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Solidão assistida

Há qualquer coisa nos aeroportos que nos aproxima. Entre o caos organizado pelos múltiplos ecrãs ou o ruído das rodas que desafiam a solidez do solo, somos muitos e somos iguais. O mesmo desamparo no olhar quando desembarcamos atordoados de uma viagem da qual trazemos um mundo novo e todo o nosso mundo interior dentro. Iguais na fragilidade com que nas alturas e sem pé ousamos um chão que não é nosso.  Iguais mesmo quando a cortina do avião insiste em fazer divisões em função das contas bancárias. Iguais na espera ligeiramente aflita denunciada pelos olhos mais abertos com que fixamos a porta de desembarque. Iguais no abraço apertado, no abraço menos apertado, na palmada nas costas displicente, no beijo apaixonado, no beijo sem toque ou até na aparente indiferença das palavras circunstanciais de boas vindas.

Ainda com a audição afectada pelo desembarque recente, verifico que estou inteira. Trago comigo os meus vivos, os meus mortos e todo o meu mundo interior, essa bagagem sem nome que nenhum controlo de segurança de nenhum aeroporto do mundo consegue rastrear. Enquanto o tapete rolante tarda em devolver a restante bagagem, penso, como sempre nos últimos meses, nos mistérios da distância. As emoções que ela provoca acontecem sempre à superfície. Debaixo da carne a distância não tem mando. Ela pode apaziguar ou adensar um sentimento, colocá-lo em perspectiva, fazer-nos revê-lo de outro ângulo, ou até revelá-lo. E é só. A matéria de que ele é feito permanece. Até a solidão, que parece visitar-nos com mais frequência à medida que abandonamos o conforto do que nos é conhecido, nada mais é do que uma companheira fiel, cuja presença oscila entre a discrição suave e a ostensiva omnipresença. Somos um bicho social, é certo, mas nascemos e morremos sós, ainda que caminhemos tantas vezes de mãos dadas.

Em Londres, cidade onde fiz morada durante os últimos meses, o Natal começou cedo. Inauguraram-se luzes, uma multidão frenética vinda de todos os cantos do globo e de telemóveis ao alto registou a ocorrência. A música alusiva à época embrulhou o momento para a posteridade. Não senti nada. Minto. Senti o que sinto sempre que estou junto de grandes multidões em momentos de igual plasticidade, a solidão a entranhar-se na pele, o arrepio da indiferença com que afastamos o olhar uns dos outros, a irremediável distância entre iguais. Um silêncio grosso a furar-me os tímpanos, o desejo secreto de uma voz que me devolva o lar e a identidade, ou de um toque que a minha pele reconheça.

Depois de me acotovelar, e em jeito de escape à multidão e ao frio, enfio-me num centro comercial. Nova enchente e o calor do ar condicionado que sufoca, mas não aquece. Sigo as pessoas de passo firme e olhar inquieto. As mesmas lojas, os mesmos presentes formatados e a sensação de alívio mas não de prazer que dá por encerrada a empreitada. Numa qualquer caixa de pagamento, a descoordenação entre a mão que tenta alcançar a carteira e a outra que tenta impor ordem aos sacos, e os olhos atrapalhados em tarefas de vigilância, que hoje não se pode confiar em ninguém. O cartão de crédito, devolvido com antipatia pela funcionária, não compra um sorriso sequer.

E de repente, no meio da azáfama, o cansaço. Uma emoção pequenina e sem nome. Esta mania das emoções nos locais mais impróprios. A culpa miudinha e inevitável que advém da sensação de que nada nos sara por dentro e saímos somando o peso das compras ao peso da dor, companheira segura da jornada infeliz. Dou por mim com bocadinhos dessa emoção anónima a ameaçar pingar pelos dedos e um desejo secreto de que estes, húmidos, esqueçam os sacos.

De novo a rua, o frio, as luzes, a multidão.

É Natal em Lisboa.

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Telma Santos

Licenciada em Direito e apaixonada pela comunicação. Entendo que o olhar para o mundo e para a actualidade deve ser feito, sempre que possível, por dentro.

5 Comments

  1. É sempre bom ler-te. Conseguiste recordar-me de sensações antes vividas. Não com saudosismo, talvez um certo alívio, agora estou em casa.
    Fico feliz por o site te ter dado destaque no facebook e patrocinarem uma publicação com um texto teu. Espero que quem venha leia tudo o que escreveste antes.

    Um feliz Natal!

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