O direito de ser quem somos

Olhou-se ao espelho. A operação tinha sido um sucesso, disse-lhe o médico. A última das operações, a última das recuperações. Três meses depois, olhou bem para si própria, para os olhos, para os lábios, para os cabelos e decidiu que se sentia satisfeita. Não plenamente, mas mais satisfeita do que no dia anterior, do que nos anos anteriores, do que na vida anterior. Contava que a satisfação só aumentasse. Era como se tivesse encontrado uma resposta mágica para tudo. Como se tivesse encontrado um grande amor. Como se se tivesse encontrado. E agora, que ganhara essa luta, nunca mais se largaria.

Passou as mãos pela cara, puxando as peles vaidosamente. Permitindo-se ser jovem, ser uma mulher brincalhona, ser a pessoa que sempre tinha carregado dentro de si. Puxou a pele da cara e sorriu, fez comentários engraçados, observou-se ainda mais jovem, com pele de bebé. Depois, fixou-se nas mãos. Esfregou-as. As mãos poderiam denunciá-la. Não se identificava em nada com aquelas mãos do seu passado. Tinha-lhes certo nojo. Queria cortá-las.

Não podia pensar nisso.

Sorriu para o espelho, espezinhando uma qualquer voz maldosa.

Pegou no lápis dos olhos de cor azul e fez dois riscos perfeitos, colados às pestanas. Os olhos azuis pareciam ainda maiores, e sentiu-se sensual. Quis chorar. Há quanto tempo não se sentia sensual? Será que sabia sequer o que isso era? Olhou para o batom vermelho, mas decidiu-se por um gloss brilhante. Penteou bem o cabelo. Levantou-se e afastou-se um pouco do espelho, para se ver completa. O vestido azul novo para estrear o Verão quente, as sandálias da moda com um pouco de salto, o cabelo comprido e sedoso. Era ela. Era mesmo ela. Finalmente, depois de tantos anos. Tocou no corpo sentindo o tecido flutuante que a cobria, regozijou-se na possibilidade de poder ser ela própria. De ser Sónia. De ser a Sónia para o mundo, como sempre tinha sido para ela própria, como sempre tinha lutado para ser. O João tinha ficado para trás, o cabelo curto, o pénis, os pêlos. Tinha queimado o BI. O nome estava mudado, o sexo era aquele que lhe fazia sentido.

Sentia-se completa na sua identidade. Sentia-se completa na sua naturalidade. Sentia-se completa no seu direito: o de ser uma mulher feliz.

Share this article
Shareable URL
Prev Post

Raridades Fenomenais

Next Post

The Hunger Games: The Mockingjay Part 1

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Read next

Os meus mortos

Preciso de pensar que as tragédias acontecem por algum motivo, que não são só caprichos divinos. Perder alguém…

A inocência em museu

“Era o momento mais feliz da minha vida, apesar de eu não o saber“. Assim começa o mais recente (e…