso, já se publicaram outros estudos noutras partes do mundo, onde se demonstrou que não há associação entre esta vacina e o autismo.

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Enquanto isso, organizações humanitárias tentam angariar dinheiro para levar vacinas a lugares pobres, as quais, por sua vez, estão a ser rejeitadas nos lugares desenvolvidos. Em alguns bairros da Califórnia, a taxa de vacinação é similar à de países africanos como o Sudão do Sul.

Em países em desenvolvimento, a população não se pode dar ao luxo de decidir se querem vacinar-se ou não, devem decidir como conseguir que estas vacinas cheguem ao maior número possível de pessoas e, assim, evitar determinadas mortes. Membros cooperantes de organizações humanitárias, que inclusive já deram a sua vida pela causa das vacinas, como foi o caso de países como a Nigéria e o Paquistão, onde o fundamentalismo islâmico promoveu uma cruzada terrorista contra sanitários que tentam erradicar nestes países a poliomielite. Tudo isto por acreditarem que na verdade estes trabalhadores não estão lá para ajudar, mas são sim espiões e que a vacina é uma arma dos EUA.

Assim é o nosso mundo, cheio de contrastes, enquanto uns decidem se querem ser vacinados, milhões morrem por não terem acesso a estas vacinas.

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