A vida resume-se a muito mais do que trabalhar: trata-se, acima de tudo, de usufruir dos pequenos prazeres, aqueles momentos únicos que tão bem conhecemos que proporcionam felicidade pessoal, bem-estar e paz interior.
Tudo o que pudermos fazer para aproveitar plenamente estes momentos vale sempre a pena, tal como defende o célebre Chef de culinária Jacques Torres na sua conhecida citação: “A vida é curta para ser vivida – devemos comer primeiro a sobremesa.“
Todos nós temos pequenos prazeres, frequentemente secretos ou simplesmente discretos, que marcam a nossa rotina com uma sensação única de conforto. Não diria que são vícios nem excessos, mas antes rituais que podem ser de natureza gastronómica muito pessoais, capazes de transformar dias cinzentos em momentos de prazer absoluto.
Admito, sem qualquer pudor nem culpa, que possuo os meus próprios “guilty pleasures” – ou melhor dizendo, prazeres assumidamente inocentes e banais.
Começo pelo doce “amargo” sofisticado do chocolate negro com flor de sal. Quem experimenta esta combinação dificilmente regressa à monotonia do simples chocolate negro ou de leite.
A subtileza dos cristais de sal, que se desfazem suavemente na boca, realça o amargo profundo e intenso do cacau, criando uma experiência sensorial que, sendo breve, fica impressa na memória. Recomendo, assim, apreciá-lo lentamente, com tempo e consciência plena de quem saboreia pequenos fragmentos de felicidade.
Ainda no campo dos doces, aproveito para destacar o gelado de caramelo salgado, um autêntico equilíbrio entre o doce e o salgado, aliando uma textura cremosa com frescura. Diria que se revela como uma dança que começa suavemente doce e termina numa nota salgada inesperada, surpreendendo o paladar. Esta sobremesa, aparentemente simples, demonstra ser uma experiência gastronómica muito enriquecedora no equilíbrio dos sabores. É impossível não sentir boas energias após uma colherada, especialmente nos dias mais intensos e de stress.
Nas sobremesas tradicionais portuguesas, não resisto às farófias – leves como nuvens e tão reconfortantes como um abraço de infância. É uma sobremesa que me transporta para memórias familiares, sobretudo a lembrança da minha mãe que fazia este doce de forma muito especial, transmitindo um conforto emocional servido em colheradas generosas de clara de ovo em espuma, polvilhadas com canela e mergulhadas num doce e leve creme.
A cada prova sinto-me muito próxima das raízes que me formaram como mulher e pessoa, num ritual que me proporciona uma paz rara.
Quando entro no mundo salgado, o bacalhau espiritual merece destaque especial. Este prato português, envolvido num cremoso molho bechamel com um toque subtil de cenoura, é uma experiência muito tentadora. Cada garfada revela camadas de textura e sabor que transmitem um conforto profundo, como se o espírito realmente encontrasse ali um ponto de paz e bem-estar. Recomendo sempre o apreciar sem pressa, deixando que a riqueza do prato se revele lentamente e acompanhado de um bom vinho branco português.
Já o atum braseado, ligeiramente caramelizado na superfície e rosado no interior, simboliza o prazer que pode advir da simplicidade e frescura dos ingredientes.
É uma espécie de harmonia perfeita entre a frescura do peixe e a ação da brasa, que confere ao atum um sabor fumado subtil, mas inesquecível.
Uma experiência que recomendo sem reservas a todos os que valorizam sabores mediterrânicos autênticos, sobretudo nas memórias que me transportam para zonas de mar.
Contudo, há um prazer particular que não pode esperar nem ser substituído: o café expresso bem tirado. É o meu ritual diário de eleição, não apenas pelo sabor intenso e o aroma revigorante, mas pelo efeito imediato de dopamina que me oferece.
Onde quer que esteja, seja no trabalho ou de férias, o café é uma pausa necessária, o momento de centrar energias e seguir com clareza mental renovada.
É o único destes prazeres que assumo como absolutamente indispensável e viciante. Estes pequenos prazeres são, afinal, muito mais do que simples gostos pessoais; são momentos únicos de felicidade que aconselho a todos que cultivem.
Escolhermos os nossos próprios “guilty pleasures” significa valorizar o bem-estar mental e emocional, criando pequenos espaços de prazer que tornam a vida mais leve, rica e mais saborosa.
Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Antigo Acordo Ortográfico.