CulturaMúsica

Out & Loud – Outubro 2019

Fique a conhecer três dos lançamentos mais marcantes do mês

Blood Harmony (FINNEAS)

Capa do EP “Blood Harmony”, lançado no dia 4 de outubro de 2019

A estreia de FINNEAS não é propriamente uma surpresa. Este jovem estadunidense é, afinal, irmão e parceiro criativo de Billie Eilish, o mais recente fenómeno feminino do panorama musical. Além de ser responsável por grande parte dos êxitos da irmã, uma vez que é produtor e co-autor das suas canções, é também um artista que pretende ter uma carreira a solo.

Blood Harmony não é um trabalho de excelência, ou particularmente disruptivo dentro do cenário pop. Ainda assim, mostra-se um alinhamento coerente e carismático, que, tanto do ponto de vista sonoro como do estético, prende o/a ouvinte sem grandes artifícios.

Lost A Friend” é um pedaço de paraíso. Não só ouvimos a bonita voz de FINNEAS, com uma suave rouquidão a lembrar Jamie Cullum, como nos vemos com pele de galinha, num sentimento de total entrega emocional ao tema. O mesmo acontece com “Die Alone“, a poderosa balada que fecha o EP, e “Let’s Fall In Love For The Night” — outro pedaço paradisíaco, com falsetes absolutamente encantadores. A doçura e o acústico desta canção deixam bem claro que este é um registo no qual o artista se sente confortável.

I Don’t Miss You At All” é outro dos grandes momentos de Blood Harmony. Trata-se de uma faixa relativamente simples, sem um preenchimento excessivo, mas que com todos os seus pequenos e frenéticos elementos acaba por resultar de uma maneira única e energética. Por outro lado, “Shelter“, uma espécie de mistura entre as sonoridades de Olly Murs e Shawn Mendes, é uma das faixas mais desinteressantes, juntamente com “Lost My Mind“, que também não deixa a melhor das sensações. São as faixas mais aborrecidas do registo, precisamente porque contrariam aquilo que parece ser o melhor de FINNEAS: a capacidade de fugir do banal e impactar.

Vale sempre a pena ouvir toda a extensão das suas músicas, sejam longas ou curtas, porque há um crescendo fascinante que ilustra muito bem a destreza de FINNEAS na produção. Neste primeiro passo oficial da sua carreira em nome próprio, essa é a sua melhor arma e característica. No geral, é um registo para as massas e que permite adivinhar uma carreira de muito sucesso para o artista. A sua ousadia e criatividade só poderão levá-lo longe, mas certamente ainda há muito mais do seu potencial que permanece por explorar.

Two Hands (Big Thief)

two hands big thief
Capa do álbum “Two Hands””, lançado no dia 11 de outubro de 2019

É o quarto álbum de estúdio e o segundo lançado em 2019 pelos nova-iorquinos Big Thief. Liderado pela fascinante voz de Adrianne Lenker, este grupo tem vindo a dar que falar no mundo do indie rock, pelos melhores motivos. Depois de U.F.O.F, lançado em fevereiro de 2019, chega Two Hands, o registo irmão do seu antecedente e o mais recente trabalho deste quarteto.

Num total de 10 faixas, os destaques parecem ser generosos. “Forgotten Eyes” apresenta a fragilidade e a doçura instável que levaram a banda estadunidense ao sucesso, tal como a faixa homónima do disco. Momentos de pura ternura, sempre com direito ao ritmo desafiante dos preenchimentos instrumentais.

Wolf” é, também, um achado particularmente delicioso; acústico, em modo balada, abre espaço para uma imensa comoção e profundidade. O mesmo acontece em “Cut my Hair“. Por outro lado, em “Not“, são as inquietações vocais de Lenker, seguidas de passeios sem destino na guitarra elétrica, que fazem desta canção uma autêntica experiência de seis minutos (e mais um dos grandes momentos do disco).

Two Hands prima pelo som orgânico que mantém ao longo de todo o alinhamento, deixando a crueza do trabalho artístico à espreita para quem quiser absorver. As imperfeições de um ensaio são, certamente, comparáveis às imperfeições de todo o tipo de sentimento humano, elemento com o qual o grupo parece manter um contacto íntimo. Ouvem-se as canções de alguém que tem algo para dizer e que vive na ânsia de deitar cá para fora, com a delicadeza e a agressividade mais naturais — e humanas — possível.

Mal Me Queres, Bem Te Quero (Bia Maria)

Beatriz Pereira, conhecida agora como Bia Maria no panorama musical português, estreia-se com um EP (extended play) de cânticos felizes, por vezes melancólicos, constituído por seis breves faixas. As principais referências deste trabalho são Maria e José, que surgem nomeados nas canções que retratam a história de amor que os une.

Não falamos de uma paixão avassaladora, facto que parece em perfeita sintonia com os ritmos de Mal Me Queres, Bem Te Quero. Através de uma voz popular e de acústicas simples, Bia Maria deixa registado o seu talento com as palavras e a forma amena, simples e tranquila como consegue dar-lhes significado.

Bróculos Com Queijo“, “Maria” e a faixa homónima do disco são os grandes destaques do alinhamento, embora sejam momentos bastante distintos entre si. Se o primeiro, que abre o EP, nos transporta para um certo estado de melancolia — quiçá até tristeza, para os/as mais sensíveis —, o segundo apresenta-se o mais preenchido de todos, com cordas e teclas carismáticas e uma sonoridade que transborda felicidade (e combina com a letra — a Maria vai aprendendo a ser feliz). Por último, em “Mal Me Queres, Bem Te Quero“, a artista despe-se de praticamente tudo e demonstra, no instrumental e na letra, a doçura e o cariz autobiográfico que poderão vir a ser características maiorais do seu trajeto.

 

When it’s out, put it loud.

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Liana Rego

Licenciada em Jornalismo, pela Universidade de Coimbra, e Mestre em Cultura, Património e Ciência, pela Universidade do Porto. Jornalista na Conexão Lusófona e crítica musical nos tempos livres (que são todos, porque não gosta de se sentir enclausurada). Ativista. Vegetariana. Apaixonada: por música, pela interpretação da vida e pela Arte de revolucionar.

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