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O conforto da tristeza

Havia novas drogas no mercado e aquele era o melhor bairro. As filas eram enormes e as pessoas eram tão variadas quanto a natureza. Ela olhava para o princípio da fila, dançando de impaciência no lugar, abraçando os próprios braços como se se tapasse do frio, tentando calcular o tempo que demoraria até conseguir o seu vício. Olhava para os dealers, tentava vê-los, adivinhá-los. Já conhecia alguns. Eles ficavam à porta, com um pé encostado a uma parede, com a droga preparada para venda e consumo imediato, como se fosse uma loja de pronto-a-vestir. A fila ao lado dela andava com rapidez. Ela olhava a sucessão de pessoas que lhe passavam ao lado, algumas de olhos ausentes, outras de ar envergonhado. Era a fila rápida, a fila das drogas rápidas e de extremos: euforia, sonhos e desejos. A dela demorava muito, a droga que ela consumia era a mais procurada: tristeza.

Chegou a vez dela. Não conhecia aquele dealer, o fato e a gravata impecáveis. Uma nova geração de vendedores, seguramente. Comprou vinte euros de tristeza para fumar e entrou na casa.

A música esvaziava o silêncio de forma brutal. Melancólica, puxava lembranças. Deixava que as pessoas se deliciassem na tristeza. Escolheu uma poltrona que estava vazia. As casas onde se consumia tristeza estavam muito bem decoradas, eram lugares de contemplação. Acendeu a tristeza e deu a primeira passa. Fechou os olhos e pensou que era curiosa.

Cair na tristeza era fácil. Viciante. Como mergulhar na água salgada, como fechar os olhos para apreciar o sol. Na tristeza, nada se espera. É cómoda como a certeza. A tristeza convence de que nada vai piorar. Conforta como um abraço. A tristeza conta que tudo se justifica. Perdoa como a pena. Ver uma fotografia e desejar ser diferente, uma pequena inveja amarga, perder-se nos “ses” e em tudo o que está errado no mundo, sentir que não se é capaz. Não esperar melhor, justificar os crimes. O conforto da tristeza. Era altamente convidativa e compreensiva, aquela nova droga, como uma teia negativa que pesava na alma.

Por isso era tão procurada.

Mais uma passa. E outra. Até a tristeza acabar e ela conseguir senti-la no corpo, na mente, de olhos fechados a apreciar o nada que a vida podia ser, a apreciar a facilidade com que não tinha que esperar, como se estivesse protegida num útero quente e a felicidade fosse uma luz fria, trabalhosa, irreal. Não tinha espírito para essas coisas.

A música parecia eterna como o sol. Uma voz ao longe. Um vinil de um artista dos anos 50, a voz chegava quase cortada, arranhada, perdida. Solidão. Chegava através do tempo, num atraso tão temporal quanto espacial. Como se naquele preciso momento noutro lugar qualquer do planeta, noutra dimensão qualquer da vida, aquele artista estivesse a cantar e o som chegasse até ela como uma mensagem. Agradável. Surpresa. O ambiente ajudava a droga, o ambiente fazia-a sentir-se ainda mais triste.

Adormeceu a chorar. A tristeza dava-lhe sempre sono. Teve sonhos tristes, lembrou-se ao acordar. Olhou à volta. Novas caras ocupavam outros cadeirões. Novas músicas melancólicas soavam no gira-discos. Levantou-se. Levava um pouco de tristeza consigo, remanescente de sonhos e de fumos, mas sabia que em breve voltaria a sentir o buraco negro que todos tentavam agora cobrir.

Rosa Machado

Curiosa e fascinada pelo que não compreende, bicho dos livros e criadora compulsiva de hipóteses mirabolantes. O tempo não existe quando há conversas filosóficas sobre nada, gargalhadas dos amigos, abraços a animais, viagens pelo mundo e todo o tipo de arte.

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