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Um Futuro Qualquer

Com o mesmo fervor de uma claque de futebol Miriam insistia em virar a palavra do avesso. Cânticos de multidões para transformar a palavra em uníssono, e uma palavra individual servia de som para ideias não dizidas. As claques para espantar demónios colectivos, Miriam dedicando-se à sílaba interior (numa folha sem reservas) para encontrar o seu caminho. Um caminho para a sanidade possível num mundo onde a poesia surgia como heresia, afronta. A violência atentava demasiado real: autores esfaqueados, livros incendiados, palavras proibidas começavam a surgir. Um mundo secular que desconvencia Miriam sobre as noites obscuras passadas noutras épocas da humanidade. Agora? Aceitava-se o caos, o desconhecido e o ocaso. A liberdade que importava ao bolso de cada um. E isso até podia ser desinibidor para quem criava como Miriam. Com pouco a perder, Miriam apontava a palavra a esses bolsos cegos. Dentro da guerra as armas servem para ridicularizar a ambiguidade de quem odeia o sangue que lhe corre nas próprias veias, as pandemias para demonizar o paradoxal — que escreve sobre a corrupção estar na origem das cidades e na mesma frase define a cidade como o equilíbrio possível resultante da luta caótica de interesses tão diversos — e a turba, que dentro duma lava grossa, castiga quem ouse sair da linha que conduz as caixas que incorporam discussões popularuchas.

O pensamento livre já tinha tido mais fama, agora capturado por nacionalismos religiosos, orando por nações. Perante a realidade concreta a jovem árabe, que vivia na Europa e consumia peças nessas lojas de roupa de fast fashion, fechando os olhos às fábricas empilhadas de trabalho infantil noutro continente, lá ao longe, lia Amin Maalouf e não sabia distinguir tayib de zaki, abusava dos silêncios. Miriam, alvo costumeiro de gargalhadas alheias sussurava imperceptível, Amigos, não há amigos. Lia em silêncio para os mais próximos: amigos, não há amigos. Gravava este aforismo de Montaigne com a pena sobre a mão. Escrevia sem temor, discorria num riacho gramatical apoiada nessas potências, vasculhadas por dentro do seu corpo sem dor, enquanto o peito, cá fora, ruía. Um corpo frágil, braços como lapiseiras finas, postura torta, incapaz de lutar contra qualquer ódio. O corpo de Miriam não era arma, apesar de sabermos que durante tempos de ódio a virilidade ser essa arma primeira. Gatilho usado, força bruta do músculo, poder que não pode ser desperdiçado pelo mais forte, poder que não pode encontrar força entre as palavras. Linhas tortas, tremendo, possíveis terramotos, onde tremem não só as palavras, mas também os dogmas. As utopias ainda serão menos possíveis por estes tempos, dizia através das suas palavras.

A voz, esse volume que ocupa espaço e tempo, que faz sacudir cordas e pincéis, de Amr esclarecia-se pelo campo oposto de Miriam, para Amr o corpo era arma de fogo. Fogo feito noite.

Amr: A Miriam agora virou escritora, não sabiam? Uma escritora fechada no seu mundinho, resta-lhe encontrar um quarto, ou também não és mulher?

E a sala, almofadas no chão junto às chávenas vermelhas fervilhando chá, atravessada pelo aroma a frutos secos, ribombava em mais uma gargalhada-seta atirada ao centro do corpo da autora em crescendo (eu não vou crescendo como escritora porque quero, mas minto se afirmar que não sou escritora, afinal quem se dedica à leitura-escrita todos os dias desde que acorda até se deitar é o quê? pastora? empregada de escritório?).

Amr: És uma privilegiada alienada, não és do nosso mundo, nunca estás cá, não é? As pessoas preocupadas com o que podem dar de comer aos filhos, com esta depravação laica e tu com palavrinhas e jogos de ideias sem fundamento! (Amr fala assim porque se desencontrou do amour, como tantas outras coisas na vida que se desligam de nós, apenas por um pormenor. Duas letras, um segundo ou uma vírgula e distanciamo-nos para sempre dessa coisa que até pode chamar-se Amour). É este o papel destinado a quem pensa como Miriam: acusada. Uma desalinhada das palavras imediatas que queimam políticos, ostilizam impostos, maltratam quem não corre em direcção ao esgotamento. Fugitiva das palavras deste presente irritante ligado às máquinas da desilusão, que voltará a cair na repetição da fome passada, da guerra futura, dos genocídios entretanto esquecidos. Uma fugitiva indolente desta velocidade que compõe notíciários desenfreados na avalanche de conclusões simplistas, que é impressa pelos escritórios de trabalho nobre, que sobrevive na constância das notificações digitais. Miriam, que se senta de barriga cheia no silêncio, pensa por cima do abstracto e lê soprando aos anjos poéticos, faz parte desses perigosos habitantes de um século desaprendido. Quieta a ouvir sonetos que lhe trazem a flor em forma de ideia. Isto era ignorado pela maioria, outros que com os dentes afiavam risinhos e ainda questionavam: agora és escritora? (sim, sou aquela gaja que pega nas tuas perguntas, nesses dizeres que nem parecem ácidos e sentada nas esplanadas de saia à espera de ser violada, com botas negras à espera de ser apontada, sob a folha mente, desdiz-se e adultera versículos proibidos, sim, talvez seja escritora porque já nem escrevo para que me leias, escrevo porque é uma necessidade física, tal como mijar).

Como um adepto fanático de futebol, que percorre centenas de quilómetros apenas para ver a sua equipa jogar, Miriam caminhava durante horas perdida no buraco negro da palavra escrita, o seu percurso com sentido. Afinal, todos nós a partir de certa idade, e após compreendermos o fundamental da vida, necessitamos de algo que surpreenda esta base que nos torna (apenas) tontos felizes. Se chegares ao teu destino de sonho e não levares livros, cadernos de escrita, lápis carregados de palavras não te consegues realizar, não é, Miriam? Miriam sempre se soube escritora. Nesse invés da vida comum, que ecoa pelos recantos do seu quarto e das horas sozinhas, ela sabia que Amr e todos os outros que não a liam estavam confusos.

A vida dos outros afastavam-na do isolamento necessário ao seu processo de escrita, ao seu modo Montaignesco. O mergulho espesso por esse mundo onde a vida vanecia estava gravado numa palavra: Não! Como conseguir espremer tudo o que está contido naquela pomba aterrada na sua varanda? Todos os seus escritos ao longo de vários anos eram como pedras de cristal. Sonhava que num espirro as suas palavras anoréticas e lentas poderiam desaparecer. Não era esse materialismo da obra, o corpo do autor, que a salvaria. No entanto, e se tudo isso desaparecesse antes do seu corpo real? O contrário aconteceu. Talvez consequência das suas palavras, desalinhadas por várias décadas, Miriam adensou a lista de autores perfurados até ao osso, esse local onde escondemos, ao longo de gerações a podridão humana (o progresso?), matéria essencial para o sistema, perdão… para o mundo se continuar a mover entre ganância, inveja, ódio. Contas censuradas. Uns quantos quilos acumulados de gordura e sangue no final de tantos anos de leitura, música e reflexão. Em poucos segundos desaparece uma biblioteca inteira, evaporam-se milhares de horas de concertos, milhões de quadros, fotogramas, tudo isso numas quantas gramas de cinza. Repetiu-se a maldade, entre os ossos das costelas de Miriam, dezassete vezes.

Apesar de morta, Miriam vivia para sempre no papel, para os que ainda não morreram. Miriam não estava morta. Ao final, era ressuscitada todos os dias nos livros, nas revistas, na boca e mente dos que ainda faziam parte desse mundo estranho, cada vez mais encolhido, o mundo da literatura. Mas já sabemos de onde vem toda essa história do livro como necessidade do eterno, desde o tempo em que os homens gravavam traços nas cavernas, semelhantes a Miró. Nas cartas e na inspiração dos outros Miriam revivia. Tal como Montaigne, tal como Hitler.

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